Últimas

Por que o Brasil se tornou o “queridinho” dos investidores internacionais?

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Por que o Brasil se tornou o “queridinho” dos investidores internacionais?

Oferta de commodities, neutralidade geopolítica e juros pressionados em dois dígitos são alguns dos fatores que reforçam a imagem do Brasil como “queridinho” dos investidores internacionais.

Analistas ouvidos pelo CNN Money explicam que a soma dos fatores ajuda o país driblar o cenário de cautela global gerado pelas incertezas com os conflitos no Oriente Médio e no leste europeu, dando gás ao movimento de rotação de carteiras com o maior interesse dos estrangeiros em mercados emergentes.

Por outro lado, conhecidas questões internas podem tirar parte deste apetite nos próximos meses, sobretudo os ruídos políticos com a proximidade das eleições e o sempre citado risco fiscal – ou seja – a capacidade de o país organizar as contas.

“O Brasil tem uma oportunidade única à disposição, pois tem tudo que o investidor estrangeiro busca: escala, liquidez, distância geográfica e riquezas naturais, o que põe o país numa posição estratégica ímpar para captar e usar com inteligência esses recursos para alavancar o seu desenvolvimento econômico”, resume Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos.

A percepção de que o Brasil é a bola da vez se traduz em números. Neste ano até 22 de abril, o capital estrangeiro na B3 somou R$ 64,42 bilhões, mais que o dobro do registrado em todo o ano de 2025 (R$ 25,47 bilhões), de acordo com dados da consultoria Elos Ayta.

Esse volume significa que 61,2% de tudo que entrou na bolsa brasileira neste ano veio de fora, uma tendência de elevação do fluxo internacional observada desde 2023.

O Ibovespa não é o único canal que está puxando o capital estrangeiro. Dados do BC (Banco Central) mostram ingressos líquidos de US$ 28,4 bilhões no país nos 12 meses encerrados em março – somando ações, fundos e títulos de dívida.

O número representa uma leve queda ante fevereiro (US$ 29,5 bilhões), mas reitera a tendência de crescimento registrada ao longo de 2025.

Juros, commodities e neutralidade

Solange Srour, analista do CNN Money e head de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, aponta o câmbio como ponto de partida para a atração desse capital, resultado da busca por opções em mercados emergentes.

O dólar perdeu força em escala global, já que investidores estão buscando diversificar suas carteiras e diminuir a exposição à moeda americana. Mas, no caso do real, o juro alto intesifica esse movimento, favorecendo operações de carry trade: pegar dinheiro emprestado em um país com taxas mais baixas e aplicar em outro com maior aperto monetário.

O BC (Banco Central) mantém a Selic em dois dígitos desde fevereiro de 2022. Apesar da recente redução para 14,75% e expectativas do mercado por novos cortes, a sinalização da política monetária é de uma distensão dos juros em ritmo de conta gotas.

O quadro de política monetária pressionada também foi apontado por Patrícia Krause, economista-chefe para a América Latina da Coface, como um farol para atrair o dinheiro estrangeiro ao Brasil.

Segundo ela, iisso é reforçado pela expectativa de ainda mais cautela na política monetária com inseguranças na arena global.

“A tendência é que deva cair de forma mais lenta diante deste cenário mais incerto com a inflação em decorrência das tensões dos conflitos no Oriente Médio”, diz.

A grande oferta de commodities e a neutralidade do Brasil também foi citada como trunfo em meio ao cenário incerto da arena global e o bloqueio intermitente no Estreito de Ormuz – canal fundamental para o escoamento de petróleo, gás e outros insumos do Oriente Médio.

Além da figura predominante na exportação de produtos agrícolas, o Brasil também tem papel de relevância no abastecimento energético e na disposição de terras raras – a nova fronteira de disputa entre EUA e China.

“A guerra no Irã mostrou que de uma hora para outra o mundo pode ficar sem uma proporção muito grande de commodities energéticas, de fertilizantes – que impacta toda a parte agrícola -, e o Brasil tem tudo isso”, diz Srour.

Barros, da ARX Investimentos, cita que os investidores ficaram sem muitas saídas nos últimos meses. Além do Brasil, ele aponta África do Sul e Colômbia como destinos preferenciais dos gringos.

“O investidor estrangeiro tem, hoje, pouca opção de alocação em emergentes. Não aloca na Rússia, o fluxo para a Turquia e China é modesto em razão dos riscos percebidos, de modo que há poucas opções reais de investimento”, diz.

Expectativas

Em relatório aos investidores, o Bank of America elevou a projeção para o Ibovespa ao fim deste ano e agora vê o índice na casa dos 210 mil pontos – alta de quase 10% em relação ao fechamento desta sexta-feira (24).

Antes, o BofA enxergava o benchmark da bolsa brasileira encerrando 2026 aos 180 mil pontos.

O relatório do BofA ressaltou o desempenho positivo da América Latina – com destaque para o Brasil – em meio ao conflito no Oriente Médio.

O banco de investimento ainda apontou que um cenário de desescalada da tensão deve manter o fluxo de capital aos mercados emergentes, com espaço para redução das pressões inflacionárias e maior margem para corte de juros pelos bancos centrais.

Pela análise do BofA, a Selic deve encerrar 2026 a 13,25% e 2027 a 12,5%. Atualmente, os juros estão em 14,25%.

“Uma eventual desescalada pode levar à queda do petróleo, aliviar pressões de custo e permitir que o Banco Central do Brasil corte juros”, informou o banco.

Na mesma linha, o JPMorgan colocou o Brasil como destaque nos mercados da América Latina. Em nota distribuída aos investidores no mês passado, o banco de investimentos classificou a captação de recursos estrangeiros como “extraordinário”.

Eleições e fiscal seguem no radar

Apesar de a situação fiscal do Brasil se manter como ponto fixo na lista de preocupações dos investidores, os investidores ponderam o otimismo com possíveis percalços domésticos, sobretudo eleições e contas públicas.

Segundo Srour, a situação fiscal é vista como sustentável no curto prazo, mas esse quadro pode mudar com a proximidade das eleições em outubro e a possibilidade de mudanças no regime econômico doméstico.

“Se a gente chegar no final do ano sem um plano, esse cenário global, que hoje é favorável, pode se inverter. Porque também, ainda que tenhamos commodities, também temos uma dívida que está em trajetória bastante insustentável e uma inflação que vai estar alta”.

Contas públicas e riscos políticos também foram citados pelo BofA, apesar de o momento estar mais favorável pela expectativa de que uma desescalada no Oriente Médio possa dar mais margem para cortes de juros do BC.

“As ações brasileiras já não estão baratas em termos de valuation, e nosso múltiplo-alvo está ligeiramente abaixo dos níveis atuais para refletir esse risco para os lucros e a volatilidade eleitoral, que acreditamos que vai aumentar nos próximos meses”, informou o banco.

Por que o Brasil se tornou o “queridinho” dos investidores internacionais? — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado