Após o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na última semana, Brasil e Estados Unidos terão 30 dias para discutir um novo acordo comercial. Apesar do clima de aproximação diplomática, a investigação comercial conhecida como Seção 301 — conduzida pelo Departamento de Comércio norte-americano — ainda representa uma ameaça concreta de novas tarifas ao Brasil.
Ao Agora CNN deste domingo (17), o analista de economia Gabriel Monteiro destacou que a principal conquista do encontro foi a criação de um grupo de trabalho para discutir, em nível técnico, quais são as demandas americanas e em quais pontos o Brasil estará disposto a ceder para viabilizar um acordo. “O Brasil terá de ceder em alguns pontos se quiser conquistar esse acordo e encerrar a investigação comercial”, revelou Monteiro.
O que está sendo investigado
A investigação americana abrange uma série de temas sensíveis. Entre eles, estão as tarifas aplicadas ao etanol americano importado pelo Brasil, o sistema de pagamentos PIX — que, segundo o Departamento de Comércio dos EUA, concorre diretamente com meios de pagamento norte-americanos como Visa e Mastercard — e questões relacionadas a direitos de imagem, patentes e propriedade intelectual.
A rua 25 de Março, em São Paulo, é citada nominalmente na investigação em razão da pirataria. Regulações envolvendo grandes empresas de tecnologia também fazem parte do escopo investigativo. “O governo norte-americano quer uma vitória, um acordo para levar para casa e que Donald Trump possa comemorar com seus aliados e com seus eleitores”, afirmou Gabriel Monteiro.
Do lado brasileiro, o objetivo é evitar a imposição de novas tarifas — especialmente sobre produtos do agronegócio como carne, café e suco de laranja, além de maquinário e produtos industrializados destinados ao mercado norte-americano, descrito como o principal comprador do Brasil.
Risco permanece mesmo após recuo anterior
“Mesmo com a queda das tarifas decorrente de uma decisão da Suprema Corte americana no início deste ano, o risco não foi eliminado”, alertou o especialista. Segundo Monteiro, logo após a decisão, o Departamento de Comércio abriu novas investigações contra outras 60 economias, sinalizando que esse instrumento será utilizado como ferramenta de pressão. “O Brasil pode se tornar um bode expiatório”, alertou o analista. “Apesar da melhora nas relações diplomáticas, um acordo formal ainda é necessário para garantir que o país não sofra novas sanções comerciais”, concluiu Monteiro. Para o analista, o desfecho das negociações deve se tornar mais claro ao longo da semana.

