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Aumento na conta de luz? Como data centers podem impactar as cidades

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Aumento na conta de luz? Como data centers podem impactar as cidades

Nos últimos meses, cresceu o debate sobre o impacto dos data centers no consumo de energia. Nos Estados Unidos, áreas onde construíram grandes instalações já registram uma certa pressão sobre os preços da eletricidade, especialmente no mercado atacadista de energia.

Esse fenômeno acontece devido à alta demanda constante desses centros, que operam 24 horas por dia. No Brasil, apesar de ainda representarem uma parcela pequena do consumo nacional, o crescimento acelerado do setor já traz alertas sobre possíveis custos futuros.

O que são data centers e como funcionam

Data centers, ou centros de processamento de dados, são grandes complexos tecnológicos dedicados a armazenar e processar informações digitais.

Nesses centros de dados são colocados servidores de alto desempenho interligados por redes de alta velocidade. É justamente isso que sustenta o funcionamento de sites, aplicativos, transações bancárias, redes sociais e serviços de nuvem.

Em geral, trata-se de galpões ou prédios com um tipo de infraestrutura especializada: além dos equipamentos de computação, há sistemas de alimentação elétrica, redes de comunicação e estruturas que garantem a segurança.

Por isso, data centers demandam três recursos muito importantes: energia elétrica 24h por dia, sistemas de resfriamento e grande espaço físico.

Por que data centers consomem tanta energia

A principal razão para o alto consumo de energia dos data centers é o próprio processamento de dados e o controle térmico desses equipamentos.

Em primeiro lugar, são instalações que estão sempre “ligadas”. Ou seja, os servidores funcionam 24 horas e executam aplicações intensas, especialmente em serviços de inteligência artificial; com GPUs (unidade de processamento gráfico) de alto desempenho que exigem grande quantidade de eletricidade.

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De maneira geral, a maior parte da energia em um data center é gasta no processamento computacional e no resfriamento dos equipamentos. • Créditos: Lightsaber Collection/Unsplash

Além disso, esses componentes geram muito calor, o que torna necessário um sistema de refrigeração intenso para manter a temperatura segura. Em muitas dessas instalações, o processo de resfriamento é responsável por uma parte considerável da energia total.

Há ainda o consumo adicional de equipamentos de infraestrutura, como luzes de manutenção, sistemas de gestão, entre outros.

Data centers podem impactar o consumo de energia de cidades?

Infelizmente, os data centers realmente podem impactar o consumo de energia nas cidades. Acontece que a instalação de grandes data centers pode pressionar a rede elétrica local e impactar as contas de luz da população.

Vale destacar três fatores que impactam o consumo de energia nas cidades:

  1. Expansão da rede: novas estruturas exigem investimentos em usinas, linhas de transmissão e subestações;
  2. Maior uso de água: alguns data centers podem consumir grandes volumes de água para o resfriamento. Isso exige mais energia para captação e tratamento da água;
  3. Repasse de custos: em alguns casos, os data centers não pagam proporcionalmente pelo consumo, o que pode transferir parte dos custos para a população local.

Nos Estados Unidos, uma análise da Bloomberg apontou que o custo atacadista da eletricidade em áreas próximas a data centers chegou a ficar até 267% maior do que cinco anos antes.

É importante explicar que o mercado atacadista de energia é a etapa em que a eletricidade é negociada antes de chegar ao consumidor final. Assim, quando esse preço sobe, o aumento não aparece automaticamente na conta de luz, mas pode ser repassado aos moradores por meio de tarifas das distribuidoras.

Para chegar nesse resultado, a Bloomberg analisou dados de cerca de 25 mil pontos da rede elétrica usados por sete operadores nos EUA. A partir desse levantamento, o veículo estimou como os preços atacadistas da eletricidade mudaram nos 48 estados norte-americanos desde 2020.

Casos reais de impacto energético por data centers

Diversas cidades e países já sentem os efeitos do crescimento acelerado dos data centers. Confira alguns exemplos:

  • Eldorado do Sul (Brasil): o projeto Scala AI City pode chegar a 4,75 GW de capacidade. É mais do que a usina de Jirau (3,7 GW), a quarta maior hidrelétrica do país.
  • Loudoun County (EUA): conhecida como “vale dos data centers”, a região teve reforços na rede elétrica e aumento nas tarifas.
  • Illinois (EUA): o crescimento de data centers perto de Chicago foi associado ao aumento nas contas de luz e água dos moradores.
  • Amsterdam (Países Baixos): autoridades suspenderam novos projetos após sinais de sobrecarga na rede elétrica.
  • Chile: o Google mudou planos do projeto de um data center em Cerrillos, em Santiago, após pressão de moradores e questionamentos sobre o uso de água.

No estado do Maine, nos Estados Unidos, uma lei tenta proibir a construção de novos data centers até novembro de 2027. O objetivo é criar uma regulamentação mais clara para o setor nesse período. A proposta se aplica apenas a data centers com consumo superior a 20 megawatts de energia.

Impacto global dos data centers no consumo de energia

Segundo um estudo da Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers podem ganhar um peso considerável no consumo global de eletricidade até 2030, impulsionados principalmente pelo avanço da computação em nuvem e da inteligência artificial.

A projeção indica que o consumo desses centros deve mais do que dobrar até o fim da década, chegando a cerca de 945 TWh (trilhões de watts-hora). O que representaria pouco menos de 3% do consumo global de eletricidade nesse mesmo ano.

“De 2024 a 2030, o consumo de eletricidade dos data centers cresce cerca de 15% ao ano – mais de quatro vezes mais rápido do que o crescimento do consumo total de energia dos demais setores. Porém, em um contexto mais amplo, uma participação de 3% em 2030 indica que a fatia dos data centers na demanda global de eletricidade ainda permanece limitada”, é descrito no relatório da IEA.

Em outra análise, o World Resources Institute sugere que o consumo de energia dos data centers pode chegar entre 9% e 17% da demanda elétrica nos Estados Unidos até 2030.

No Brasil, um estudo da Brasscom aponta que o consumo de energia e água por data centers pode chegar a 3,6% até 2029. O número representa um aumento considerável em relação a 2024, quando o consumo foi de cerca de 1,7% da energia no país.

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