Um impasse prolongado em Gaza corre o risco de consolidar a divisão permanente do território, alertou um alto funcionário internacional que supervisiona o cessar-fogo, à medida que Israel aprofunda o controle sobre o enclave.
Nikolay Mladenov, o funcionário encarregado de implementar o acordo de cessar-fogo mediado pelos EUA em Gaza, disse que o fracasso em avançar com o acordo levaria a “um status quo perigoso” que deixaria dois milhões de palestinos em Gaza sem um futuro viável.
Ao mesmo tempo, essa situação consolidaria a presença de Israel a longo prazo em mais da metade do território devastado.
“A manutenção do status quo não deve ser uma opção para ninguém”, disse Mladenov, diretor-geral do BoP (Conselho de Paz de Gaza), em uma coletiva de imprensa em Jerusalém na quarta-feira (13), a primeira desde que assumiu o cargo em janeiro.
“Quanto mais tempo demorarmos para abordar o futuro, mais estabilizaremos o status quo, e mais difícil será removê-lo”, afirmou Mladenov após se reunir com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
O alerta sublinha a deterioração da situação em Gaza. Com a atenção mundial voltada para a guerra no Irã, Israel está expandindo seu controle sobre o enclave e matando centenas de palestinos, enquanto o Hamas se recusa a desarmar-se, conforme exigido pelo acordo de cessar-fogo.
Autoridades israelenses alertam que o Hamas está reconstruindo ativamente suas capacidades militares e civis e reforçando o controle sobre Gaza.
Nos termos do acordo de cessar-fogo de outubro de 2025 entre Israel e o Hamas, as forças israelenses se retiraram para uma linha de demarcação conhecida como “linha amarela”, que abrangia aproximadamente 53% de Gaza.
Mas essa linha está se deslocando em direção ao Mar Mediterrâneo, comprimindo a população de Gaza em uma faixa de terra cada vez menor.
Organizações humanitárias internacionais afirmam que o exército israelense lhes forneceu, no mês passado, um novo mapa com uma “linha laranja”, que mostra Israel controlando agora cerca de 64% do território.
A CNN entrou em contato com os militares israelenses para obter um comentário.
‘Gaza desapareceu’
Mladenov se recusou a comentar a nova linha, alertando, em vez disso, para as perspectivas de a linha amarela se consolidar “em uma cerca ou muro, uma separação permanente em Gaza”.
“E nesse ponto, não importa realmente onde esteja a linha amarela, mas Gaza terá desaparecido”, acrescentou, alertando que isso também não atenderia às exigências de segurança de Israel, porque “o Hamas se rearmará e ameaçará novamente”.
Sete meses após a entrada em vigor do cessar-fogo, Mladenov reconheceu que a trégua está “longe de ser perfeita”, mas observou que trouxe “relativa estabilidade”.
Segundo Mladenov, o BoP e os mediadores internacionais – EUA, Egito, Catar e Turquia – continuam monitorando as violações do cessar-fogo e trabalhando para reduzi-las.
“Há muitas coisas acontecendo no terreno – ataques aéreos ou outros movimentos militares em terra constituem violações do cessar-fogo”, afirmou.
Segundo o Ministério da Saúde palestino, Israel tem realizado ataques aéreos quase diários em Gaza, matando mais de 850 pessoas desde que o cessar-fogo entrou em vigor.
Na prática, disse Mladenov, isso significa que “civis ainda estão sendo mortos, famílias vivem com medo e, para os palestinos em Gaza, a guerra ainda não acabou completamente”.
Mladenov também elogiou o plano de paz de 20 pontos mediado pelos EUA como um avanço que “abriu as portas para o futuro”, destacando o que o plano visa possibilitar:
- planos de reconstrução em larga escala;
- retirada militar israelense de Gaza;
- estabelecimento de um novo órgão governamental palestino;
- criação de empregos e um horizonte político para a autodeterminação e a formação de um Estado;
O plano, disse ele, foi posteriormente expandido para um documento de implementação de 50 pontos, desenvolvido pela Frente de Paz e pelos mediadores e discutido com Israel e o Hamas.
Ele enfatizou que o plano se baseia na reciprocidade, não na confiança, e que um mecanismo de verificação independente foi estabelecido para monitorar o cumprimento. “Cada passo dado por uma das partes desencadeia o próximo passo da outra. Se um passo for omitido, o próximo não acontece.”
Desarmamento do Hamas
No entanto, o componente mais central e controverso do plano – o desarmamento do Hamas – continua sendo um grande obstáculo que, segundo Mladenov, está atrasando o restante do acordo.
“O plano é claro: o Hamas precisa se afastar do governo de Gaza, suas armas precisam ser desativadas e Gaza precisa ser desradicalizada”, afirmou. Ele condicionou a retirada completa de Israel de Gaza ao cumprimento de outros elementos do plano – principalmente o desarmamento do Hamas e a conquista de um governo civil em Gaza.
Mladenov afirmou ter se reunido duas vezes com representantes do Hamas em suas tentativas de avançar no processo de desarmamento. “Facções armadas e milícias com seus próprios sistemas de comando e controle militar não podem coexistir”, declarou.
O plano de cessar-fogo inclui disposições para a recompra voluntária de armas em Gaza, anistia condicional para aqueles que depuserem as armas e salvo-conduto para o exterior para aqueles que não aceitarem o acordo.
“Estamos pedindo à liderança política daqueles que governam Gaza atualmente que se afastem”, disse Mladenov. “O princípio fundamental desta estrutura é: uma autoridade, uma lei, uma arma. Não se pode realizar a reconstrução com milícias em cada esquina.”
Ele pareceu atribuir a principal responsabilidade ao Hamas, acusando o grupo de “consolidar seu domínio sobre a população, cobrar impostos das pessoas nas ruas e impedir que trabalhadores e empreiteiros construam comunidades e abrigos para os deslocados de Gaza”.
“Com que objetivo?”, perguntou ele. “Para conseguir melhores condições nas negociações?”

