A visita do ministro da Agricultura, André de Paula, à SRB (Sociedade Rural Brasileira), em São Paulo, nesta terça-feira (04) evidenciou o momento de forte pressão vivido pelo agronegócio e reforçou a cobrança do setor por soluções urgentes, especialmente nas áreas de crédito, seguro rural e endividamento.
Em reunião com representantes da entidade, o ministro adotou um tom pragmático e afirmou que sua gestão será marcada por “falar menos e trabalhar mais”, destacando a importância de aproveitar a experiência técnica já existente e fortalecer parcerias com o setor produtivo.
Preocupações recorrentes
O encontro foi marcado mais por preocupações do que por novos pleitos. Temas como acesso ao crédito, seguro rural e entraves regulatórios dominaram a agenda.
O presidente da SRB, Sérgio Bortolozzo, afirmou que as dificuldades enfrentadas pelos produtores vêm se agravando. “O ministro se comprometeu a procurar subsídios para o plano de safra e, principalmente, para o endividamento do setor e a perda de capacidade do produtor, que é financeira e de produção”, disse.
O dirigente destacou que o endividamento no campo é hoje uma das principais preocupações do setor. “Precisamos de mecanismos mais amplos de renegociação de dívidas para aliviar a pressão sobre os produtores, discutimos a possibilidade de securitização ou de alongamento das dívidas”, disse.
Crédito no centro do debate
O acesso ao crédito foi apontado como o principal gargalo do setor. Primeiro porque é alto o nível de inadimplência do setor, o que restringe o acesso do produtor ao dinheiro. Também porque novas exigências tendem a penalizar ainda mais o produtor rural. Para o presidente da SRB, regras recentes e exigências adicionais têm gerado insegurança jurídica e dificultado ainda mais o financiamento da produção.
A mais polêmica para o setor é a resolução aprovada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) que obriga os bancos a verificarem no sistema Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Amazônia Legal por Satélite), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), se os imóveis rurais que buscam financiamentos tiveram algum desmatamento depois de 31 de julho de 2019.
André de Paula reconheceu o problema e afirmou que tem levado essa preocupação para dentro do governo. “Não me parece justo penalizar o produtor, restringindo o acesso aos recursos sem garantir o direito de defesa”, disse.
O ministro destacou que a construção de soluções passa por articulação entre diferentes áreas do governo, incluindo a equipe econômica, e que o objetivo é garantir que as políticas públicas sejam efetivas no campo.
“Tempestade perfeita” no agro
O cenário atual foi descrito novamente como uma “tempestade perfeita”, expressão já utilizada pela senadora Tereza Cristina no mês passado para se referir ao clima atual do setor, que combina fatores internos e externos.
De um lado, persistem desafios típicos da atividade agropecuária, como riscos climáticos e volatilidade de preços. De outro, aumentam as incertezas globais, impulsionadas por conflitos geopolíticos e decisões econômicas de grandes potências, que ampliam a instabilidade.
Segundo o ministro, o governo tem consciência desse ambiente adverso e já atua para reduzir seus impactos. “Vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para avançar ou, pelo menos, mitigar esses efeitos”, afirmou.
A reunião em São Paulo ocorre em meio à elaboração do novo Plano Safra, que deve ser anunciado no início de junho. A expectativa do governo é apresentar um programa mais robusto que o anterior, que somou R$ 516 bilhões, mas com atenção especial às taxas de juros, consideradas decisivas para a efetividade do crédito.
A visita foi interpretada como um gesto de aproximação entre governo e setor produtivo. Para a SRB, o diálogo aberto é essencial para a construção de políticas públicas mais alinhadas à realidade do campo.
Já o ministro reforçou que pretende manter essa interlocução constante, em um momento em que o agronegócio enfrenta desafios simultâneos e demanda respostas rápidas.
A expectativa, agora, é que as preocupações apresentadas durante o encontro se traduzam em medidas concretas nas próximas semanas, especialmente no âmbito do crédito rural e do Plano Safra,

