Tradicionalmente, o Met Gala é o epicentro das grandes maisons europeias e do luxo norte-americano. No entanto, em 2026 os holofotes das novas galerias Condé Nast no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, iluminam uma etiqueta com solo em terras brasileiras.
Nesta edição, a estilista Renata Buzzo foi convidada a integrar a exposição oficial do prestigiado Costume Institute. Sua obra, no entanto, não está lá apenas pela estética, mas pelo peso de sua mensagem.
Batizada de “Corset Anatomia”, a peça selecionada faz parte da coleção “O Corpo”, da primavera/verão 2025, é uma tradução visceral da experiência feminina e um manifesto político contra a crise do feminicídio no país.
Em entrevista à CNN Brasil, Renata conta que ocupar esse espaço é uma vitória coletiva, mas também um lembrete das barreiras que criadoras brasileiras ainda enfrentam.
“A presença de mulheres brasileiras em um evento desse porte é de extrema importância. Na moda e na arte, mulheres são suprimidas. Isso nos mostra que precisamos ter mais confiança e menos síndrome de impostora”, afirma a designer.
Ela ressalta que, embora o mundo esteja aberto ao Brasil, o suporte interno ainda é o maior gargalo: “Não falta talento, mas tem muita ‘panela’. Às vezes a gente não aparece o necessário para alcançar esses espaços”, acrescenta.
O “Corset Anatomia”: quando a moda vira mapa de resistência
A escolha da peça foi chancelada por ninguém menos que Andrew Bolton, o curador-chefe do Costume Institute. No livro Costume Art, lançado recentemente, Bolton descreve a obra de Buzzo como uma “agência de resistência”.
Renata Buzzo transporta essa revelação dotada de agência para o campo da crítica biopolítica com seu conjunto “Corset Anatomia”, da coleção primavera/verão 2025 O CORPO. Inspirando-se em seu conto “The Body”, que investiga a experiência feminina através da metáfora da mortalidade, Buzzo reformula o atlas anatômico como um território de resistência diante da escalada da crise de feminicídio no Brasil. Evocando a intimidade da lingerie, peças em tons de pele feitas de tule, cetim e chiffon apresentam volumes bulbosos preenchidos com espuma, simulando órgãos internos. O conjunto funciona como um mapa somático, representando com precisão coração, pulmões, rins e o sistema reprodutor feminino. A incorporação de franjas de seda vermelha atua como um signo tátil de hemorragia — uma tradução sensorial que transforma o estudo anatômico formal em um grito visceral contra a violência sistêmica.
Andrew Bolton
Diferente das dissecações anatômicas históricas, onde o corpo é um objeto passivo, o design de Renata traz autonomia.
Utilizando tule, cetim e chiffon em tons de pele, a peça simula órgãos internos — coração, pulmões e sistema reprodutor — com volumes bulbosos e franjas de seda vermelha que evocam hemorragias táteis.
“Foi a minha forma de dizer que uma mulher não deve caber, se encaixar e se moldar pra sobreviver, que ela deve vazar e extravasar e deixar ir quem não aguentar”, diz.
“Exatamente quando eu apliquei essa premissa na minha própria vida, parei de me diminuir e de tentar me adequar é que eu consegui chegar nesse lugar, tem um caráter simbólico pra mim, não vejo tanto como responsabilidade e sim como encontrar um caminho, entrar nele e entender que aquilo não tem volta”, adiciona.
Da passarela da São Paulo Fashion Week (SPFW) para as galerias do Met, a percepção da estilista sobre sua obra não mudou, mas ganhou uma chancela global. Para ela, o momento não é de carregar o peso da responsabilidade, mas de celebrar a autenticidade.
“É como encontrar um caminho, entrar nele e entender que aquilo não tem volta”, finaliza.
