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Análise: Papa Leão convoca reflexão sobre uso da IA no trabalho e na guerra

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Análise: Papa Leão convoca reflexão sobre uso da IA no trabalho e na guerra

Na manhã desta segunda-feira (25), o Vaticano voltou ao centro das atenções mundiais com a publicação da primeira Carta Encíclica do papa Leão XIV.

Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade, em português) foi apresentada na Sala do Sínodo com a presença do pontífice e de importantes cardeais: o argentino Víctor Manuel Fernández, do Dicastério para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício); o canadense-checo Michael Czerny, do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral; e Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé.

Na sequência, juntaram-se à mesa as teólogas Anna Rowlands, do Reino Unido, e a congolesa Leocadie Lushombo, evidenciando a contribuição significativa das mulheres nos organismos da Igreja Católica.

Outra presença que chamou bastante atenção — e que já havia sido anunciada na semana passada — foi a de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, uma das principais empresas de IA do mundo.

Mas afinal de contas, o que é uma encíclica?

Uma Carta Encíclica é um dos textos de maior relevância que um papa pode publicar. Ela se diferencia de outros documentos papais, como Exortações, Bulas, Motu Proprio ou Constituições Apostólicas, principalmente pelo seu público-alvo.

Enquanto os demais textos costumam se dirigir à hierarquia interna da Igreja e aos fiéis católicos, as encíclicas são direcionadas a “todas as pessoas de boa vontade”, expressão que frequentemente abre ou encerra os documentos do chamado Magistério Social da Igreja.

O termo, de origem grega, significa “geral” ou “circular”. As encíclicas buscam oferecer análises, contribuições e reflexões sobre temas morais ou sociais que afetam a humanidade, sempre iluminadas pelas Sagradas Escrituras e pela Tradição.

Daí o peso do documento publicado nesta segunda-feira (25): não se trata apenas de uma opinião pessoal do papa Leão XIV concedida em uma entrevista, mas sim da reflexão e contribuição de uma instituição bimilenar acerca da inteligência artificial e de seus desdobramentos.

Data significativa para a relação entre a Igreja e a sociedade

Embora a encíclica tenha sido divulgada nesta segunda, o texto foi assinado pelo papa Leão XIV no último dia 15 de maio.

A data foi escolhida cirurgicamente para homenagear os 135 anos da publicação da Rerum Novarum (1891), a primeira encíclica social da história, que tratou do direito de propriedade, da dignidade dos mais pobres e dos direitos dos operários no auge da Segunda Revolução Industrial.

Aquele texto foi assinado pelo papa Leão XIII — justamente o nome que inspirou a escolha do cardeal Robert Francis Prevost ao ser eleito papa no último Conclave.

Assim como a questão operária desafiou a Igreja no século XIX, agora, sob o pontificado de Leão XIV — dando continuidade a um movimento iniciado pelo papa Francisco — a revolução tecnológica atual se tornou a grande questão social do nosso tempo.

A IA gera profundas preocupações sobre seus impactos no mercado de trabalho, na educação, na disseminação de informações e, até mesmo, na guerra.

Os principais pontos da Encíclica Magnifica humanitas

Contendo 245 parágrafos, divididos em 5 capítulos, o texto tem como tema central a defesa da dignidade humana na era da inteligência artificial, portanto, não se trata de um texto sobre a IA, mas sobre o cuidado da pessoa diante de uma tecnologia que não é neutra, exigindo regulamentação urgente e responsabilização para evitar o aprofundamento de desigualdades e a erosão da democracia pela desinformação.

O documento repudia as correntes do transumanismo, que tratam o ser humano como um projeto a ser otimizado. Também denuncia veementemente as novas formas de escravidão e o “colonialismo de dados”, que sustentam o avanço tecnológico à custa da exploração invisível de trabalhadores e das populações vulneráveis.

Evocando a escolha entre a soberba da Torre de Babel e a reconstrução solidária de Jerusalém, o texto apela para que a tecnologia seja sempre subordinada ao bem comum e à dignidade humana.  

Nesse sentido, a encíclica destaca a necessidade de defesa da humanidade em duas frentes críticas: o trabalho e a guerra.

O papa adverte que a automação e a busca incessante por lucros não podem justificar o desemprego em massa ou a precarização, uma vez que o trabalho é essencial à realização humana e não pode ser sacrificado.

No cenário global, a obra condena severamente o uso de armas autônomas letais, frisando que não é lícito delegar decisões de vida ou morte a algoritmos, pois isso retira o limite ético dos conflitos, reduz as vítimas a meros dados e torna a guerra moralmente inaceitável.

Impacto no cenário geopolítico

A encíclica, logo em seu início, recorda que “o anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos”, portanto, se engana quem pensa que a Igreja Católica se ocupa apenas com suas celebrações e ritos.

Num mundo fragilizado, com guerras e inúmeras disputas envolvendo utilização de recursos e possíveis novas configurações no cenário econômico, a Igreja Católica marca presença nesse tabuleiro geopolítico.

Tanto no texto, como no discurso feito após a publicação do documento, o papa Leão XIV foi enfático: “É preciso desarmar a IA!”, manifestando uma preocupação sobre como a tecnologia pode ser utilizada em conflitos militares.

Será que os chefes de Estado irão escutá-lo?

Sobre o autor: 
Raylson Araujo é teólogo formado pela PUC-SP, mestrando em Teologia e pesquisador de temas ligados ao Vaticano, Cultura Digital e Comunicação. Atua como autor, conferencista e é membro da Comissão Episcopal Juvenil da CNBB.

Quem é Robert Prevost, o papa Leão XIV?

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