A Brasilagro encerrou o terceiro trimestre fiscal de 2026 (encerrado em 31 de março) com retração na receita e deterioração das margens operacionais, em um período marcado pela queda nos preços de commodities agrícolas, menor contribuição da venda de fazendas e impacto da revisão do valor justo dos ativos biológicos.
A companhia registrou um prejuízo líquido de R$ 14,3 milhões, em comparação também a um resultado negativo em 2025 de R$ 1,09 milhão. Em nove meses, o prejuízo líquido ficou em R$ 76,07 milhões, ante lucro líquido de R$ 76,7 milhões no ano anterior.
A receita líquida total da companhia no trimestre somou R$ 166,9 milhões, queda de 26% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita líquida operacional recuou 17%, para R$ 141,7 milhões, refletindo principalmente preços menores de algodão, cana-de-açúcar e pecuária. A receita líquida em nove meses caiu 2%, para R$ 635,78 milhões.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado total ficou negativo em R$ 28,5 milhões no trimestre, ante resultado negativo de R$ 5 milhões um ano antes. A margem Ebitda ajustada passou de -2% para -17%. Em nove meses, o Ebitda ajustado recuou 78%, para R$ 42,79 milhões, com a margem caindo 7 pontos percentuais, para –12%.
“No ano passado tivemos um ambiente de preços muito favorável para soja. Neste ciclo, a realidade mudou e isso começou a aparecer de forma mais clara no resultado deste trimestre”, afirmou o diretor de relações com investidores da Brasilagro Gustavo Javier Lopez.
Segundo o executivo, a companhia também esperava um ambiente mais favorável para a soja ao longo da safra.
“A gente entrou na safra esperando uma dinâmica diferente para soja, inclusive com expectativa de acomodação do cenário geopolítico, mas isso não aconteceu da forma esperada e acabou impactando os preços ao longo do trimestre”, disse.
Sem venda de fazendas
Como explicou Guillaumon, parte relevante da piora no desempenho decorre da ausência de receitas extraordinárias com alienação de fazendas, historicamente importantes para a geração de caixa da Brasilagro.
No acumulado dos nove meses, a receita com venda de propriedades rurais foi de apenas R$ 4 milhões, na comparação com R$ 129,3 milhões no mesmo período do exercício anterior.
Além disso, a variação do valor justo dos ativos biológicos e produtos agrícolas, que havia contribuído positivamente no ano passado, teve forte desaceleração. No trimestre, o efeito positivo foi de R$ 21,1 milhões, queda de 61% sobre o mesmo intervalo de 2025.
Soja ainda sustenta
A soja permaneceu como principal fonte de receita da companhia no trimestre. O segmento respondeu por R$ 95,7 milhões em faturamento, equivalente a mais de dois terços da receita operacional consolidada. Apesar da relevância, houve retração de 8% na comparação anual.
O algodão pluma foi um dos principais vetores negativos do período. A receita caiu 43%, para R$ 21,7 milhões, acompanhando a redução dos preços internacionais e menor volume comercializado.
A receita com cana-de-açúcar recuou 32%, somando R$ 7,2 milhões no trimestre, enquanto a pecuária apresentou queda de 57%, para R$ 3,9 milhões.
Por outro lado, algumas culturas apresentaram expansão relevante. As vendas de milho avançaram fortemente na comparação anual, beneficiadas pela ampliação da área cultivada e maior produção. A receita do cereal chegou a R$ 6,5 milhões, frente a apenas R$ 355 mil um ano antes.
No acumulado de nove meses, a companhia também registrou crescimento importante em pecuária e milho, parcialmente compensando o desempenho mais fraco de cana e algodão.
Proteção de margens
A Brasilagro ampliou significativamente sua política de hedge ao longo do trimestre, para preservar margens diante da volatilidade das commodities e do câmbio.
Na soja, a companhia elevou a posição protegida da safra para 82%, ante 65% no trimestre anterior. Em algodão, o hedge alcançou 76%, enquanto no milho a proteção subiu para 54%.
A companhia também avançou na proteção cambial de recebíveis e reforçou operações em açúcar e etanol. No açúcar, 100% da exposição da safra já estava travada ao fim de março.
“A estratégia de hedge ajudou a proteger margens. Grande parte da produção foi comercializada com dólar em torno de R$ 5,90, acima do patamar atual, o que trouxe impacto positivo para a companhia”, afirmou Lopez.
O executivo reconheceu que o ambiente internacional para os grãos segue desafiador. “Do ponto de vista de Chicago, o mercado foi mais pressionado, mas a proteção cambial compensou parte desse movimento. O preço combinado ficou próximo de R$ 117 por saca, acima de algumas referências atuais de mercado”, disse.
Perspectivas
Apesar da deterioração dos indicadores financeiros no trimestre, a Brasilagro manteve projeções robustas para a safra 2025/26.
A companhia estima produção total de 442,5 mil toneladas em suas principais culturas, avanço de 21% em relação ao realizado na safra anterior. O crescimento é puxado principalmente por soja e milho.
A produção estimada de soja foi elevada para 252 mil toneladas, crescimento de 17% frente à safra 2024/25. Já o milho deve alcançar quase 165 mil toneladas considerando primeira e segunda safra, avanço expressivo sobre o ciclo anterior.
O desempenho operacional da cana-de-açúcar também deve melhorar. A companhia projeta colheita de 2,17 milhões de toneladas no ciclo 2026, alta de 25%, com ganho relevante de produtividade agrícola.
O indicador TCH (toneladas colhidas por hectare) deve subir de 67,5 para 79,5 toneladas por hectare, refletindo melhores condições climáticas e recuperação de áreas agrícolas.
“A última safra de cana foi mais fraca, mas já estamos observando melhora operacional relevante neste ciclo, com recuperação de produtividade e qualidade agrícola”, afirmou Luciana Dalmagro, executiva de sustentabilidade da empresa.
Segundo a executiva, a expectativa é de melhora operacional relevante já nos próximos trimestres. “Mesmo com preços mais baixos de ATR, a expectativa é de melhora do resultado da cana no próximo trimestre, sustentada pelo ganho de produtividade agrícola”, disse.
Por outro lado, a área plantada de algodão foi reduzida de forma significativa, estratégia interpretada pelo mercado como uma resposta direta às condições menos favoráveis de rentabilidade da cultura.
“A companhia segue vendo oportunidades de monetização de fazendas, o que pode contribuir para melhorar os resultados ao longo dos próximos trimestres”, afirmou Lopez
Para os próximos trimestres, o desempenho da Brasiagro deverá continuar fortemente dependente do comportamento dos preços internacionais de soja, milho, algodão e açúcar, além da evolução do câmbio.
A expectativa de recuperação operacional da safra 2025/26, combinada à política mais agressiva de hedge e à melhora esperada de produtividade agrícola, pode contribuir para uma normalização gradual das margens.
