O Brasil já fez isso. Nos anos 1990, diante de uma crise estrutural que corroía a economia e destruía a capacidade de planejamento, o país construiu o Plano Real. Mais do que estabilizar a moeda, o plano reorganizou expectativas, restaurou confiança e abriu caminho para crescimento.
O Plano Real partiu da compreensão que se parecia impossível resolver de imediato um problema muito complexo no presente seria possível criar uma solução no futuro e fazer uma transição organizada entre os dois.
Hoje, o Brasil enfrenta um desafio diferente — mas igualmente estrutural. Não é a inflação que ameaça o futuro da economia. É a perda do protagonismo industrial da nossa economia e o custo e a qualidade da energia.
Se quisermos preservar e expandir a indústria nacional, precisaremos de um novo pacto. Um Plano Real para a energia.
O ponto de partida, paradoxalmente, é uma vantagem que poucos países têm. O Brasil reúne condições únicas para liderar uma nova fase de industrialização de baixo carbono: uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, abundância de recursos renováveis, potencial de expansão da demanda industrial qualificada e disponibilidade de gás natural como combustível de transição para setores de difícil descarbonização. Podemos a partir de nossa base mineral e agrícola e de nossa hoje valiosa estabilidade e bom relacionamento global, ser uma base de industrialização de produtos verdes e competitivos.
Mas essa vantagem comparativa não está se convertendo em competitividade.
O país tem energia limpa — e que poderia ser barata, mas chega cara ao consumo. Tem potencial — mas não tem coordenação. Tem oferta — mas não tem demanda estruturada.
O resultado é um paradoxo perigoso: enquanto o mundo disputa investimentos em indústria verde, o Brasil perde espaço, penalizado por um custo de energia que cresce e por um modelo que não estimula o consumo produtivo.
É hora de inverter essa lógica.
O Brasil precisa migrar de uma política centrada na expansão da oferta para uma estratégia orientada à expansão do consumo inteligente — especialmente aquele capaz de transformar a base produtiva, gerar empregos, recursos para as políticas públicas que o pais precisa e reduzir emissões.
Isso exige uma nova arquitetura regulatória e fiscal, com foco claro: transformar energia em instrumento de política industrial.
A proposta é simples em conceito e ambiciosa em impacto.
Primeiro, é preciso garantir racionalidade e foco. Projetos industriais que tragam benefícios ao pais e ao planeta devem passar por análise técnica prévia, assegurando consistência econômica e energética. Os incentivos devem ser limitados aos volumes efetivamente associados a esses projetos — evitando distorções e garantindo eficiência no uso de recursos públicos.
Segundo, é fundamental combinar instrumentos regulatórios, tributários e de mercado para destravar investimentos. Não se trata de escolher entre Estado ou mercado, mas de alinhar ambos em torno de um objetivo comum: reindustrializar o país com base em energia limpa e competitiva.
Terceiro, os benefícios precisam estar vinculados a resultados concretos: eletrificação de processos industriais, ganho de competitividade, substituição de combustíveis mais poluentes e modernização produtiva com menor intensidade de carbono.
Nesse contexto, a eletrificação industrial deve ser tratada como vetor estratégico. Ela permite absorver excedentes de energia renovável, reduz emissões nos usos finais e aumenta a competitividade da produção nacional. É, ao mesmo tempo, política energética, industrial e climática.
O gás natural, por sua vez, cumpre papel complementar e imediato. Como combustível de transição, pode substituir fontes mais emissoras, reduzir custos e viabilizar ganhos rápidos de competitividade, especialmente em setores onde a eletrificação ainda não é tecnicamente ou economicamente viável.
Para isso, é necessário organizar a oferta de gás em torno da demanda industrial. Leilões direcionados a projetos habilitados, com participação da PPSA e da Petrobras, podem garantir previsibilidade e escala. A abertura do mercado — com estímulo à oferta de gás de terceiros e participação de novos produtores — é condição essencial para ampliar a concorrência e reduzir preços.
No campo da energia elétrica, o foco deve estar no consumo adicional comprovado. A desoneração de encargos como CDE, PROINFA e EER e LRCAP para projetos industriais habilitados pode criar o impulso necessário para novos investimentos. Ao mesmo tempo, a previsibilidade deve ser assegurada por uma transição gradual de reinserção desses encargos no longo prazo, exatamente como uma URV do plano Real, enquanto o sistema é tornado mais eficiente essa nova energia também vai gradualmente assumindo mais custos.
Medidas como depreciação acelerada de equipamentos voltados à eletrificação e descarbonização completam o pacote, reduzindo o custo de capital e incentivando a modernização industrial.
Nada disso é subsídio, porque nenhum consumidor não beneficiado pagará a mais por isso. Ao contrário, na medida em que a nova carga assuma parte dos custos atuais de encargos e os custos da infraestrutura sejam diluídos todos pagarão menos. Mais ainda essa energia de transição energética suportará novos investimentos em geração, necessários para manter um setor pressionado pela oferta dos painéis solares e sua complementação térmica por encargos. É estratégia. ]
E com os sinais econômicos corretos a nova demanda poderá reagira a sinais de preço corretos e ajudar todo o setor a alcançar patamares mais eficientes em sua operação e mercado, reduzindo os cortes de geradores, por exemplo, por excesso de oferta.
O Brasil não precisa escolher entre competitividade e sustentabilidade. Precisa alinhar as duas agendas.
Um Plano Real para a energia não é apenas uma reforma setorial. É uma decisão de país.
Ou usamos nossa vantagem energética para reconstruir uma base industrial moderna, limpa e competitiva — ou continuaremos assistindo à perda de relevância da indústria nacional em um mundo que já entendeu que energia é o novo diferencial estratégico.
A história mostra que o Brasil é capaz de grandes pactos quando reconhece a dimensão dos seus desafios. A pergunta agora é se teremos a mesma ambição.
* Paulo Pedrosa é presidente da Abrace Energia, associação que representa os grandes consumidores de energia
