Enquanto um surto mortal de Ebola assola o nordeste da República Democrática do Congo, muitos profissionais de saúde analisam criticamente os eventos que precederam a crise: demissões de profissionais de saúde financiados pelos Estados Unidos, escassez de suprimentos médicos essenciais e uma drástica redução no apoio americano a programas de ajuda humanitária global.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que mais de cem mortes são consideradas relacionadas a esse surto, com quase 600 casos suspeitos até o momento, e alerta que “sabemos que a escala da epidemia na RD Congo é muito maior”.
A organização também afirmou que essa cepa do vírus – para a qual não existe vacina ou tratamento específico – pode ter circulado por meses antes de ser detectada.
Há vários motivos para essa demora, segundo a OMS: a cepa incomum do vírus, a fragilidade da infraestrutura de saúde na área rural onde o surto se originou e os conflitos étnicos na região que dificultaram a realização de testes.
Mas a resposta tardia também lançou uma luz incômoda sobre os custos reais dos cortes na ajuda externa promovidos pelo governo Trump e sua retirada da OMS, a organização global de saúde responsável por gerenciar surtos desse tipo.
Embora o governo Trump esteja empenhado em atribuir a culpa a outros, trabalhadores humanitários e especialistas afirmaram que os cortes no financiamento dos Estados Unidos e as demissões em diversas áreas prejudicaram a capacidade mundial de responder ao Ebola.
Os cortes do governo Trump são de quatro vertentes: suspensão do financiamento da OMS, dissolução da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), redução do orçamento dos CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) e redução da ajuda total à saúde destinada à República Democrática do Congo e Uganda, países no epicentro da epidemia.
Todas essas medidas enfraqueceram os sistemas globais de saúde, que são vitais para respostas eficazes a surtos como este, disseram especialistas à CNN.
“Ao somar todos esses elementos, é difícil imaginar que não tenha havido um impacto na capacidade de vigilância e resposta nesses países”, comentou Josh Michaud, diretor associado de políticas globais e de saúde pública da KFF, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa e sondagens sobre políticas de saúde.
Em um exemplo específico, o IRC (Comitê Internacional de Resgate), que mantém equipes humanitárias em campo na República Democrática do Congo, afirmou que os cortes no financiamento dos EUA contribuíram para o atraso na detecção do vírus.
“Sistemas de vigilância epidemiológica fragilizados, em decorrência de severos cortes no financiamento da saúde no leste da RDC, estão contribuindo para a rápida escalada do mais recente surto de Ebola”, declarou o IRC em um comunicado.
Heather Reoch Kerr, diretora do grupo na RDC, acrescentou: “Anos de subinvestimento e cortes recentes no financiamento deixaram muitas unidades de saúde sem equipamentos de proteção adequados, capacidade de vigilância ou apoio na linha de frente necessários para uma resposta rápida e segura”.
Um alto funcionário do Departamento de Estado afirmou na terça-feira (19) que nenhuma das mudanças implementadas pelo governo Trump prejudicou os esforços de resposta ao surto.
Segundo o funcionário, a resposta foi rápida assim que o surto foi identificado pela OMS e que “os programas de gestão do Ebola foram mantidos” e os financiamentos foram transferidos após o desmantelamento da USAID.
“Não havia nenhuma pessoa ou programa específico associado à Agência nesta região que pudesse ter detectado o surto ou contribuído para um sistema de detecção”, disse o funcionário a jornalistas. Eles alegaram que “numerosos funcionários que trabalharam nessas questões” foram mantidos da USAID.
O gerente de incidentes dos CDC para a resposta ao Ebola, Dr. Satish Pillai, informou na terça-feira (19) que os CDC trabalha na região há décadas, com 100 funcionários em Uganda e quase 30 na República Democrática do Congo.
A agência afirmou que também mobilizou centenas de pessoas para a resposta de emergência lançada esta semana.
Autoridades de saúde agora dizem que a primeira morte que se acredita estar ligada a esse surto ocorreu na província de Ituri, no nordeste do Congo, em 20 de abril. Mas o surto só foi oficialmente declarado em 15 de maio, após um atraso na detecção, já que os testes para a rara cepa Bundibugyo não puderam ser realizados localmente.

As amostras tiveram que ser transportadas por mais de mil quilômetros até um laboratório em Kinshasa para confirmação, de acordo com trabalhadores humanitários na região.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, culpou na terça-feira (19) a Organização Mundial da Saúde por “ter demorado um pouco para identificar isso”, embora tenha reconhecido outros fatores complicadores.
“É um pouco difícil chegar lá, porque fica numa área rural, então é meio isolado, num lugar de difícil acesso, num país devastado pela guerra, infelizmente”, disse ele.
Mas especialistas observam que o corte no financiamento dos Estados Unidos para a OMS levou a reduções de pessoal na organização global, e nenhum outro país doador preencheu essas lacunas de financiamento da Organização Mundial da Saúde.
(Outros países, incluindo o Reino Unido, a Alemanha e o Canadá, também cortaram a ajuda externa para saúde e desenvolvimento globais em 2025.)
Apesar dos comentários do Departamento de Estado, dois ex-funcionários da (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) relataram à CNN que muitas das pessoas com experiência em resposta a surtos de vírus como o Ebola, bem como com relacionamento com autoridades de saúde locais, foram demitidas no desmantelamento da USAID.
Um dos ex-funcionários da USAID, que trabalhou na RDC, observou que, embora a agência não tivesse programas na província de Ituri, ainda poderia ter ajudado a servir como “elo” para coordenar autoridades de saúde, ONGs e doadores.
“Você pode ter um monte de especialistas vindo… mas se você não consegue realmente enviar pessoas, pagar os profissionais de saúde ou fornecer a eles o que precisam, há uma limitação real, e foi isso que perdemos com a USAID”, explicou o ex-funcionário.
O IRC (Comitê Internacional de Resgate) afirmou que as equipes de resposta a emergências já estão em desvantagem, tendo que priorizar o transporte aéreo de equipamentos básicos de proteção individual – como luvas, máscaras e aventais hospitalares – para unidades de saúde. No passado, essas unidades já teriam estoques de suprimentos.
Antes do ano passado, o governo americano financiava uma série de atividades de preparação para surtos da organização no leste da República Democrática do Congo, mas o IRC disse que grande parte desse financiamento terminou em março de 2025.
O vice-presidente de emergências do IRC, Bob Kitchen, reconheceu que os EUA estão agora organizando uma resposta de emergência, mas “com recursos muito limitados”.
Falando da República Democrática do Congo, Greg Ramm, da organização sem fins lucrativos Save the Children, resumiu a gravidade da situação: “Nenhum de nós tem financiamento suficiente”.
Ramm e outros especialistas alertaram que muito mais pessoas morrerão se o sistema de saúde como um todo entrar em colapso, razão pela qual é crucial que as pessoas com Ebola busquem tratamento e que as unidades de saúde permaneçam abertas para tratar outras doenças, como malária e desnutrição.
Na terça-feira (19), o Departamento de Estado disse que “mobilizou inicialmente US$ 23 milhões em assistência externa bilateral para reforçar imediatamente a resposta de cada país, apoiando a vigilância, a capacidade laboratorial, a comunicação de riscos, os enterros seguros, a triagem de entrada e saída e o gerenciamento de casos clínicos” e que financiaria “até 50 clínicas de tratamento e os custos associados na linha de frente que estão sendo estabelecidos em regiões afetadas pelo Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda”.

Corte de verbas para os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA
Os CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) estão coordenando a resposta dos EUA ao surto, juntamente com a OMS e as autoridades nacionais de saúde dos países afetados.
“Estamos com uma enorme falta de pessoal em todas as áreas”, disse à CNN um especialista dos CDC que trabalha na resposta, observando que vários especialistas dos Centros foram demitidos, pediram demissão ou se aposentaram sem serem substituídos no último ano e meio.
O quadro de funcionários global da agência e a infraestrutura de saúde pública em todo o mundo foram afetados.
Isso se deve, em parte, ao fato de grande parte do trabalho global do CDC ser financiado pelo PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente para o Alívio da AIDS) – mas o Departamento de Estado reteve cerca de US$ 700 milhões do CDC para o programa PEPFAR este ano, segundo fontes de analistas de políticas de saúde.
Parte do financiamento para o combate à malária também foi retida, segundo as fontes.
“Eles têm sido implacáveis no último ano – a liderança política e o Departamento de Estado – em cortar verbas do CDC, alegando que temos funcionários demais no exterior”, disse a fonte do CDC à CNN.
A fonte explicou que o dinheiro destinado ao programa de HIV/AIDS ajuda a financiar equipes e infraestrutura de saúde pública, como laboratórios e sistemas de vigilância.
A mesma equipe e os mesmos sistemas que ajudam a conter epidemias de HIV também são os que frequentemente interrompem outras epidemias, relatou a fonte, acrescentando: “Nossos recursos e nossas equipes na África Oriental e Central estão definitivamente esgotados”.
Questionado sobre a retenção de fundos, um porta-voz do Departamento de Estado contestou a informação e afirmou: “Os fundos do PEPFAR para o HHS e o CDC, destinados a apoiar os programas de assistência externa dos EUA na área da saúde, continuam sendo liberados pelo Departamento de Estado”.

Desmantelamento da USAID reduziu a disponibilidade de trabalhadores
As respostas anteriores a surtos de Ebola também dependeram muito de parceiros da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), segundo a dra. Fiona Havers, médica infectologista e ex-epidemiologista do CDC, que foi enviada à Libéria durante o surto de Ebola em 2014.
Por exemplo, trabalhadores contratados pela USAID cuidaram da montagem de clínicas, importação de ambulâncias, contato com pessoas com casos suspeitos e equipe em instalações de isolamento.
Mas, no ano passado, o governo dos Estados Unidos cancelou milhares de contratos de ajuda externa, ao desmantelar a USAID e extinguir os poucos programas restantes sob o Departamento de Estado.
“Não se trata apenas da questão do financiamento. … Todos esses grupos de ajuda tiveram seus programas encerrados, suas clínicas fechadas e os agentes comunitários de saúde demitidos”, comentou Havers à CNN. “Esses grupos não estão mais disponíveis, ou estão disponíveis com capacidade muito reduzida” para se dedicarem à resposta ao Ebola.
Os ex-funcionários da agência disseram que houve uma perda de boa vontade entre o governo americano e as autoridades de saúde locais e parceiros no terreno devido à forma como o financiamento foi cortado repentinamente no ano passado.
“Na República Democrática do Congo, éramos o maior doador para a saúde e tínhamos um poder de articulação significativo. As pessoas nos procuravam, mas também dependiam de nós para gestão e supervisão”, afirmou o primeiro ex-funcionário da USAID. “Perdemos todo o respeito e credibilidade.”
O segundo ex-funcionário lembrou-se de quando Elon Musk brincou no ano passado que havia “cancelado acidentalmente” o financiamento para combater o Ebola durante um surto em Uganda, financiamento que ele alegou ter sido “imediatamente” restaurado.
O ex-funcionário da USAID disse que o cancelamento desse financiamento significou que “tudo parou enquanto o surto continuava” em 2025. Um ano depois, quase todos os integrantes da equipe da agência que trabalharam nesse surto mais recente foram demitidos, afirmou o ex-funcionário.
A saída do governo americano da OMS também significa que os EUA não recebem mais informações por meio desses canais oficiais de comunicação, embora o contato informal tenha continuado.
“A saída da OMS significa apenas que o governo dos EUA e o CDC estão, de modo geral, mais alheios ao fluxo de informações”, acrescentou Havers. “Eles não participam mais das discussões da mesma forma que antes, e acho que isso torna os Estados Unidos menos seguros.”
O alto funcionário do Departamento de Estado criticou duramente a OMS pela demora na identificação do surto e elogiou a resposta dos EUA até o momento, que, segundo ele, também incluiu o envio de Equipes de Resposta a Desastres para a República Democrática do Congo e Uganda.
Embora o governo dos EUA esteja mobilizando fundos emergenciais para o Ebola neste momento, analistas de políticas de saúde disseram à CNN que se espera que haja mais cortes em programas de saúde global no futuro.
A CNN noticiou que o governo Trump planeja redirecionar US$ 2 bilhões em fundos destinados a programas de saúde global para cobrir o custo do fechamento da USAID, segundo uma cópia da notificação do Congresso obtida pela CNN. Esse plano inclui uma redução de US$ 647 milhões no financiamento para segurança sanitária global.


