Apesar de empresas do setor de minerais críticos no Brasil serem majoritariamente ocidentais e parte delas se posicionar como futuras fornecedoras de insumos para países aliados dos Estados Unidos e da Europa, o setor avalia que não há espaço para uma ruptura com a China na cadeia mineral.
A avaliação foi feita por Marisa Cesar, presidente do conselho da AMC (Associação de Minerais Críticos) e diretora de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da PLS, em entrevista ao Mapa da Mina, programa semanal da CNN Brasil que discute os rumos da indústria da mineração.
Segundo Marisa, o avanço de uma cadeia ocidental de minerais críticos não pode ignorar a estrutura comercial já existente entre empresas com operações no Brasil e compradores chineses.
“Muitas das empresas têm estrutura de offtake com a China. Não vai ser do dia para a noite que você vai conseguir dizer que não vai mais oferecer ao âmbito oriental. Essa questão de ser radical, de não ter relacionamento com a China, não é factível”, disse.
Contratos de offtake são acordos de compra futura firmados entre produtores e compradores. Na mineração, eles costumam ser usados para garantir mercado para a produção antes mesmo de um projeto entrar em operação ou atingir plena escala comercial.
Esse tipo de contrato é importante porque dá previsibilidade de receita às empresas, reduz o risco dos projetos e pode ajudar na obtenção de financiamento. Para bancos, investidores e parceiros estratégicos, a existência de um comprador comprometido com parte da produção funciona como um sinal de segurança comercial e jurídica.
Por isso, uma ruptura abrupta com a China poderia criar problemas contratuais e financeiros para empresas que já estruturaram seus projetos com base em acordos de venda para compradores asiáticos.
O debate ocorre em um momento em que países ocidentais buscam reorganizar cadeias de minerais críticos para reduzir a dependência da China, especialmente em segmentos ligados à transição energética, defesa, tecnologia e baterias.
Nesse contexto, diversas empresas com projetos no Brasil têm buscado se posicionar como fornecedoras alternativas para mercados ocidentais.
A estratégia pode facilitar o acesso a financiamento, acordos de compra, apoio governamental e parcerias com países interessados em construir cadeias menos concentradas.
Apesar disso, Marisa avalia que a construção de novas cadeias produtivas não deve significar uma postura de rompimento com a China.
Para ela, o Brasil precisa adotar uma posição pragmática, considerando seus interesses comerciais, sua capacidade produtiva e o peso da relação bilateral com o mercado chinês.
“Precisamos pensar como país. E a China é o país mais importante na nossa balança comercial”, disse.
A China é hoje o principal destino de exportações brasileiras e também tem papel central na cadeia global de minerais críticos, especialmente nas etapas de processamento, refino e fabricação de componentes industriais.
Para o setor, a discussão não deve ser tratada como uma escolha simples entre China e Ocidente, mas como uma estratégia de diversificação.
A avaliação é que o Brasil pode ampliar relações com Estados Unidos, Europa, Canadá, Japão, Coreia do Sul e outros mercados sem abandonar vínculos comerciais já estabelecidos com a China.
A visão defendida pela AMC é que o país precisa aproveitar o interesse internacional por minerais críticos para atrair investimentos, desenvolver tecnologia, ampliar o processamento local e agregar valor à produção mineral, sem adotar uma postura considerada radical ou pouco realista em relação aos principais compradores globais.
Nesse modelo, o Brasil buscaria se apresentar como fornecedor confiável para diferentes blocos econômicos, mantendo abertura comercial e evitando compromissos de exclusividade que limitem sua capacidade de negociação.

