No primeiro trimestre de 2026, o agronegócio voltou a ser o setor mais pressionado proporcionalmente em recuperações judiciais (RJ) no Brasil, segundo relatório da RGF. A agropecuária encerrou março com 539 empresas em recuperação judicial, alta de 9,3% em relação ao quarto trimestre de 2025, o maior avanço entre os grandes pilares da economia.
Para José Afonso Leirião Filho, sócio de Agronegócios do VBSO Advogados, as condições econômicas afetam diversos segmentos do agro. “No aspecto macroeconômico, o cenário de alta de juros, maior restrição de crédito e elevação do preço dos insumos, certamente está impactando a produção rural em todos os ramos citados”, disse à CNN Brasil.
O índice que mede a proporção de empresas em RJ por mil companhias ativas (IRJ) ficou em 14,42, muito acima da média nacional de 2,18, o que reforça o agro como principal foco de estresse financeiro no país.
Entre as atividades agropecuárias com mais casos, lideram:
- Cultivo de soja: 243 empresas
- Criação de bovinos para corte: 89
- Cultivo de cana-de-açúcar: 49
O especialista em insolvências ainda destaca que a recuperação nesses setores pode ser motivada por fatores específicos e macroeconômicos. “Quando olhamos para um aspecto mais micro, temos o preço da arroba do boi com marcas de alta históricas e também um esperado bom momento para etanol ante o aumento da demanda pela guerra no Oriente Médio. Ou seja, não parece existir crise sistêmica, mas o enfrentamento de cenários diversos entre as culturas mencionadas”, ressaltou.
José Afonso ainda destaca que a continuidade da alta de casos de recuperação é uma tendencia. “Em 2025 já tivemos marcas recorde de pedidos de recuperação judicial nas cadeias agroindustriais. A expectativa desde o final do ano passado, olhando para 2026, era de mais um ano desafiador, visão que se mantém diante dos desafios para que os produtores rurais e agroindústrias controlem seu alto endividamento e ao mesmo tempo consigam se financiar para as safras seguintes”, disse.
O especialista ainada destaca que a postura é de cautela e monitoramento para o setor. “O agente econômico que está com alto endividamento deve, sob um prisma jurídico, avaliar tecnicamente as alternativas que possui para enfrentar uma possível crise, inclusive buscando assessoria especializada para isso, que considere as especificidades do caso concreto”, explicou.
Para agentes que concedem crédito, Afonso destaca a necessidade de análise de fundamentos econômicos e contábeis. “Já ao financiador, é fundamental o monitoramento próximo dos indicadores dos devedores, para auxílio em eventual reestruturação ou tomada de medidas em momento adequado”, concluiu.
O estudo da RGF ainda aponta que o setor segue vulnerável à combinação de juros elevados, necessidade intensa de capital de giro, volatilidade de preços agrícolas e riscos climáticos, fatores que comprimem margens e dificultam o refinanciamento de dívidas.
Regionalmente, o Centro-Oeste teve alta de 5,5% nos pedidos, puxado principalmente por Mato Grosso, que avançou 13,2% no trimestre e 36% em um ano, reflexo da forte exposição ao agronegócio e cadeias ligadas ao campo.

