A mais nova trend na internet, apelidada nas redes sociais de “Chinamaxxing”, resgata um hábito tradicional oriental e o transforma em uma rotina matinal reproduzida por milhões de usuários. A prática consiste na ingestão de água quente logo ao acordar, impulsionada por promessas virais que vão desde a queima acelerada de gordura até uma suposta limpeza profunda do organismo.
Mas, ao submeter o hábito de beber água quente de manhã ao rigor da medicina baseada em evidências, os resultados mostram que o impacto real no corpo humano difere do prometido na internet.
Para separar isso, a CNN Brasil conversou com Roosevelt Louback de Carvalho, clínico geral e diretor médico do Hospital Mantevida. O especialista analisa o comportamento do corpo diante dessa ingestão térmica e desmistifica as crenças populares, apontando o que realmente funciona quando o objetivo é iniciar o dia com saúde.
A prioridade fisiológica: hidratação antes da temperatura
Quando o corpo humano desperta após um longo período de sono, ele se encontra em um estado natural de leve desidratação. Nesse momento, a ingestão de líquidos é, sem dúvida, uma necessidade biológica primária para reativar as funções celulares. No entanto, a crença de que o calor potencializa essa reposição hídrica carece de fundamento clínico.
Para o médico, o foco do debate tem sido colocado no fator errado. “Para a medicina ocidental, o maior benefício é colaborar efetivamente para uma boa hidratação”, afirma o médico.
Ele ressalta que o corpo aproveita o líquido da mesma maneira, independentemente do termômetro. “É importante dizer que a boa hidratação não está vinculada à temperatura da água, somente à ingestão diária do líquido na quantidade adequada”, completa o especialista.
O mito do efeito “Detox” e o impacto no intestino
Um dos pilares do movimento “Chinamaxxing” é a afirmação de que o calor atua como um agente de limpeza, supostamente “derretendo” gorduras e eliminando impurezas acumuladas durante a noite. Do ponto de vista anatômico e científico, essa alegação não se sustenta.
O corpo humano já possui uma “usina” de desintoxicação altamente especializada e eficiente que funciona ininterruptamente, sem depender da temperatura do que bebemos.
O especialista afirma que é importante afastar o conceito de purificação térmica. “Não temos estudos que comprovem o efeito de limpar ou desintoxicar o organismo; devemos destacar que os rins e o fígado são as estruturas anatômicas responsáveis por este processo”, explica Roosevelt.
Apesar de derrubar o mito do “detox” e destacar que não há evidências clínicas que liguem a prática ao aumento do metabolismo, o médico reconhece que existe um benefício localizado para o sistema digestivo. Segundo ele, ao adotar a ingestão de água quente de manhã, “é possível perceber um efeito favorável quanto ao funcionamento intestinal”. Esse estímulo pode auxiliar o peristaltismo (contrações e relaxamentos musculares involuntários que ocorrem no sistema gastrointestinal), facilitando a motilidade intestinal matinal.
Vasodilatação, bem-estar e o perigo oculto do calor extremo
O conforto relatado por muitas pessoas que aderem à prática tem uma explicação orgânica válida. O calor tem a capacidade de alterar momentaneamente o calibre dos vasos sanguíneos na região exposta. “A água quente provoca uma vasodilatação; este efeito pode favorecer a circulação e trazer uma sensação reconfortante”, explica o especialista.
Contudo, é exatamente na temperatura que reside o maior risco dessa tendência. Na busca por maximizar os supostos benefícios, muitas pessoas acabam ingerindo líquidos em temperaturas perigosamente altas, ignorando a sensibilidade do trato gastrointestinal. O médico emite um alerta grave sobre esse comportamento, que pode ter consequências severas a longo prazo.
“Fazer a ingestão frequente de água acima de 60° ou 65° C acaba por causar irritação e lesões na mucosa do esôfago e gástrica. Em casos extremos, pode ser uma das causas de neoplasia [câncer] nestas estruturas”, adverte o médico.
Ele reforça ainda que pacientes diagnosticados com gastrite, refluxo ou qualquer outra patologia do tubo digestivo devem ter cautela redobrada com a alimentação e a ingestão de líquidos de forma geral.
A psicologia das tendências e a verdadeira rotina saudável
Diante da falta de embasamento científico para a maioria das promessas, surge o questionamento: por que práticas como essa ganham tanta força na sociedade contemporânea? A resposta reside na forma como o ser humano lida com a própria saúde. A busca por atalhos é uma constante comportamental.
“As pessoas são tendenciosas a acolher práticas que sejam fáceis e agradáveis de realizar. E quando existe a expectativa de efeitos milagrosos, temos uma receita com enorme potencial de adesão e popularização”, analisa.
Para quem realmente deseja construir uma fundação sólida para a saúde, o especialista aponta que a chave está no básico bem executado, longe das fórmulas mágicas da internet. Em vez de se preocupar excessivamente em beber água quente de manhã, o foco deve ser redirecionado.
“É fundamental um bom café da manhã, devendo este ser nutritivo e equilibrado, enfim, saudável, e a prática de atividades físicas”, conclui.
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