O mundo está desesperado por uma solução para acabar com o congestionamento de petroleiros no Estreito de Ormuz.
O governo Trump está tentando fazer isso: anunciou que conseguiu conduzir com sucesso dois navios americanos para fora do estreito na segunda-feira (4). Mas seu “Projeto Liberdade” não parece ser a virada necessária para acabar com a crise energética histórica.
Pelo menos, essa é a mensagem do mercado.
Os preços da energia não despencaram depois que o presidente Donald Trump anunciou a nova iniciativa dos EUA para “conduzir” navios pelo Estreito de Ormuz.
Os futuros do petróleo subiram para mais de US$ 100 por barril e, em seguida, atingiram níveis ainda mais altos, à medida que navios e importantes instalações energéticas no Oriente Médio foram alvo de ataques na segunda-feira, levantando dúvidas sobre a durabilidade do cessar-fogo.
Os futuros da gasolina também dispararam, indicando que o aumento dos preços nos postos de combustível vai piorar antes de melhorar.
Neste momento, o mercado aposta que o Projeto Liberdade não conseguirá liberar a enorme quantidade de energia retida no Oriente Médio.
Uma missão incompleta
O ceticismo reflete algumas realidades:
- Esta não é uma missão de escolta: o Projeto Liberdade é uma iniciativa para “restaurar a liberdade de navegação” no Estreito de Ormuz, que contará com mais de 100 aeronaves terrestres e marítimas e 15.000 militares, de acordo com o Comando Central dos EUA. Embora o anúncio de Trump mostre que as autoridades americanas estão, com razão, focadas na reabertura do Estreito de Ormuz, isso não é uma promessa de que as Forças Armadas dos EUA acompanharão os navios que tentam transitar pela estreita via navegável. Na verdade, uma autoridade americana disse à CNN que esta não será uma missão de escolta.
- O Irã afirma que isso viola o cessar-fogo: Autoridades no Irã responderam rapidamente ao Projeto Liberdade, argumentando que ele viola o frágil cessar-fogo com os Estados Unidos. Além disso, o Irã pareceu responder retomando os ataques na região.
- Confiança abalada: O setor marítimo foi abalado pelo Irã minando o Estreito de Ormuz e atacando navios que tentam passar. Executivos do setor de transporte marítimo já estão expressando cautela em relação ao Projeto Liberdade e não está claro se os proprietários de petroleiros estarão dispostos a correr o risco de tentar transitar pelo estreito.
O que o mercado quer
O Projeto Liberdade está muito aquém de uma reabertura total do Estreito de Ormuz – um longo processo que, segundo analistas do setor petrolífero, será necessário para que o petróleo volte a fluir suficientemente pelo Oriente Médio e, assim, reduza significativamente os preços. O Eurasia Group alertou que, a menos que haja “adesão” do Irã ou um grande destacamento naval na região, o Projeto Liberdade fracassará.
“O plano dos EUA não aumentará substancialmente o volume de tráfego marítimo pelo estreito no curto prazo”, escreveu a consultoria Eurasia Group em um relatório na segunda-feira.
Essa opinião foi compartilhada por Bjørn Højgaard, CEO da Anglo-Eastern, uma empresa de gestão de navios.
“É preciso que ambos os lados desbloqueiem a situação — não apenas um”, disse Højgaard. “Qualquer uma das partes pode sinalizar que está disposta a deixar certos navios passarem, mas, a menos que o outro lado aceite isso na prática, isso não muda significativamente a realidade no mar.”
Novos ataques no Oriente Médio
Essa realidade está se tornando ainda mais complicada devido a novos ataques físicos na região.
As forças armadas dos EUA e do Irã trocaram tiros na segunda-feira, com os EUA destruindo pequenas embarcações iranianas em resposta a ataques contra bens norte-americanos.
Uma explosão abalou um navio ligado à Coreia do Sul no Estreito de Ormuz. A causa da explosão não ficou clara, mas o incidente ressalta as preocupações com a segurança para as embarcações que pretendem realizar a travessia.
Em seguida, um grande incêndio eclodiu em uma importante instalação petrolífera nos Emirados Árabes Unidos, em um ataque que as autoridades locais atribuíram a drones iranianos.
O incidente danificou a Zona Industrial Petrolífera de Fujairah, o ponto final de um oleoduto usado para contornar o Estreito de Ormuz.
O risco da gasolina a US$ 5
Os futuros do petróleo bruto dos EUA caíram inicialmente na noite de domingo com a notícia do Projeto Liberdade, antes de reverterem a tendência. O West Texas Intermediate (WTI), referência dos EUA, subiu para US$ 107,46 o barril na segunda-feira e, nas negociações recentes, registrou alta de 3,5%, para US$ 105 o barril. O petróleo Brent, referência mundial e principal fator determinante dos preços da gasolina, saltou 5%, para US$ 114 o barril.
Os futuros da gasolina nos EUA também subiram na segunda-feira, registrando um novo aumento de 4%, ou 15 centavos por galão.
Os preços no varejo nas bombas dispararam na semana passada e atingiram na segunda-feira um novo recorde de crise de US$ 4,46 por galão, o nível mais alto em quase quatro anos.
Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, disse à CNN que os preços da gasolina provavelmente chegarão a US$ 5 por galão se o Estreito de Ormuz permanecer fechado por mais um mês.
170 milhões de barris de petróleo retidos
O mercado estará acompanhando de perto se o fluxo de tráfego pelo Estreito de Ormuz irá acelerar nos próximos dias.
A esperança é que alguns dos navios retidos no Golfo, transportando suprimentos cruciais para o resto do mundo, consigam finalmente escapar. Mas o Projeto Liberdade, pelo menos em seus estágios iniciais, parece não ter capacidade para resolver rapidamente o grande congestionamento no estreito.
Há cerca de 170 milhões de barris de petróleo bruto, combustível de aviação, diesel e outros produtos refinados retidos no Oriente Médio a bordo de 166 petroleiros, segundo estimativas da Kpler.
“Pode ser um processo muito trabalhoso retirar os petroleiros carregados do Golfo do Oriente Médio – e fazer com que os vazios entrem –, já que as rotas marítimas tradicionais não estão sendo utilizadas por medo de minas”, disse Matt Smith, analista-chefe de petróleo da Kpler.
A Kpler estima que isso possa levar até três meses após a reabertura total do Estreito de Ormuz.
“A ajuda está a caminho”
Autoridades americanas têm tentado tranquilizar os consumidores frustrados com a alta nos preços da gasolina.
“A ajuda já está a caminho a partir de hoje”, afirmou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, na Fox News nesta segunda-feira.
Bessent observou que alguns dos maiores petroleiros presos no estreito transportam cerca de 2 milhões de barris cada. Ele espera que o Projeto Liberdade consiga levar esse petróleo ao mercado em breve.
“Acho que o mercado vai estar bem abastecido… Estou confiante de que, quando isso passar, o mundo vai estar inundado de petróleo”, disse Bessent.
Ele também observou que a OPEP prometeu recentemente aumentar a produção. Mas esse é um gesto em grande parte simbólico, porque o estreito continua fechado.
De qualquer forma, as centenas de milhares de barris de produção prometidos pela OPEP são insignificantes em comparação com a perda estimada de cerca de 14 milhões de barris por dia causada pela guerra.
E os 170 milhões de barris de petróleo retidos no estreito, da mesma forma, são uma gota no oceano em comparação com os cerca de 900 milhões de barris de petróleo que, segundo estimativas de analistas, foram deixados de lado pelo conflito – uma soma que cresce a cada dia em que o Estreito de Ormuz permanece fechado.
David Goldman e Kristie Lu Stout, da CNN, contribuíram para esta reportagem.
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