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Há 20 anos, PCC parava São Paulo com ataques de maio de 2006; relembre

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Há 20 anos, PCC parava São Paulo com ataques de maio de 2006; relembre

Há 20 anos, em 12 de maio de 2006, o estado de São Paulo começava a enfrentar a pior crise de segurança pública de sua história. A partir de uma transferência em massa de detentos de presídios paulistas, a ofensiva orquestrada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) e a retaliação das forças de segurança deixaram um saldo de 564 mortos e 110 feridos em apenas nove dias.

No dia 11 de maio, o governo estadual realizou a transferência de 765 detentos, incluindo vários da liderança do PCC — como Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola —, para a Penitenciária de Presidente Venceslau.

Como resposta, em 12 de maio, véspera do Dia das Mães, o PCC deu um “salve geral”. O “salve” é um termo popular na periferia de São Paulo, e tem mais de um significado a depender do contexto. Na facção, significa dar um recado, uma ordem.

Em entrevista à CNN Brasil, o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público, classificou a transferências dos presos como “uma das piores operações da história do estado”.

Segundo ele, as forças policiais realizaram a remoção em absoluto sigilo, mas de forma descoordenada, sem qualquer tipo de medida que pudessem evitar o que aconteceu. Gakiya conta que a inteligência estadual não sabia sequer quantos membros a facção possuía na época.

Usando celulares dentro das celas, os líderes do PCC ordenaram os ataques. Entre 12 e 13 de maio, 74 presídios (que abrigavam cerca de 62% da população carcerária de São Paulo na época) entraram em rebelião simultânea.

Nas ruas, a facção executou ataques contra bases policiais, viaturas e delegacias. Dos 59 agentes públicos assassinados no período inteiro, 40 foram mortos apenas nessas primeiras 48 horas.

A capital e grandes municípios do interior e litoral paralisaram. O transporte público foi interrompido com o incêndio de dezenas de ônibus, esvaziando a maior metrópole da América do Sul.

No domingo de Dia das Mães, 14 de maio, a ofensiva do PCC cessou após um espécie de acordo entre o governo e o crime organizado, segundo conta o promotor Gakiya.

A resposta do Estado

Em resposta aos ataques, as forças policiais saíram às ruas em busca de qualquer suspeito de ligação com a facção. Nesse contexto, entidades de direitos humanos afirmam que diversas pessoas inocentes foram mortas.

Do total de 564 mortos nos ataques, 59 eram agentes públicos de segurança (incluindo policiais civis e militares, guardas municipais e agentes penitenciários) e 505 eram civis.

Leia também: Polícia faz operação contra infiltração do PCC em prefeituras de São Paulo

Débora Maria da Silva, mãe de uma das vítimas civis e criadora do Movimento Independente Mães de Maio, relembra o clima das ruas paulistas naquele maio.

Depois de sete horas da noite você entrava para dentro de casa e começava a sentir cheiro de carne com sangue, um assombro.

Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio

Relatórios elaborados pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) comprovaram que, entre os civis mortos, havia uma média de 4,8 tiros por vítima, sendo que mais de 60% foram baleadas diretamente na cabeça, nuca ou nas costas.

Dos 505 civis assassinados, 94% eram primários (não possuíam nenhum antecedente criminal). Gabriel Sampaio, diretor da ONG Conectas Direitos Humanos ressalta que essas mortes ocorreram por “estratégia de execução sumária, de pessoas que não tiveram direito de defesa”.

A CNN Brasil entrou em contato com a SSP (Secretaria de Segurança Pública) sobre os dados. O espaço segue aberto.

O PCC 20 anos depois

Lincoln Gakiya, principal autoridade a investigar a facção, afirma que, após duas décadas dos dias de terror, o PCC mudou sua estratégia, percebendo os prejuízos financeiros e estruturais da guerra aberta.

Segundo ele, o grupo evoluiu para o status de máfia internacional, focando na lavagem de dinheiro e na hegemonia territorial.

Gakiya conta que ele mesmo vive sob proteção policial 24 horas por dia, após a facção decretar sua morte por ter determinado, em 2018, a transferência da cúpula do grupo para o sistema penitenciário federal.

Ele ainda afirma que, pelo medo de um novo “maio de 2006”, autoridades estaduais se acovardaram e evitaram medidas drásticas contra os líderes por anos.

O crescimento do PCC é fruto da ausência e da omissão do estado de São Paulo

Lincoln Gakiya, promotor de Justiça

Como ficaram os “crimes de maio” depois da duas décadas

Após os crimes, as investigações dos homicídios foram levados à Justiça, mas a maioria permanece sem desfecho ou punição até hoje.

Um dos casos mais emblemáticos de agentes de segurança vítimas dos ataques de maio é o do bombeiro Alberto Costa, morto no dia 13 de maio de 2006, quando a sede do 2º Grupamento de Bombeiros de São Paulo foi atacada. Ele foi atingido por dois disparos e faleceu ainda no local. Outro colega também foi atingido, mas sobreviveu.

Sete acusados pelo crime foram levados a Júri Popular por homicídio e tentativa de homicídio duplamente qualificados. Entre os réus enviados a julgamento estavam Marcola e Julio Cesar Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, outra liderança do PCC.

A Justiça negou aos réus o direito de aguardarem o julgamento em liberdade, justificando a decisão pela periculosidade dos acusados e pelo terror imposto à sociedade.

Além dos executores diretos, o MPSP (Ministério Público de São Paulo) também mirou a estrutura de comando do crime organizado que planejou a morte dos agentes e os atos de terrorismo. Foram oferecidas denúncias contra indivíduos como Ronaldo Stakovski, acusado de organizar a onda de ataques do PCC na cidade de Mauá (SP).

Já entre os civis, inquéritos sofreram arquivamentos em massa, conforme denunciam alguns movimentos ligados às vítimas.

Gabriel Sampaio, da Conectas, relata que os arquivamentos foram “precoces, prematuros e descumprindo os protocolos básicos de apuração”.

Atualmente, o Ministério Público move uma ação civil pública no STJ (Superior Tribunal de Justiça) que reconhece a omissão do Estado, e entidades denunciam o caso em cortes internacionais como a ONU (Organização das Nações Unidas) e a OEA (Organização das Américas).

Para as famílias, a ferida nunca fechou. Débora, fundadora do Mães de Maio, criado a partir do luto pelas vítimas, relata a exaustão de duas décadas de luta contra a narrativa oficial. Seu filho, o gari Edson Rogério, foi executado aos 29 anos e sem antecedentes criminais.

Débora enfatiza que os civis não foram mortos pelo PCC, mas vitimados por uma “vingança e retaliação da segurança pública”. Ela desabafa cobrando o fim do que classificou como negacionismo judicial.

A história não foi contada. A história só é revelada pelas mães, pelas narrativas das mães

Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio

(Com informações de Agência Brasil)

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