O nascimento de um bezerro macho em uma fazenda de leite sempre foi tratado como um contratempo.
O animal ocupa espaço, consome colostro e, na maioria das vezes, é repassado sem dar lucro. O sistema tecnológico chamado de “Beef on Dairy”, que na tradução literal significa “Carne no Leite”, propõe uma mudança no sistema de reprodução das fêmeas em fazendas leiteiras. Em vez de tratar o bezerro macho como subproduto, a proposta é planejá-lo antes da concepção como um ativo comercial.
A virada de chave está no uso da inseminação artificial com sêmen sexado.
Dentro das fazendas de leite nem toda vaca tem o mesmo valor genético. Algumas são filhas de touros provados, com alta produção, boa saúde do úbere e eficiência alimentar. Outras completam o rebanho sem se destacar nesses indicadores.
Se antes as fêmeas eram inseminadas com o mesmo tipo de sêmen, de touro leiteiro e sem controle sobre o sexo das crias, uso do sêmen sexado mudou esse sistema.
No “Beef on Dairy” as vacas e novilhas de maior valor genético recebem sêmen sexado de fêmea, de touros provados, para reproduzir bezerras que se tornarão as próximas produtoras de alto desempenho do rebanho.
Já as vacas de menor potencial genético recebem sêmen de touros de raças de corte. Os bezerros que nascem desses cruzamentos não têm vocação para o leite, e sim para a carne. E, dependendo da raça usada no cruzamento, o produtor pode receber até uma bonificação no abate.
A geneticista Laís Grigoletto, da empresa de ABS Global que fornece tecnologias de reprodução bovina, alerta: “não é apenas usar um touro de corte qualquer. É preciso selecionar os animais com base em dados reais de desempenho, avaliando crescimento, conversão alimentar, rendimento e padronização de carcaça”.
Para escolher o “pai” desses bezerros é preciso priorizar:
- Segurança no Parto: porte dos machos deve ser levado em consideração, visando a facilidade no parto para não comprometer a saúde da vaca leiteira.
- Eficiência Produtiva: os índices de conversão alimentar e ganho de peso.
- Consistência Genética: entrega de animais uniformes para a cadeia de carne.
O cruzamento do Jersey, do leite, e o Wagyu, da carne
A Fazenda Lagoa Dourada, localizada em Arapoti (PR), cerca de 240 quilômetros de Curitiba, é famosa pela tecnologia empregada em todas as etapas de produção de leite.
O rebanho é formado 700 animais da raça Jersey e as 390 fêmeas em lactação produzem 12 mil litros de leite por dia. O sistema de ordenha robotizado (mais moderno que a ordenha mecanizada) é fixo e acaba limitando a expansão do rebanho. Para ter mais fêmeas em o criador Nico Biersteker precisaria antes adaptar o sistema robotizado. “Chegamos em um ponto onde que não nos permite expandir o rebanho. Eu tinha que vender fêmeas em produção ou as mais jovens”, explica Biersteker.
O uso de sêmen sexado já fazia parte da rotina da fazenda. Há seis anos o casal conheceu a proposta do “Beef on Dairy” e passou então a investir na produção de carne.
Nas vacas que vão emprenhar pela primeira vez, as primíparas, Nico usa o sêmen sexado de fêmea, perpetuando assim a genética Jersey na propriedade, com o registro genealógico e genotipagem de 100% dos animais.
Nas multíparas, vacas que já deram crias, o cruzamento é feito com sêmem sexado de macho.
“Testei diversas raças para cruzamento com minhas vacas Jersey, como Angus, Brangus… quando tive contato com a Guidara eles apresentaram a proposta do Wagyu. Ficamos surpresos com a qualidade dos resultados”.
A raça japonesa é famosa no mundo por entregar marmoreio da carne
E em vez de repassar os bezerros cruzados, conhecidos como F1, Nico faz o ciclo completo dentro da fazenda e vende os animais prontos para o abate para a Guidara, uma indústria focada na produção verticalizada de carne premium. Encabeçando o negócio está o pecuarista e empresário Daniel Steinbruch, que cria bovinos Wagyu desde 2006 na Fazenda Querência, em Mogi Mirim (SP).
O criatório ajuda os produtores de leite com a escolha da genética e na implantação do programa, que ganhou o nome de “Wagyu on Dairy”. Além do ganho econômico, o modelo tem bons indicadores produtivos com alta taxa de concepção. Os bezerros do cruzamento de Jersey com Wagyu nascem pequenos, evitando complicações na gestação e no parto, e apresentam desempenho em ganho de peso e rendimento de carcaça.
Para Tatiana Caruso, veterinária da Guidara, um dos diferenciais do programa está na organização da cadeia produtiva e na previsibilidade, “muitos produtores acabavam produzindo o bezerro sem ter certeza para quem vender. O programa busca justamente garantir a compra desses animais e oferecer bonificação pela qualidade, trazendo mais segurança comercial para o produtor”.
Uso do sêmen sexado
Dados da Asbia (Associação Brasileira de Inseminação Artificial) mostram que o uso de sêmen sexado cresceu 12,7% in 2024. E saltou mais 26% em 2025, com mais de 1 milhão de doses comercializadas.
O setor leiteiro absorve a grande maioria: cerca de 95% das doses de sêmen sexado comercializadas no Brasil são para fazendas de leite.
“Além de otimizar o plantel, o cruzamento industrial no leite tornou-se uma engrenagem de estabilidade financeira para muitas fazendas ao equilibrar a reposição, evitando a superprodução de fêmeas leiteiras. E atender à demanda crescente da cadeia de carne, um mercado consumidor cada vez mais exigente em qualidade e rastreabilidade”, diz o presidente da Asbia, Luis Adriano Teixeira.
A recuperação no preço da carne bovina ao longo de 2026 deve estimular o uso da tecnologia do sêmen sexado e de programas como o “Beef On Dairy”. “Estamos passando por um momento muito positivo do ciclo pecuário de corte, então a produção de animais especializados, com o corte no leite, também atende à demanda crescente da cadeia produtiva da carne nos próximos anos”, completa Luis Adriano.
