A decisão do governo Lula de não atuar para impedir a derrubada do veto presidencial sobre a redistribuição de recursos aos municípios foi interpretada por integrantes do próprio governo como um gesto político aos prefeitos brasileiros, em um momento de calendário eleitoral. O episódio também foi lido por aliados de Lula como um aceno a Davi Alcolumbre, com quem o governo busca distensionar a relação.
A apuração é da jornalista Tainá Falcão ao Bastidores CNN, com base em fontes reservadas do Palácio do Planalto e interlocutores do Senado Federal.
Gesto aos prefeitos ou aceno a Alcolumbre?
Integrantes do Palácio do Planalto consultados pela jornalista negaram que a não atuação tenha sido um gesto direcionado a Alcolumbre. “Não tem nada de gesto para Davi. Um aceno assim, quem sabe, claro, pode ter”, disseram fontes do governo a Tainá. No entanto, de forma reservada, interlocutores admitiram que a composição de não trabalhar para sustentar o veto acabou funcionando também como um movimento para distensionar a relação entre Lula e Alcolumbre. Uma fonte do Planalto afirmou que o episódio foi “um gesto mais para os prefeitos, claro, em tempo de ano eleitoral”.
O veto derrubado tratava da redistribuição de recursos aos municípios, tema que vinha sendo alvo de forte pressão da Confederação Nacional dos Municípios e de parlamentares defensores do municipalismo, entre eles o próprio Alcolumbre. Líderes governistas relataram que, embora haja negativa oficial do Planalto, o governo simplesmente optou de forma deliberada por não mobilizar sua base para sustentar a decisão presidencial. A avaliação interna é de que um enfrentamento com os prefeitos às vésperas do período eleitoral teria um alto custo político.
Tensão com Alcolumbre e tentativa de reaproximação
O episódio ocorreu poucos dias após Alcolumbre ter elevado o tom durante a Marcha dos Prefeitos em Brasília, ocasião em que afirmou ter alertado previamente o governo de que não havia votos suficientes para manter o veto presidencial. Nos bastidores, interlocutores do senador disseram a Tainá Falcão que Alcolumbre considera a rixa com Lula superada, avaliando que foi “muito transparente” ao ter avisado sobre o risco de derrota.
Do outro lado, Lula manifestou mágoa com o episódio. Em reunião com a Confederação Nacional dos Prefeitos realizada na quarta-feira, o presidente disse que a derrota no Senado “doeu nele como doeu em Jorge Messias”. Ainda assim, Lula aposta na retomada de um diálogo institucional com Alcolumbre, embora tenha sinalizado que o primeiro passo deve partir do senador.
Pautas prioritárias mantêm governo atento ao Senado
Mesmo após a derrota no veto, o Planalto segue empenhado em preservar canais de comunicação com Alcolumbre, diante de pautas consideradas prioritárias. Uma fonte da articulação política do governo alertou: “Não vamos achando que está tudo decidido, tem coisa para passar no Senado ainda. Não dá para a gente virar as costas para a Davi Alcolumbre agora.”
Entre os temas estratégicos mencionados estão a PEC da Segurança Pública, que se encontra travada no Senado Federal, e a necessidade de evitar o avanço de chamadas “pautas bomba” com potencial impacto fiscal, como a PEC que reduz a idade mínima para aposentadoria de agentes comunitários de saúde e propostas que criam pisos nacionais para bombeiros, dentistas e médicos. A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 também foi citada, com a avaliação de que o debate deve seguir uma lógica semelhante à do imposto de renda, com possibilidade de alterações e prazo estendido.
No Planalto, a leitura predominante é de que, apesar dos ruídos recentes, Alcolumbre não deve prolongar o desgaste e que o relacionamento institucional entre os dois deve ser retomado em breve. Integrantes do governo já apontam sinais de que o senador deseja tratar os episódios recentes como pontuais e preservar um canal de diálogo político com Lula.

