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Lula na Casa Branca e o Brasil no tabuleiro estratégico EUA-China

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

A visita de Lula à Casa Branca pode parecer, à primeira vista, uma reunião de trabalho convencional entre dois países relevantes do continente. Mas, na leitura estratégica do momento, o encontro se insere em uma dinâmica muito mais ampla de reposicionamento dos Estados Unidos diante das grandes questões globais e, sobretudo, da China.

A pauta que se desenha — segurança pública, crime organizado transnacional, eventual enquadramento de organizações como terroristas, terras raras, minerais críticos, propriedade intelectual, comércio eletrônico, PIX, telecomunicações, acesso de big techs ao mercado brasileiro e tarifas de importação — não é apenas extensa. Ela revela um conjunto de temas sensíveis, nos quais economia e segurança se misturam de forma crescente na política internacional.

O ponto central não está apenas no conteúdo da agenda, mas no timing. A coincidência dessa visita com outros movimentos da diplomacia americana sugere uma articulação mais ampla. Enquanto o governo Trump lida com múltiplas frentes de tensão, do Oriente Médio ao Irã, passando por conflitos sistêmicos de maior escala, o espaço aberto para o encontro com Lula indica uma calibragem específica da política hemisférica.

Na leitura estratégica, o hemisfério ocidental volta a ocupar posição prioritária na doutrina de segurança dos Estados Unidos. A América Latina, e em particular o Brasil, passam a ser observados não apenas sob a lógica bilateral, mas como parte de um tabuleiro global em que a variável chinesa é decisiva.

O Brasil ocupa uma posição singular nesse arranjo. É, ao mesmo tempo, um parceiro relevante no hemisfério americano e um fornecedor estratégico da China em commodities agrícolas, energéticas e minerais. Ao observar essa dinâmica, os Estados Unidos também projetam seus próprios interesses comerciais no mercado chinês, já que seguem como grandes exportadores de soja, milho, carnes e petróleo.

É justamente essa posição intermediária que torna o encontro relevante. Ao dialogar com o Brasil, Washington não trata apenas de uma agenda bilateral, mas também observa fluxos globais de comércio e dependências estratégicas que impactam diretamente sua relação com Pequim.

Uma hipótese pouco explorada, mas plausível nesse contexto, é que o encontro Lula-Trump funcione como uma etapa preparatória de um movimento maior da política americana em relação à China. O Brasil, como grande exportador de commodities e insumos estratégicos, torna-se uma peça importante para a leitura que os Estados Unidos fazem das cadeias globais de suprimento.

Nesse sentido, o que está em jogo não é apenas o conteúdo formal da reunião em Washington, mas o papel do Brasil como variável relevante em uma disputa sistêmica entre as duas maiores potências do mundo.

*Alberto Pfeifer é coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de geopolítica do Insper Agro Global. Foi diretor de projetos especiais e diretor de assuntos internacionais estratégicos da Presidência da República. Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW.

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