O professor do Instituto de Energia da PUC-Rio e ex-diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), David Zylbersztajn, avalia que a instabilidade no Oriente Médio pode acelerar um reposicionamento geopolítico da produção mundial de petróleo e gás, com maior protagonismo das Américas.
Durante participação no programa WW Especial, da CNN Brasil, Zylbersztajn afirmou que os conflitos envolvendo o Irã têm efeitos contraditórios sobre a transição energética. “Evidentemente, quem puder reduzir sua dependência e aumentar sua segurança em relação ao que hoje são os combustíveis fósseis, vai fazer”, disse.
Ao mesmo tempo, ponderou que o movimento imediato do mercado é buscar novos fornecedores de petróleo e gás. “O mundo está dizendo: ‘se eu não posso tirar dali, eu vou buscar em outros lugares’”, acrescentou.
Segundo o especialista, esse deslocamento já está em curso e fortalece o que ele chamou de “eixo atlântico” da energia. Na avaliação dele, países do continente americano reúnem condições mais favoráveis de estabilidade institucional e segurança logística em comparação ao Oriente Médio.
“O Canadá e os Estados Unidos são produtores relevantes. Os Estados Unidos são independentes, não dependem do petróleo e do gás natural de ninguém, pelo contrário, são exportadores líquidos de hidrocarbonetos”, afirmou.
Zylbersztajn também destacou o avanço da produção energética em outros países da região. “O México está abrindo progressivamente a sua economia, tem o Caribe entrando e, não menos importante, a Venezuela. Hoje, o setor de energia da Venezuela, especificamente petróleo, é controlado progressivamente pelas empresas americanas.”
Ao listar os países que podem ganhar relevância nesse novo cenário, Zylbersztajn mencionou ainda as Guianas, o Brasil e a Argentina. “As Guianas já estão começando a produzir petróleo fortemente. A França está quebrando um tabu de poder explorar petróleo na sua Guiana Francesa, que é vizinha ao Amapá. No Brasil, nós temos a Margem Equatorial com a exploração do petróleo da bacia da Foz do Amazonas, que vai aumentar o crescimento da produção nacional”, explicou.
No caso argentino, apontou o potencial de Vaca Muerta. “É o campo mais promissor descoberto em termos de gás natural”, destacou.
Para o professor da PUC-Rio, o principal impacto dessa reorganização geopolítica será sobre os países asiáticos, mais dependentes das rotas marítimas ligadas ao Oriente Médio. “Quem vai, de alguma maneira, não ser atendido no primeiro momento são os países asiáticos, que são os países que mais sofrem com fechamentos do Estreito de Ormuz.”
Zylbersztajn acredita ainda que a retomada da produção venezuelana pode ampliar esse movimento nos próximos anos. “A Venezuela estava produzindo 700 mil barris por dia, mas chegou a produzir quase 4 milhões e isso vai voltar a acontecer”, pontuou.
WW Especial
Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.
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*Publicado por Jorge Fernando Rodrigues

