A rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado Federal expôs um grave erro de articulação do governo e representou um episódio sem precedentes na história republicana brasileira. O placar final, de 42 votos contrários, superou em 12 a estimativa inicial de 30 votos que a oposição esperava reunir, revelando uma derrota muito mais ampla do que se antecipava. A análise é de Teo Cury, ao CNN Novo Dia.
O resultado deflagra uma crise institucional de proporções inéditas. “Ainda não está claro qual é o impacto disso a partir de agora”, afirmou. “Se deflagra uma crise institucional sem precedentes, que ultrapassa um ápice do que a gente já acompanhou desse desgaste institucional entre o governo e o Congresso Nacional”.
Erro de articulação e cinco meses desperdiçados
De acordo com Teo Cury, o governo teve cinco meses para articular apoio à indicação, mas não aproveitou o tempo de forma eficaz. Foram tentadas três frentes de convencimento dos senadores: a liberação de recursos por meio da execução de emendas parlamentares, uma reorganização interna de cargos no Senado Federal e outras tratativas políticas. Apesar dos esforços, nenhuma dessas iniciativas foi suficiente para garantir os votos necessários.
“O presidente Lula, ao que tudo indica, também não entrou de cabeça como poderia ter entrado para garantir esses votos”, apontou Cury.
Um sinal claro do fracasso da articulação foi o fato de Davi Alcolumbre não ter recebido Jorge Messias até uma semana antes da votação. O próprio Alcolumbre teve papel central no aumento dos votos contrários, contribuindo decisivamente para que o número saltasse de 30 para 42. “O problema não é com você, o problema é com o governo”, foi o recado transmitido pelos senadores ao próprio Jorge Messias, segundo o analista.
Episódio inédito em 132 anos de república
Teo Cury destacou que a última vez em que uma indicação presidencial ao STF foi barrada ocorreu em 1894, no governo de Floriano Peixoto, quando cinco nomes foram rejeitados pela Comissão de Constituição e Justiça por não cumprirem requisitos formais.
“Do jeito que foi, é inédito”, ressaltou o analista, diferenciando o episódio atual, classificado por ele como “uma retaliação política”, daquele precedente histórico.
Sobre os próximos passos, Teo Cury afirmou que o cenário permanece incerto. “Não fica claro qual é a força que o governo vai ter diante de um baque tão grande como esse”, disse.
O analista também apontou que alguns integrantes do STF saem enfraquecidos do episódio. André Mendonça foi destacado como o ministro que mais apoiou a indicação desde o início até o final, tendo declarado publicamente sua amizade com Jorge Messias. “Tem um poder de articulação ali que é um recado ao Supremo, mas em especial ao governo”, concluiu Teo Cury.

