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Teste rápido pode prever risco de Alzheimer décadas antes dos sintomas

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Teste rápido pode prever risco de Alzheimer décadas antes dos sintomas

O Brasil passa a contar com uma tecnologia inédita para o enfrentamento do Alzheimer: um exame de urina capaz de identificar sinais biológicos da doença em apenas 10 minutos.

A ferramenta, já aprovada pela Anvisa, atua como um sistema de triagem, permitindo detectar o risco de desenvolvimento da patologia antes mesmo que os primeiros sinais de perda de memória ou declínio cognitivo se manifestem.

Diferente dos métodos tradicionais, como o PET Scan e a punção lombar — que são caros e invasivos —, o novo teste foca na acessibilidade.

Enquanto exames de imagem podem ultrapassar R$ 9 mil, a expectativa é que a nova tecnologia chegue ao consumidor final custando entre R$ 500 e R$ 600.

O impacto do diagnóstico precoce

A chegada do exame ocorre em um momento crítico para a saúde pública brasileira. Atualmente, cerca de 2 milhões de pessoas vivem com demências no país, e a projeção é que esse número salte para 5,7 milhões até 2050. O maior desafio é o diagnóstico tardio, que ocorre quando os danos cerebrais já são extensos.

Estudos indicam que o acúmulo da proteína beta-amiloide, principal biomarcador do Alzheimer, pode começar até 30 anos antes dos sintomas clínicos.

A nova tecnologia atua justamente na identificação desses biomarcadores de forma precoce. “Hoje, os principais exames utilizados para investigar o Alzheimer, como PET Scan, testes laboratoriais avançados e punção lombar, são caros, invasivos ou pouco acessíveis para grande parte da população. A nova abordagem utiliza um método não invasivo, rápido e de menor custo, o que amplia o potencial de acesso e escala”, afirma Giuliano Araújo, CEO da Biocon Diagnósticos.

Eficiência no sistema de saúde

Além do benefício clínico ao paciente, o teste propõe uma mudança na gestão da jornada assistencial. Ao servir como porta de entrada, ele ajuda a filtrar quais pacientes realmente necessitam de exames de alta complexidade, otimizando recursos públicos e privados. “O ganho real está na possibilidade de mudar a jornada. Quanto mais cedo identificamos o risco, maior é a chance de orientar o paciente, acompanhar a evolução e agir sobre fatores modificáveis. O exame não substitui a avaliação médica nem fecha diagnóstico sozinho, mas pode ser uma porta de entrada mais acessível para uma investigação adequada”, explica Araújo.

Ciência e validação internacional

A base científica do teste é oriunda do Florey Institute of Neuroscience and Mental Health, na Austrália, sob a chancela de Colin Masters, um dos maiores especialistas em Alzheimer do mundo. Masters foi o responsável por identificar, nos anos 80, a proteína beta-amiloide como componente central da doença.

No que diz respeito aos seus aspectos técnicos, a tecnologia apresenta uma sensibilidade inicial em torno de 75%, índice que tem evoluído com o avanço das pesquisas recentes. Sua eficácia já foi consolidada internacionalmente, com a adoção em mais de dez países, entre eles Alemanha, Itália, China e Austrália, onde é utilizado tanto no ambiente clínico quanto em políticas públicas de prevenção.

O público-alvo principal do exame são pacientes que buscam um acompanhamento preventivo, permitindo uma intervenção precoce sobre fatores de risco modificáveis, como hipertensão, diabetes, sedentarismo e outros elementos do estilo de vida que podem influenciar o desenvolvimento da demência.

O avanço dos biomarcadores representa uma das maiores transformações recentes na investigação do Alzheimer, principalmente pela possibilidade de identificar alterações biológicas associadas à doença de forma cada vez mais precoce. 

Avanço na luta contra o Alzheimer

Para o neurologista do Alta Diagnósticos da Dasa e Coordenador do Núcleo da Memória, Digo Haddad, o avanço do sistema de biomarcadores representa uma das maiores transformações recentes na investigação do Alzheimer, principalmente pela possibilidade de identificar alterações biológicas associadas à doença de forma cada vez mais precoce. 

A ideia de utilizar urina para investigar biomarcadores relacionados ao Alzheimer é uma linha real de pesquisa e não deve ser descartada como algo sem fundamento. Existem estudos avaliando marcadores urinários, como AD7c-NTP e outros metabólitos, mas é importante deixar claro que, hoje, esse tipo de exame ainda não ocupa o mesmo lugar dos métodos já consolidados, como PET amiloide, análise de líquor e biomarcadores sanguíneos mais recentes.”

Método, entretanto, ainda exige cautela

O especialista celebra a possibilidade de ferramentas menos invasivas ajudarem a desafogar filas e organizar melhor a jornada do paciente, especialmente em países com desafios de acesso como o Brasil.

Haddad pondera, no entanto, que, em tese, um exame simples e de baixo custo, poderia funcionar como primeira etapa de triagem, identificando quem realmente precisaria avançar para neurologista, PET, líquor ou biomarcadores sanguíneos mais sofisticados. “Mas isso depende diretamente de desempenho confiável. Um teste de triagem com muitos falsos positivos pode aumentar filas, gerar ansiedade e levar pessoas sem Alzheimer a procurar exames caros desnecessariamente. Já falsos negativos podem atrasar diagnósticos importantes”, adverte. 

Contexto de tratamento

A inovação chega acompanhada de avanços terapêuticos. Em dezembro de 2025, a Anvisa aprovou o lecanemabe, medicamento indicado para fases iniciais da doença. A existência de um teste de triagem rápido e barato torna-se, portanto, estratégica para selecionar candidatos elegíveis a esses novos tratamentos de forma eficiente.

Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, a ferramenta sinaliza uma transição necessária de uma medicina reativa para uma abordagem preventiva, focada em manter a autonomia e a qualidade de vida por mais tempo.

Como age o Leqembi, novo remédio para Alzheimer aprovado pela Anvisa

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