A Argentina anunciou a redução dos impostos de exportação do trigo de 7,5% para 5,5% a partir de junho, em uma tentativa de melhorar a rentabilidade do setor e estimular os embarques do cereal.
Durante evento na Bolsa de Cereais de Buenos Aires, Javier Milei afirmou que as taxas de exportação da soja também poderão ser reduzidas entre 0,25 e 0,50 ponto percentual em janeiro do próximo ano, desde que a arrecadação do país permita essa redução.
O presidente também sinalizou futuros cortes de impostos para as indústrias automotiva e petroquímica, destacando que os detalhes desses ajustes serão anunciados nos próximos dias.
Trigo
Analistas avaliam que a medida ainda terá impacto limitado sobre a competitividade do trigo argentino no mercado internacional e pouco altera o cenário de abastecimento para o Brasil.
Segundo o analista da Safras & Mercado, Élcio Bento, a redução de 2 pontos percentuais melhora parcialmente a margem do exportador e o preço recebido pelo produtor, mas ainda não altera de forma significativa a competitividade do trigo argentino no mercado internacional.
De acordo com Bento, considerando os preços atuais, o corte representa cerca de US$ 4,5 por tonelada a serem distribuídos ao longo da cadeia entre exportadores e produtores. Ainda assim, ele ressalta que nem todo esse ganho necessariamente chega ao produtor rural.
Como a Argentina é tomadora de preços no mercado internacional, o impacto tende a aparecer mais no mercado interno. A avaliação da Safras Argentina é de que a medida pode dar algum suporte aos preços locais, mas não resolve os principais entraves das exportações.
Isso porque o trigo argentino já aparece caro no mercado externo, enquanto um FOB (traduzido como “Livre a Bordo”) mais baixo segue limitado pelas margens negativas.
Bento lembra que, quando o governo reduziu a alíquota de 9,5% para 7,5% em dezembro, o efeito prático acabou neutralizado pela queda nos preços do trigo e pela valorização cambial.
Segundo a análise da Safras & Mercado, a curva futura do trigo argentino já vinha indicando que o mercado precificava algum tipo de redução ou até mesmo a eliminação das retenciones para a nova safra.
Mesmo assim, a redução anunciada ainda é considerada insuficiente para provocar mudanças relevantes na estrutura de preços ou na competitividade das exportações.
Para a safra velha, válida até novembro, o impacto deve ser ainda mais limitado, já que persistem problemas como oferta restrita, qualidade irregular e retenção de produto pelos produtores, que seguem segurando vendas para preservar poder de compra.
A tendência, segundo a consultoria, é de comercialização apenas conforme necessidade de caixa, compra de insumos ou pagamento de arrendamentos.
Já para a nova safra, Bento avalia que o trigo argentino só voltaria a apresentar um FOB dezembro próximo de US$ 240 por tonelada caso houvesse eliminação total dos direitos de exportação.
Com a redução parcial anunciada, o mercado segue caro para exportação, limitando o potencial de queda dos preços FOB.
Para o Brasil, a avaliação permanece praticamente a mesma. A Argentina deve continuar como principal referência para o abastecimento brasileiro, mas o custo de reposição seguirá condicionado à qualidade do produto, à oferta disponível, aos preços internacionais e ao câmbio argentino.
Caso o trigo argentino não atenda totalmente à demanda por produto de melhor padrão panificável, os moinhos brasileiros poderão recorrer a origens mais caras, como o trigo dos Estados Unidos.
Soja
No mercado da soja, a leitura é de que a Argentina segue com papel mais relevante na formação de preços do que na disputa direta por volumes. O analista da Royal Rural, Ronaldo Fernandes, destaca que o país deve produzir cerca de 48 milhões de toneladas, consumir 49 milhões e exportar apenas em torno de 8 milhões, o que limita sua presença no comércio global de grãos in natura.
Segundo ele, embora a Argentina tenha ampliado sua participação no mercado internacional em 2025, o movimento tende a perder força em 2026, com recuo das exportações para algo próximo de 6 milhões de toneladas e retorno a um patamar mais próximo da normalidade.
Ainda assim, Fernandes ressalta que o principal impacto não está no volume exportado, mas na formação de narrativa de preços.
Ele explica que, mesmo sem competir diretamente em escala com o Brasil, o trigo e os derivados argentinos podem influenciar referências internacionais e balizar as cotações brasileiras.
A China, segundo Fernandes, não deve comprar grandes volumes da Argentina, mas pode usar seus preços como parâmetro de referência para negociações globais.
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