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Reduzir a aversão ao risco pode sair mais caro para o Brasil

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 6 horas)

Nas próximas semanas, o setor elétrico brasileiro voltará a discutir os parâmetros de aversão ao risco utilizados nos modelos computacionais que orientam a operação do SIN (Sistema Interligado Nacional) e a formação dos preços da energia elétrica.

Embora seja um debate técnico, seus efeitos são diretos sobre segurança energética, modicidade tarifária, previsibilidade regulatória e competitividade da economia brasileira. Por isso, é importante que essa discussão considere não apenas os preços de hoje, mas também as condições necessárias para garantir segurança no fornecimento de energia nos próximos anos.

O sistema elétrico brasileiro mudou de forma profunda nos últimos anos. A expansão da matriz ocorreu principalmente por meio da incorporação acelerada de fontes renováveis não controláveis, especialmente eólica e solar, enquanto a carga continua crescendo em todo o país. Essa transformação trouxe ganhos importantes para a diversificação da matriz elétrica brasileira, mas também elevou significativamente a complexidade da operação do sistema.

Hoje, convivemos simultaneamente com sobra estrutural de geração em determinados períodos do dia, especialmente nas horas de maior produção solar, e com necessidade crescente de flexibilidade para atender os momentos de maior demanda, sobretudo no fim da tarde e à noite.

Além disso, a rápida expansão da micro e minigeração distribuída vem adicionando desafios relevantes para a representação da carga e para a previsibilidade operativa do sistema, ampliando ainda mais a complexidade da operação em tempo real. Na prática, isso significa que o sistema passou a depender mais da capacidade de resposta operacional e da preservação de recursos flexíveis.

Nesse contexto, os reservatórios hidrelétricos assumem importância ainda maior para a segurança do SIN. Seu papel vai além da energia armazenada. Os reservatórios são fundamentais para modular a geração ao longo do dia, compensar variações das fontes intermitentes e preservar a confiabilidade operativa do sistema.

Por isso, a avaliação das condições de segurança energética e a calibração de parâmetros para atendimento de critério de aversão ao risco de faltar energia elétrica se tornou mais complexa em uma matriz com crescente participação de fontes variáveis.

Um mesmo nível de armazenamento de água nos reservatórios hoje não representa necessariamente o mesmo nível de segurança operativa observado no passado. Isso porque a composição da matriz elétrica mudou e a flexibilidade relativa do sistema diminuiu, e muito. Esse ponto é central para o debate atual sobre os parâmetros de aversão ao risco.

Os parâmetros utilizados pelos modelos computacionais existem justamente para equilibrar segurança e custo da operação, buscando refletir da forma mais aderente possível as condições reais do sistema elétrico.

Nesse sentido, os parâmetros atualmente vigentes vêm demonstrando aderência importante à realidade operativa do SIN, inclusive diante das transformações estruturais observadas nos últimos anos. Além disso, os aprimoramentos recentes dos modelos computacionais representam avanços relevantes ao permitir maior aproximação entre a modelagem matemática e a operação real do sistema.

Também é importante considerar que parte relevante dos custos associados à segurança energética não aparece apenas diretamente no preço de curto prazo, mas pode se materializar posteriormente por meio de encargos sistêmicos, despacho adicional de geração térmica e outras medidas operativas necessárias para preservar o atendimento. Por isso, a discussão sobre modicidade tarifária não pode estar dissociada da discussão sobre segurança operativa e coerência dos sinais econômicos.

Em um sistema mais complexo, mais variável e mais dependente de flexibilidade operativa, reduzir parâmetro de proteção contra risco, pode produzir sinais incompatíveis com as necessidades reais de operação do SIN.

O desafio do setor elétrico brasileiro não é escolher entre segurança energética e modicidade tarifária. O desafio é garantir que os modelos computacionais consigam representar adequadamente a realidade operativa do sistema, preservando coerência entre operação, planejamento, expansão e formação de preços.

Em sistemas elétricos complexos, parâmetros aderentes à realidade operativa são condição necessária para garantir que, ao apertar o interruptor, a luz acenda. acenda.

* Marisete Pereira é presidente da Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica)

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