A tentativa da Turquia de pôr fim ao conflito de décadas com o grupo militante PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) está paralisada, com ambos os lados aguardando que o outro tome a iniciativa em uma negociação de paz complicada pela guerra com o Irã.
O aparente impasse impediu a resolução de um dos conflitos mais longos do mundo, que matou mais de 40 mil pessoas desde 1984, impôs um enorme custo econômico e semeou divisões políticas e sociais na Turquia.
Aqui estão algumas perguntas-chave sobre a insurgência e o atual processo paralisado.
Qual a causa do conflito?
Os curdos, um povo com língua e cultura distintas, espalhado pela Turquia, Síria, Irã e Iraque, são um dos maiores grupos étnicos do mundo sem um Estado.
Abdullah Öcalan fundou o PKK no sudeste da Turquia em 1978. O grupo lançou uma insurgência armada contra o Estado turco em 1984, inicialmente buscando um Estado curdo independente, antes de posteriormente mudar o foco para reivindicações por maiores direitos curdos e autonomia limitada.
O conflito concentrou-se por muito tempo no sudeste da Turquia, região predominantemente curda, particularmente nas áreas montanhosas ao longo das fronteiras com o Iraque e o Irã.
Com o tempo e sob pressão militar turca, os combates deslocaram-se para o norte do Iraque, onde o PKK está sediado.
O conflito ganhou uma dimensão regional mais ampla quando uma milícia curda, considerada por Ancara como um braço do PKK, assumiu o controle de vastas áreas do norte da Síria durante a guerra civil naquele país.
O PKK é considerado uma organização terrorista pela Turquia, pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
Öcalan foi capturado no Quênia em 1999 por forças especiais turcas e desde então está preso em uma ilha ao sul de Istambul. Ele continua sendo a figura mais influente do movimento.
O que aconteceu no novo processo de paz?
A iniciativa de paz mais recente começou em outubro de 2024, quando o líder nacionalista Devlet Bahçeli, aliado próximo do presidente Tayyip Erdoğan, sugeriu que Öcalan poderia discursar no parlamento se exigisse que o PKK encerrasse sua insurgência.
Em dezembro de 2024, parlamentares do DEM (Partido Democrático), pró-curdo, visitaram Öcalan na prisão pela primeira vez em quase uma década. Em 27 de fevereiro de 2025, Öcalan pediu ao PKK que se dissolvesse e desarmasse, e o grupo declarou um cessar-fogo no dia seguinte.
Em maio de 2025, o PKK anunciou que se dissolveria e encerraria sua luta armada. Dois meses depois, dezenas de militantes queimaram armas em uma cerimônia simbólica no norte do Iraque.
O parlamento turco posteriormente estabeleceu uma comissão para supervisionar o processo e, em fevereiro de 2026, aprovou um relatório que previa reformas legais juntamente com o desarmamento.
Por que o processo estagnou?
A principal disputa gira em torno da sequência das negociações e é complicada pela guerra com o Irã. Ancara afirma que o PKK deve se desarmar completamente antes que leis possam ser promulgadas para proteger ou integrar ex-militantes. O PKK alega que o desarmamento sem garantias legais deixaria seus membros vulneráveis, especialmente porque a região estava mergulhada em guerra.
Autoridades turcas alertaram que a instabilidade no Irã poderia encorajar a retomada da atividade militante curda na região, embora haja poucas evidências de que isso tenha ocorrido.
Por que Ócalan é fundamental para as negociações?
O apelo de Ócalan, em fevereiro de 2025, pela dissolução do PKK foi o momento decisivo que permitiu o avanço do processo. O PKK reiterou que ele deveria desempenhar um papel direto na supervisão da implementação de qualquer acordo.
No início de maio, Bahçeli propôs a criação de um “Escritório de Coordenação do Processo de Paz e da Politização” formal para que Ócalan auxiliasse na gestão do processo. O governo não manifestou publicamente apoio a qualquer mudança em seu status.
O que está em jogo para a Turquia?
A incapacidade de garantir a paz pode prolongar um dos conflitos mais longos da região e acarretar o risco de uma retomada da violência após um raro período de relativa estabilidade. O colapso de um processo de paz anterior, em 2015, foi seguido por alguns dos combates mais sangrentos dos últimos anos.
A questão também acarreta importantes implicações políticas, tendo em vista as eleições previstas para o próximo ano, nas quais o eleitorado curdo provavelmente continuará exercendo grande influência.

