Mesmo entre alunos com bom desempenho, levantar a mão e sustentar a própria voz diante da turma ainda pode ser um desafio recorrente.
A cena, comum em salas de aula, expõe um contraste: quanto mais domínio de conteúdo, maior pode ser o silêncio. Especialistas apontam que a dificuldade não está, necessariamente, no conhecimento, mas no tipo de pressão envolvida na exposição pública.
Para Fabiana Bertotti, especialista em oratória, referência na capacitação de líderes e profissionais que buscam comunicação clara, estratégica e de alto impacto, a origem do bloqueio começa em uma confusão estrutural. “Desempenho e exposição são competências distintas”, afirma.
Segundo ela, o estudante aprende desde cedo a ser avaliado por acertos e resultados, mas falar em público exige lidar com um processo aberto, visível e sujeito a interpretações. “Quanto mais você sabe, mais você tem a perder na percepção dos outros”, comenta.
Nesse cenário, o silêncio surge como estratégia de autoproteção. “Quando a gente guarda o que a gente sabe em silêncio, o cérebro entende como uma forma de nunca errar na frente de ninguém”, explica.
Esse mecanismo se intensifica com o peso do julgamento, que, segundo a especialista, não vem de fora. “O julgamento que paralisa a gente não vem do olhar do outro, ele sempre vem de dentro”, pontua.
Fabiana descreve um processo acelerado em que o aluno formula a resposta, mas trava antes de falar, ao simular mentalmente como será recebido. “Isso internamente é tão acelerado, é tão punitivo que a fala acaba travando antes mesmo de começar”, exemplifica, destacando que o resultado é uma sobrecarga cognitiva que desorganiza o raciocínio, muitas vezes interpretada como falta de preparo.
A distinção entre domínio técnico e insegurança emocional também ajuda a entender os casos. “Se a pessoa fala com facilidade em contextos seguros, mas trava em público, o problema não é técnico”, explica.
Nesse caso, é a exposição que altera o funcionamento da mente e do corpo. Para enfrentar o bloqueio, o caminho não está na repetição mecânica, mas em um treino progressivo. “O treino real é gradual e deliberado. E junto com isso é preciso trabalhar aquilo que eu chamo de narrativa interna”, pontua.
Entre as estratégias, estão separar pensamento e fala, estruturar ideias previamente e aprender a tolerar pausas. “Parar de tentar ser perfeito e começar a ser compreendido também reduz a pressão”, afirma. No ambiente escolar, a chave está na forma como o erro é tratado. Para ela, diversificar formatos de participação e reduzir o custo emocional do erro são medidas que ampliam, de forma natural, a disposição para falar.
Mais do que conteúdo
A análise de Vivian Rio Stella, pós-doutora em Linguística, idealizadora da VRS Academy e participante do TEDxJundiaí, segue na mesma direção, ao destacar que desempenho acadêmico e expressão oral operam sob lógicas distintas. “Uma prova é, em grande parte, um espaço controlado, individual e previsível. Falar em público é o oposto, é exposição, interação, imprevisibilidade”, comenta, ressaltando que a fala envolve mais do que conteúdo. “Ela é também posicionamento social, tem muito a ver com legitimidade, com relações de poder”, diz.
Nesse contexto, o medo de julgamento desloca o foco da mensagem para a autoimagem. “A pessoa deixa de pensar ‘o que quero dizer?’ e passa a pensar: ‘o que vão pensar de mim?’. Nisso, o preparo técnico organiza o pensamento e a segurança emocional sustenta a presença”, reforça.
O desenvolvimento da comunicação, portanto, exige mais do que treino de performance. De acordo com Vivian, treinar oratória sem trabalhar a relação com o erro costuma gerar pessoas mais ensaiadas e igualmente travadas. Entre os caminhos possíveis, ela cita exposição gradual, revisão com critérios objetivos e práticas em ambientes de escuta real.
Para estudantes, pequenas mudanças já fazem diferença, como organizar uma ideia central antes de falar, praticar em voz alta e começar com intervenções curtas. “Não precisa falar impecavelmente, precisa ser compreensível e criar conexão”, explica. Já para escolas, o desafio é estrutural, como não usar a exposição para criticar, mas oferecer feedbacks equilibrados.
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