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Como jantar de jornalistas em Washington se transformou em cena de crime

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)
Como jantar de jornalistas em Washington se transformou em cena de crime

O presidente dos Estados Unidos Donald Trump e a primeira-dama Melania Trump estavam sentados no palco do imenso salão de baile do hotel Washington Hilton na noite de sábado (25), interagindo de forma descontraída com o artista da noite, o mentalista Oz Pearlman.

Do lado de fora, um homem correu por um posto de segurança com uma espingarda na mão, trocando tiros com agentes do Serviço Secreto que o perseguiam, de acordo com imagens de segurança divulgadas do incidente.

Em segundos, o atirador foi subjugado pelo Serviço Secreto — antes que pudesse chegar ao salão de baile onde o presidente, funcionários do governo Trump, integrantes do Congresso e alguns dos repórteres e editores mais proeminentes do país estavam presentes para o jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca.

Dentro do salão de baile lotado, os convidados já estavam sentados, beliscando saladas de burrata e pepino, quando ficou claro que a noite havia tomado um rumo assustador. Estalos em rápida sucessão vindos de fora das portas do salão fizeram com que o burburinho alto da conversa se calasse repentinamente.

Para quem estava na sala — situada um andar abaixo de onde o incidente ocorreu — não era óbvio o que eram aqueles sons. Nem mesmo o próprio presidente tinha certeza do que havia acontecido.

O primeiro pensamento de Trump foi o de uma bandeja cheia de pratos de jantar caindo no chão: “Já ouvi isso muitas vezes”, diria ele mais tarde na Casa Branca, ainda vestindo o smoking do evento.

Mas, à medida que agentes de segurança, muitos deles armados, entravam no salão por todas as entradas, ficou óbvio que um incidente grave havia ocorrido. Gritos de “abaixem-se” ecoaram pelo salão de baile enquanto convidados e funcionários do hotel se jogavam debaixo de cadeiras e mesas para se proteger.

Presidente Donald Trump precisou ser retirado às pressas após sons de tiroteio em Jantar com Correspondentes neste sábado (25). • Getty Images

A mesa principal foi esvaziada quase imediatamente. O vice-presidente JD Vance foi retirado da mesa e levado para a esquerda do palco. Enquanto agentes armados corriam para a frente do palco, a equipe do Serviço Secreto cercou o presidente, de acordo com um vídeo gravado ao lado do palco.

Durante o deslocamento, o presidente pareceu cair brevemente no chão antes de ele e a primeira-dama serem levados para uma sala segura no hotel. As pessoas sentadas ao lado dele foram levadas para uma sala separada no mesmo corredor.

“Isso assustou a todos”

Os participantes do jantar que optaram por deixar o salão de baile naquele momento, antes do prato principal ser servido, incluindo Wolf Blitzer, âncora da CNN, infelizmente se colocaram em perigo. Blitzer havia acabado de sair de um banheiro do lado de fora do salão quando viu o atirador a poucos metros de distância.

“Comecei a ouvir tiros no corredor bem perto de mim, e, de repente, um policial me jogou no chão e ficou em cima de mim”, disse Blitzer. “Os tiros eram tão altos, tão assustadores, que nos deixaram apavorados. Não tínhamos ideia do que estava acontecendo.”

Âncora da CNN Wolf Blitzer após disparos em jantar dos correspondentes da Casa Branca em Washington • Reprodução/CNN

O apresentador da CNN foi levado de volta ao banheiro masculino, onde ele e mais de uma dúzia de outras pessoas se abrigaram, segundo ele.

Ele perdeu um sapato na confusão.

Segundo autoridades policiais, quando o atirador avançou contra o posto de controle, ele estava armado com uma espingarda, uma pistola e várias facas.

Um agente do Serviço Secreto foi baleado no peito durante a troca de tiros, mas teve alta após ser levado ao hospital graças ao colete à prova de balas que usava, conforme Trump declarou posteriormente à imprensa.

O suspeito do ataque foi identificado pelas autoridades como Cole Tomas Allen, de 31 anos, morador de um subúrbio de Los Angeles, que trabalhava como professor e desenvolvedor de videogames, segundo registros públicos. As autoridades disseram que ele estava hospedado no hotel e aparentemente agiu sozinho.

O suspeito não foi atingido por disparos, mas estava recebendo tratamento em um hospital local, de acordo com a prefeita de Washington, DC, Muriel Bowser.

Mais tarde, Trump divulgou nas redes sociais as imagens de segurança do atirador correndo pelo posto de controle, bem como uma foto do suspeito imobilizado no chão pelas forças de segurança.

De volta ao salão de baile, o silêncio se instalou, pontuado por ocasionais suspiros. Alguns convidados do jantar se esconderam atrás de cadeiras e mesas, enquanto muitos — incluindo repórteres — sacaram seus celulares para registrar o momento histórico.

Os membros do gabinete que vieram como convidados de veículos de imprensa — ou seja, estavam espalhados por mesas no salão de baile lotado — foram retirados às pressas da sala por suas próprias equipes de segurança, que gritavam em seus comunicadores enquanto saíam correndo do salão de banquetes.

Um deles chegou a gritar “tiros disparados” em seu rádio.

Agentes vasculharam a sala, em alguns casos subindo em cadeiras para gritar os nomes dos funcionários que procuravam remover, antes de encontrá-los e retirá-los à força da multidão.

O número de autoridades de alto escalão sendo retiradas às pressas ilustrou quantas pessoas na linha de sucessão presidencial, juntamente com Trump e Vance, estavam reunidas em um local lotado.

Enquanto os convidados se jogavam no chão, uma voz exclamou: “Deus abençoe a América”.

A funcionária do Departamento de Justiça, Harmeet Dhillon, disse no X que ficou com um hematoma na cabeça causado por um agente do Serviço Secreto que correu por cima de sua mesa, e agradeceu aos agentes federais por tê-la levado para casa em segurança.

Por fim, quando os policiais saíram da sala, os convidados começaram a se levantar. Subterrâneo e lotado, o sinal de celular no evento era notoriamente ruim (o hotel oferecia Wi-Fi — em parte para que os participantes pudessem acessar a internet e comprar mais vinho para suas mesas).

Mas muitos tentaram ligar para redações ou familiares para dar notícias.

O evento anual acontece no Washington Hilton, localizado a pouco mais de um quilômetro e meio a noroeste da Casa Branca. O presidente Ronald Reagan foi baleado em frente ao hotel em uma tentativa de assassinato em 1981.

Corrida rumo a Casa Branca

Conforme a noite avançava, não estava claro dentro do salão se o evento prosseguiria. Em um dado momento, um locutor pediu aos convidados que aguardassem, chegando a sugerir que o prato de bife e lagosta ainda seria servido.

Tanto Trump quanto a presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca, Weijia Jiang, correspondente da CBS na Casa Branca, inicialmente queriam dar continuidade à programação.

Jiang disse aos presentes que ainda estavam no salão de baile que a programação seria retomada em breve. Trump, por sua vez, estava em um local seguro no hotel e queria retornar ao local do evento, segundo um funcionário do governo.

Mas o Serviço Secreto não queria que ele fizesse isso — e a posição das autoridades policiais acabou prevalecendo.

O presidente Donald Trump foi retirado às pressas do palco pelo Serviço Secreto dos Estados Unidos durante o Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, em Washington, na noite deste sábado, segundo informações • Reuters

“Lutei com todas as minhas forças para ficar”, disse Trump em sua coletiva de imprensa. “Mas é o protocolo.”

Quando Trump anunciou que retornaria à Casa Branca para conceder uma coletiva de imprensa — quase exatamente uma hora depois do atirador ter atacado o posto de segurança —, filas já começavam a se formar para sair do hotel. Um perímetro de segurança com vários quarteirões de extensão dificultava a saída.

Repórteres da Casa Branca, trajados formalmente, correram para fora para sinalizar aos carros, percorrendo a milha e meia de volta pela Avenida Connecticut até a residência oficial.

Quando Trump entrou na sala de imprensa James S. Brady — nomeada em homenagem ao secretário de imprensa de Reagan que foi ferido na tentativa de assassinato de 1981 no Hilton — ele estava acompanhado por Vance e seus principais assessores de segurança. Trump agradeceu a Jiang por seu trabalho e disse que toda a provação, por mais estranho que pareça, havia feito com que a sala, repleta de adversários políticos e jornalistas, se tornasse “totalmente unida”.

“Foi algo muito inesperado, mas o Serviço Secreto e as forças da lei agiram de forma incrível”, disse Trump.

Ao lado, outra pessoa ouvia tudo em silêncio: a primeira-dama, que, assim como o marido, havia sido levada às pressas para uma sala segura no subsolo do hotel.

“Foi uma experiência bastante traumática para ela”, reconheceu Trump. “Muita coisa aconteceu lá muito rapidamente.”

Melania Trump não estava ao lado do marido durante as duas tentativas de assassinato anteriores, em Butler, Pensilvânia, e em West Palm Beach, Flórida. Ela há muito tempo expressa preocupação com a segurança de sua família. Para ela, o incidente de sábado colocou os riscos de segurança inerentes à sua posição em evidência.

“Ela já me disse várias vezes: ‘Você está em um trabalho perigoso’, mas isso também se aplica a ela. Quer dizer, é perigoso para ela também”, disse Trump.

Mais tarde, quando um repórter lhe perguntou se ela poderia dar sua opinião sobre a noite, ela se esquivou.

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