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Esperando Godot: o insólito encontro entre Redata e Samuel Beckett

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

Em 1948, o irlandês Samuel Beckett escreveu sua peça seminal En attendant Godot (Esperando Godot), que se tornaria um marco do Teatro do Absurdo. Nela, dois vagabundos, Vladimir e Estragon, esperam à beira de uma estrada deserta pela chegada de alguém chamado Godot, que nunca vem. Ao fim de cada ato, um menino aparece com a mesma mensagem: Godot não virá hoje, mas certamente virá amanhã. Os personagens concordam em partir, mas não se movem. A peça se resume, basicamente, ao absurdo da espera.

O Brasil, desde 2025, tem produzido seu próprio ato beckettiano: o Redata, um regime tributário para data centers que todos dizem querer – governo, setor privado e congressistas – mas que, ainda assim, simplesmente não chega.

O enredo é o seguinte: em setembro de 2025, o governo apresentou uma medida provisória (MP 1318/2025) – mas que vinha sendo aguardada desde maio – para instituir o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, o Redata. O regime suspenderia o PIS, Cofins, IPI e Imposto de Importação para equipamentos do setor, com conversão em alíquota zero após o cumprimento de contrapartidas em energia limpa, P&D e fornecimento ao mercado interno. A medida era tecnicamente bem calibrada e amplamente apoiada pelas entidades interessadas no desenvolvimento de infraestrutura digital.

Não obstante, a MP caducou em fevereiro de 2026 sem ter sido votada. O “plano B” foi deflagrado e um projeto de lei com conteúdo idêntico (PL 278/2026) chegou a ser aprovado pela Câmara e seguiu para deliberação do Senado. Contudo, por capricho do imponderável, lá permanece adormecido. Não houve sequer debate sobre o mérito, muito menos oposição pública ao Redata que justificasse a paralisia.

Mas, enquanto esperamos nosso Godot, o mercado global de infraestrutura digital atravessa um momento sem precedentes. Segundo a consultoria JLL, em seu último Global Data Center Outlook, o setor encontra-se em pleno superciclo de investimentos: cerca de 100 GW de nova capacidade devem entrar em operação entre 2026 e 2030, e o volume total de capital necessário para sustentar esse crescimento pode alcançar US$ 3 trilhões até o fim da década, a uma taxa de expansão de 14% ao ano.

Os quatro maiores hyperscalers mundiais (provedores de nuvem que operam data centers para computação e IA, por exemplo), Amazon, Microsoft, Google e Meta, investiram coletivamente cerca de US$ 413 bilhões em Capex de infraestrutura digital em 2025, alta de 84% em relação ao ano anterior. Para 2026, a projeção supera US$ 600 bilhões, segundo dados da consultoria Moody’s.

Esses investimentos podem ser implementados de forma direta ou pelo modelo de colocation, no qual operadores independentes – que também são, frequentemente, empresas nacionais de infraestrutura – constroem os data centers e os alugam aos grandes provedores em contratos de longo prazo.

Sejam esses investimentos implementados de forma direta ou por meio de colocation (quando operadores independentes, frequentemente empresas nacionais, constroem os data centers e os alugam aos grandes provedores), o choque na economia local é real e significativo: construção civil, soluções de conectividade, acordos de energia renovável, empregos qualificados e cadeias de fornecimento que se consolidam progressivamente.

Nesse contexto, países e regiões disputam agressivamente esse fluxo de investimento por meio de incentivos fiscais, garantias de fornecimento de energia limpa e arcabouços regulatórios previsíveis. Nesse aspecto, o Brasil tem uma combinação incomum de atributos competitivos: energia limpa e abundante, escala de mercado, posição geográfica e um ecossistema tecnológico em expansão.

Porém, crescimento econômico sustentado raramente resulta de vantagens naturais, somente. Ele vem da capacidade de transformar vantagens em políticas, e políticas em investimento, aproveitando conjuntura favorável. No caso do Brasil, transformar esses ativos em infraestrutura instalada depende, basicamente, do impulso de uma decisão política.

Os personagens de Beckett estão até hoje aguardando algo externo, uma ação – a chegada de Godot – sobre o qual não tinham qualquer controle. Na nossa vida real, diferentemente, nós seguimos esperando por uma solução conhecida, que tem custo fiscal estimado e apoio declarado de todos os atores relevantes. Agora, verdadeiro absurdo será encontrar uma explicação lógica e racional para que o Congresso não aprove o Redata o mais rapidamente possível.

Cibele Perillo é diretora de relações institucionais e políticas públicas da Scala Data Centers

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
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