O avanço das tensões geopolíticas e o cenário de juros elevados no Brasil têm ampliado os desafios e, ao mesmo tempo, reforçado o protagonismo do agronegócio brasileiro no mercado global.
O tema esteve no centro do painel “O novo ESG: economia, segurança e geopolítica no agronegócio”, mediado pela editora e analista de agro da CNN, Fernanda Pressinott, no Rural Summit, em Piracicaba (SP).
Durante o debate, a economista especializada em agronegócio do Bradesco, Priscila Trigo, afirmou que “cerca de 20% do petróleo acaba preso em decorrência dos conflitos internacionais”. Na avaliação da economista, esse cenário aumenta os custos de transporte e pressiona a inflação global, especialmente em setores como combustíveis e alimentos.
Apesar disso, Trigo afirmou que o Brasil ganha relevância internacional por sua capacidade de fornecer alimentos e biocombustíveis: “o mundo precisa do Brasil não só para segurança alimentar, mas também para energia e tecnologia”.
A perda de força do dólar e a desaceleração da inflação abriram espaço para o início de um ciclo de redução da taxa de juros no Brasil, embora os níveis continuem restritivos. “Há uma gordura que consegue reduzir os juros”, afirmou a economista. Ainda assim, ela ponderou que os cortes devem ocorrer de forma gradual e que as taxas permanecerão em patamares elevados.
Priscila Trigo observou que o mercado segue atento aos efeitos persistentes da inflação sobre os próximos anos, principalmente devido ao grau de indexação da economia brasileira. Mesmo com o câmbio considerado “bem comportado”, a preocupação permanece em relação aos impactos dos preços de combustíveis e alimentos. A economista também informou que a projeção atual do Bradesco para o crescimento da economia brasileira é de 1,6%. Além disso, alertou para o avanço da dívida bruta do país nos próximos anos, com expectativa de aproximação de 100% do PIB (Produto Interno Bruto).
Segundo ela, o país precisará realizar ajustes fiscais ao longo dos próximos quatro anos. “Existem incentivos públicos para a realização de ajustes fiscais voltados não apenas à manutenção do arcabouço fiscal, mas também ao seu fortalecimento”, afirmou.
Momento do setor
No painel, representantes de empresas do setor defenderam que, diante do cenário de instabilidade internacional e de crédito mais caro, o aumento da produtividade se torna ainda mais estratégico para o agronegócio.
O vice-presidente comercial da Mosaic, Felipe Pecci, afirmou que as disputas geopolíticas afetam diretamente o abastecimento global de fertilizantes. “A gente teve uma escalada dessas questões geopolíticas em situações críticas desse abastecimento de alimentos, falando de 30% a 40% do fluxo comercial de fertilizantes”. Segundo Pecci, insumos utilizados na agricultura também passaram a ser demandados pela transição energética, como enxofre e fósforo, o que amplia a pressão sobre cadeias globais de suprimento.
“É um momento de maior fragilidade, em que temos que olhar as empresas e os países para garantir os fornecimentos”, afirmou. O executivo também destacou o avanço do mercado de biológicos como alternativa dentro do setor.
Já o vice-presidente global da John Deere, Cristiano Correia, afirmou que a companhia mantém uma visão de longo prazo para o Brasil, mesmo em um ambiente de aperto econômico e financeiro. “O Brasil tem toda condição de navegar esta situação de aperto”, disse. Segundo ele, o momento exige foco em gestão de custos, eficiência operacional e produtividade. Focar naquilo que controla, fazer o básico bem-feito, ter boa gestão sobre o custo, investir em produtividade. Investimento não precisa ser em grande escala”, afirmou o vice-presidente.
“Acreditamos que tem dois países que estão bem posicionados nesse momento geopolítico: Índia e, principalmente, Brasil”, afirmou. Segundo Correia, fatores como inovação tecnológica, matriz energética renovável e distância dos principais eixos de conflito tornam o país mais atrativo internacionalmente.
No campo do crédito, a John Deere destacou a criação de uma joint venture com o braço financeiro do Bradesco como estratégia para ampliar o acesso ao financiamento no setor agropecuário.
ESG
A discussão sobre ESG também esteve presente no painel, associada à competitividade do agronegócio brasileiro no mercado internacional. Os participantes defenderam que práticas ligadas à sustentabilidade passaram a representar acesso a mercados considerados premium e maior potencial de rentabilidade.
Correia destacou que tecnologias embarcadas em máquinas agrícolas ajudam na redução da aplicação de defensivos, no uso mais eficiente de fertilizantes e no aumento da produtividade, com impactos relacionados às metas ESG.
Priscila Trigo avaliou que as exigências internacionais relacionadas à rastreabilidade e sustentabilidade devem continuar influenciando o comércio global, citando a nova restrição da União Europeia relacionada à proteína animal brasileira.
“Produtor pode deixar de lado momentaneamente [o ESG] em razão do cenário, mas somos sempre lembrados dessas questões”, afirmou. Segundo a economista, embora a rastreabilidade seja um desafio diante da extensão territorial brasileira, o tema segue relevante para a manutenção do acesso a mercados externos.
“Vejo uma dependência muito maior do mundo em relação ao Brasil, por isso as negociações saem. Segurança alimentar para eles também é relevante”, concluiu.
