As tensões entre os Estados Unidos e Cuba atingiram um novo patamar com as acusações criminais contra Raúl Castro, ex-presidente da ilha, e o envio de um porta-aviões americano à região do Caribe.
As medidas foram interpretadas por analistas como parte de uma escalada de pressão de Washington sobre o governo cubano, em um contexto de grave crise energética e humanitária na ilha.
Segundo a correspondente da CNN Brasil em Buenos Aires, Luciana Taddeo, os acontecimentos recentes guardam semelhanças com o período que antecedeu a captura de Nicolás Maduro.
“A própria CNN identificou sobrevoos muito perto da ilha de aeronaves militares norte-americanas, igualzinho ao que a gente tinha visto na Venezuela”, afirmou.
A detecção desses movimentos por plataformas de monitoramento de voos teria ocorrido semanas antes dos ataques na Venezuela, o que reforça a preocupação com o cenário cubano.
Acusações contra Raúl Castro
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou acusações criminais contra Raúl Castro e outros integrantes da Força Aérea cubana com base em um episódio ocorrido em 1996.
Naquele ano, duas aeronaves civis da organização “Irmãos ao Resgate” — fundada por exilados cubanos nos Estados Unidos e dedicada a sobrevoar o estreito entre Cuba e a Flórida para auxiliar refugiados — foram abatidas por Cuba.
Quatro pessoas morreram no caso, entre elas três cidadãos norte-americanos. As acusações incluem destruição de aeronaves, assassinato e conspiração para matar norte-americanos.
Luciana Taddeo explicou que, à época, o governo cubano alegava que a organização planejava atentados contra líderes e infraestruturas da ilha, como torres de alta tensão e refinarias de petróleo.
Cuba nega as acusações e afirma não representar nenhuma ameaça aos Estados Unidos, sustentando que a organização era terrorista e que havia invadido repetidamente o espaço aéreo cubano sem que Washington tomasse qualquer medida.
Estratégia americana
O analista internacional da CNN Brasil Lourival Sant’Anna citou uma reunião ocorrida em 16 de maio, quando John Ratcliffe, chefe da CIA, foi a Havana conversar com autoridades cubanas, incluindo Raul Guillermo Rodriguez Castro, neto de Raúl Castro.
Segundo Sant’Anna, a conversa não foi produtiva. Ratcliffe teria apresentado condições americanas para a normalização das relações, exigindo que Cuba deixasse de ser, nas palavras dele, “uma base para a espionagem dos inimigos dos Estados Unidos”, como China, Rússia e Irã.
Dois dias após o encontro, a plataforma Axios noticiou que, segundo a inteligência americana, Cuba teria adquirido desde 2023 cerca de 300 drones Shahed do Irã — os mesmos utilizados pela Rússia na Ucrânia —, além de doutrina militar russa e inteligência chinesa sobre guerra aérea.
Para Sant’Anna, essa informação também teria contribuído para a mudança de tática americana.
“Os Estados Unidos lançaram uma rede, que foi o bloqueio naval. Depois, lançaram uma isca, que é essa denúncia formal do Raúl e outros cinco”, analisou.
Crise humanitária e guerra psicológica
A crise em Cuba vai além da esfera política. De acordo com o Ministério da Saúde cubano, as sanções já não afetam apenas a economia, mas ameaçam a segurança humana básica.
Cerca de 5 milhões de cubanos com doenças crônicas têm seus medicamentos ou tratamentos comprometidos, incluindo 16 mil pacientes de câncer em radioterapia.
Para Sant’Anna, os cubanos nunca sofreram tanto quanto agora, nem mesmo durante o chamado “período especial”, após o fim da União Soviética no início dos anos 1990.
O analista avalia que, neste estágio, as ações americanas têm um forte componente de guerra psicológica, com o objetivo de gerar fissuras no regime cubano.
“Existe alguém mais pragmático? Alguém que acha que desse jeito não dá para continuar e que dá para negociar com os americanos? Esse é o estágio que nós estamos agora”, concluiu Sant’Anna, sugerindo que Washington busca identificar, dentro das Forças Armadas cubanas, possíveis interlocutores dispostos a uma reaproximação com o governo americano.

