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Entre gritos e pipoca, Milei defende chefe de gabinete após escândalos

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 5 horas)

Antes do início da sessão especial, o presidente da Argentina, Javier Milei já sabia do que se tratava. Minutos antes da sessão, posou ao lado do Chefe de Gabinete e porta-voz, Manuel Adorni, para uma foto com outras autoridades do governo.

Ele entrou na batalha para apoiar Adorni, um de seus funcionários mais próximos, que está no centro de diversos escândalos sobre a evolução de seu patrimônio e de suas despesas desde que iniciou sua função ao lado do presidente, em dezembro de 2023.

Durante 45 minutos, Milei ficou em um dos camarotes e cumprimentou com aplausos a chegada de seu porta-voz. Ele também criticou deputados da esquerda por terem uma ideologia e defendeu a posição do governo no conflito do Oriente Médio, no qual a Argentina mantém um alinhamento irrestrito com os Estados Unidos e Israel.

A oposição também colaborou com o clima mais próximo de um espetáculo do que de um debate parlamentar. O deputado pela província de Santa Fé, Esteban Paulón, distribuiu pipoca no local antes da sessão, como se fosse a prévia de um filme no cinema ou de um espetáculo esportivo.

O debate foi convocado para que Adorni entregasse seu relatório de gestão, obrigação mensal que os chefes de gabinete na Argentina têm. Desde que assumiu o cargo, ele nunca havia cumprido. Mas, na quarta-feira (29) a expectativa estava nas explicações que Adorni teve de dar para a sua situação judicial, mais do que na prestação de contas do governo.

Durante uma hora, o porta-voz fez um balanço dos principais objetivos alcançados e analisou os projetos que o governo tem pela frente. Ele atacou a oposição e se preparou para responder perguntas durante mais de seis horas, a maioria delas relacionadas aos escândalos que o complicam.

Foi a primeira aparição do porta-voz em mais de um mês. Ele estava em silêncio desde março, poucos dias depois do início da onda de acusações. A foto de todo o gabinete apoiando-o foi uma das poucas demonstrações públicas de apoio que recebeu de seu próprio governo.

Sobre as denúncias de corrupção, Adorni disse que não cometeu nenhum crime, que irá provar isso  judicialmente, e que seus gastos não geraram nenhum custo ao Estado.

O porta-voz também preparou uma declaração política. Questionado sobre o seu futuro no governo, disse “não vou renunciar”.

Perto do final, ele voltou a uma das estratégias preferidas do governo: o confronto com o kirchnerismo. Lembrou aos deputados kirchneristas que Cristina Kirchner está detida após ser condenada por corrupção e que eles não são os mais indicados para levantar questões morais.

As investigações envolvendo Adorni

Os problemas do Chefe da Casa Civil começaram em março, quando se soube que sua esposa havia sido convidada pela presidência para voar no avião oficial para Nova York, por ocasião da “semana Argentina”, uma atividade promocional para atrair investidores de diversos setores da economia.

Adorni reconheceu na época que sua esposa havia viajado com ele, disse que o fez porque precisava dela ao seu lado, porque ela é “sua companheira de vida”, e disse uma frase que gerou polêmica: “Vim passar uma semana para relaxar em Nova York”. Essa definição viralizou e caiu como uma bomba no humor social.

Além da polêmica, a Justiça encerrou a investigação por inexistência de crime em caso de suposto desvio de dinheiro público, e Adorni comemorou na rede social X: “O tempo é um juiz tão sábio que não sentencia imediatamente, mas no final concorda com quem tem razão”.

A Justiça apoiou o Chefe da Casa Civil, mas não conseguiu diluir o dilema ético de permitir que sua esposa viajasse no avião presidencial. Já era tarde para acalmar o impacto do assunto na opinião pública. Ainda mais quando foi o próprio Adorni quem disse, em agosto de 2024, que aviões do Estado nunca mais seriam usados ​​para viagens privadas, para polarizar com o kirchnerismo, que é acusado de usar aviões oficiais para fins pessoais.

Após a primeira revelação, as acusações contra o dirigente surgiram diariamente, como um efeito cascata. Até o momento, ele é investigado por enriquecimento ilícito e inconsistências financeiras, após denúncia de compra de imóveis, bens e despesas de viagem, todas incompatíveis com seu nível de renda.

Há também outro caso aberto para uma dessas viagens privadas, ao Uruguai, que foi realizada em avião particular supostamente alugado por uma empresa estatal.

O porta-voz se defendeu dessas acusações durante uma coletiva de imprensa no dia 25 de março, na qual se distanciou de todos os casos e negou as alegações. “Construí o meu patrimônio antes de entrar no governo. Não tenho nada a esconder. Estamos a disponibilizar toda a informação que necessitam ao sistema de justiça e aos correspondentes órgãos de controlo”, argumentou.

Nessa coletiva, Adorni resumiu em uma frase o impacto simbólico que as alegações têm na sociedade: “Nenhum outro governo manteve um padrão tão alto como o nosso. Nunca.” É precisamente por causa desta suposta elevação ética e moral do governo que o seu caso causa tantos danos.

Milei fez campanha contra os comportamentos tradicionais dos políticos e ofereceu-se à sociedade como um líder honesto e austero. “Não há dinheiro” tem sido o seu lema diante de milhares de reivindicações sociais. Agora, a realidade desafia seu discurso e prejudica o acordo que propôs aos argentinos.

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