Os Estados Unidos devem tentar firmar um acordo de exploração privilegiada das terras raras brasileiras nas negociações com o Brasil. A avaliação é de Jorge Ferreira, especialista em economia internacional, que concedeu entrevista ao Agora CNN para comentar as expectativas em torno das tratativas entre os dois países.
Segundo Ferreira, a agenda americana vai muito além da questão tarifária. “Os Estados Unidos têm uma agenda global relacionada às terras raras, e o Brasil tem algumas regiões que têm esse tipo de mineral”, afirmou o especialista.
Ferreira avaliou que a estratégia norte-americana deve seguir um padrão já observado em outras negociações. “Eles vão tentar fazer mais ou menos o que foi feito com a Ucrânia, tentar tirar algum acordo de exploração privilegiada das terras raras brasileiras”, disse. Na prática, isso significaria concessões que permitiriam às empresas americanas preferência em licitações de exploração ou mesmo o direito de concessão de determinadas regiões ricas em minerais críticos no território brasileiro.
Do lado brasileiro, Ferreira entende que a posição tende a resistir à exclusividade. “O lado brasileiro vai tentar tirar um pouco do peso de dar exclusividade ou um direito privilegiado de exploração das terras raras e trazer a conversa mais para uma discussão de livre mercado”, explicou. Para ele, livre concorrência é sempre mais vantajosa quando se trata de concessões.
O especialista também comentou a aprovação do projeto de lei sobre minerais críticos no Brasil. Para Ferreira, o texto representa um início, mas está longe de estabelecer um arcabouço regulatório sólido. “Temos um longo caminho para ter um arcabouço regulatório que seja firme e traga uma visão clara sobre como o Brasil vai endereçar o assunto da exploração das terras raras”, afirmou. Ele destacou que o tema voltou à pauta com força justamente em razão da pressão dos Estados Unidos sobre vários países, incluindo o Brasil.
Negociações avançam para nível técnico
Ferreira também analisou a escolha dos interlocutores das duas partes nesta nova rodada de negociações. Para ele, a escalação de nomes como Jamieson Greer e Howard Lutnick pelos Estados Unidos, em contraste com Marco Rubio na fase anterior, reflete uma mudança no nível das tratativas.
“A gente vai para o nível mais técnico da discussão”, disse. Segundo o especialista, enquanto o momento inicial era essencialmente diplomático — o que justificava a presença do equivalente ao chanceler americano —, agora os grupos de trabalho demandam perfis com expertise em comércio exterior e acordos comerciais.
Questionado sobre as chances de o Brasil eliminar totalmente os riscos de novas tarifas, Ferreira foi cauteloso. “A eliminação total das tarifas seria um cenário otimista”, avaliou, acrescentando que o cenário mais provável é uma redução significativa, com alguns setores ainda penalizados.
Ele citou os segmentos de metais e eletrônicos como os mais afetados pelo atual regime tarifário, que resultou em uma redução de 6% no comércio exterior brasileiro com os Estados Unidos. “A minha leitura e a leitura feita pelo mercado é bastante positiva dessa aproximação dos dois governos, porque a gente percebe uma predisposição para chegarem a um acordo favorável para as duas partes”, concluiu Ferreira.

