Um novo relatório da CEMDP (Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos) sobre a morte de Juscelino Kubistchek, em 1976, usa como base três vídeos em 3D feitos pelo perito Sérgio Eisemberg, em 2019. O material mostra como os laudos originais do acidente de carro que matou o ex-presidente trouxeram causas que seriam fisicamente impossíveis de acontecer.
O laudo e os vídeos de Sérgio fazem parte do inquérito do Ministério Público Federal e são usados no documento da CEMDP que revisa os eventos da morte de Juscelino e do motorista Geraldo Ribeiro. O material aponta para um assassinato do ex-presidente. Detalhes sobre a nova investigação da relatora Maria Cecília Adão não foram revelados. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, o estudo está em processo de avaliação.
A versão oficial sobre o acidente de carro, feita pelo ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli), em 1976, diz que o Opala no qual o ex-presidente viajava era conduzido pelo motorista Geraldo Ribeiro quando teria se envolvido em uma batida leve com um ônibus durante uma ultrapassagem. O impacto teria feito com que o carro perdesse o controle e invadido a pista contrária da rodovia, onde bateu de frente com um caminhão que seguia em direção a São Paulo.
Juscelino e Geraldo morreram na hora. O motorista da carreta, Ademar Jahn, sobreviveu. Já o motorista do ônibus foi acusado criminalmente pelo acidente e mais tarde inocentado pela Justiça do Rio de Janeiro.
Os vídeos em 3D que foram anexados ao novo relatório da CEMDP visam ilustrar como a hipótese oficial — deferida pela Comissão Nacional da Verdade — traz inconsistências. As gravações mostram que o ônibus teria desacelerado em uma curva e o Opala acelerado para ultrapassá-lo, tornando impossível uma colisão na traseira do automóvel naquele momento.
Assista ao vídeo sob a perspectiva do Opala:
Sob a perspectiva do ônibus:
Sob a perspectiva do caminhão:
Colisão “injustificável”
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade defendeu a tese de 1976, mas outras organizações discordaram das investigações. A perícia de Eisembergh também contesta essa versão.
O laudo da década de 1970 aponta que o Opala trafegava lentamente na pista e teria sido ultrapassado pelo ônibus, que estaria a cerca de 80 km/h. O carro acelerou, realizou uma ultrapassagem irregular pela direita do ônibus, atravessou o canteiro central e seguiu para a pista contrária, na contramão, colidindo com um caminhão.
Para o perito, a colisão sem tentativa de defesa era “injustificável e incompreensível sob condições normais”. Ele entendeu que não teria como o ônibus alcançar a traseira do Opala para bater nele.
“A trajetória do automóvel OPALA em rota de colisão pela contramão na pista oposta vazia era injustificável e incompreensível sob condições normais, realizada sem nenhuma reação defensiva instintiva em condições normais, como frear ou desviar”, diz trecho do relatório.
Sergio ainda diz que os laudos antigos não investigaram a possibilidade de problema mecânico no Opala e, por isso, seriam “imprestáveis para a determinação da causa do acidente”.
Segundo o perito, não há como descartar a hipótese de uma alteração estrutural no veículo durante parada de Juscelino no Hotel Villa Forte. Essa, inclusive, poderia ser a causa do acidente.
“Não é uma trajetória que um motorista profissional e competente empreenderia, podendo se aventar a hipótese de que o motorista não tinha o comando do veículo, que teria sido ‘mexido’ enquanto estava no Hotel VILLA-FORTE”, completa.
Sergio também diz que as fotografias tiradas no local do acidente mostravam os para-lamas traseiros do Opala intactos. As avarias do carro poderiam ter acontecido no içamento do veículo após a ocorrência ou “podem ter sido o resultado de pancadas posteriormente desferidas contra o veículo”.
“Os danos nos veículos constatados nas fotos do Laudo do ICCE e nos arquivos fotográficos adicionais obtidos em pesquisa junto aos órgãos de comunicação permitem afirmar que os amassamentos constatados em ambos os paralamas traseiros do OPALA (direito e esquerdo) são basicamente resultado de deformação induzida, decorrente da colisão frontal com o caminhão”, explica.
Para ele, também não havia como desconsiderar o contexto político da época: Juscelino teve seus direitos parlamentares cassados e era considerado um perseguido pelo regime.
Por fim, a conclusão de Sergio é de que os estudos técnicos dos peritos de 1976 não se sustentavam. Agora, o relatório da CEMDP reavalia essas circunstâncias com base nos vídeos em 3D do perito e aponta que a morte de JK foi provocada e não acidental.

