Durante décadas, o ecossistema rigorosamente controlado da Apple, que abrange chips personalizados, sistemas operacionais proprietários e aplicativos selecionados, proporcionou dispositivos seguros e fáceis de usar.
Essa abordagem ajudou a transformar o iPhone no produto de consumo mais bem-sucedido da história, gerando quase US$ 210 bilhões em receita em 2025. Também fez da Apple a empresa mais valiosa do mundo durante grande parte da última década, posição que só foi superada pela fabricante de chips de inteligência artificial Nvidia (NVDA.O), em 2024.
No entanto, quando o futuro CEO da Apple, John Ternus, assumir o lugar de Tim Cook no segundo semestre, ele enfrentará uma questão crucial para a sobrevivência da empresa na era da IA: testar quais aplicativos e serviços podem usar seu hardware.
A onda de inovação em IA tem sido impulsionada, principalmente, por um movimento de abertura: interação entre dispositivos, amplo acesso de desenvolvedores e ferramentas que funcionam em diversas plataformas.
Empresas como OpenAI, Google (GOOGL.O) e Meta (META.O) lançaram modelos que, às vezes, se ramificam em direções inesperadas. Por outro lado, é visível a melhora no desenvolvimento de seus softwares, que atraem desenvolvedores e usuários em um ritmo que poucos ciclos de produtos tradicionais conseguem acompanhar.
A Apple, como esperado, tem sido cautelosa. Cook, um fiel guardião da visão do cofundador da Apple, Steve Jobs, enfatizou a privacidade e a qualidade que só podem ser alcançadas com um controle mais rigoroso.
Essa contenção lhe rendeu a confiança dos usuários, mas também a deixou vulnerável à pressão antitruste nos Estados Unidos (EUA) e no exterior, incluindo uma batalha judicial com a Epic Games, criadora do “Fortnite”. Também houve rusgas com relação às novas regras da União Europeia, que obrigam a Apple a permitir mais concorrência em seus dispositivos.
Essa tensão se intensificou com a IA, já que o crescimento exponencial tende a recompensar a velocidade e a experimentação.
“Ao escolher um representante como John Ternus, pode ser um sinal de que a Apple ainda acredita que o futuro da IA passará por dispositivos altamente integrados, e não apenas por software”, disse Timothy Hubbard, professor assistente de gestão na Mendoza College of Business da Universidade de Notre Dame.
“É uma estratégia inteligente, mas também levanta um risco maior: os próprios pontos fortes que tornaram a Apple dominante — sua disciplina, refinamento e controle — podem representar limitações se os próximos passos no universo das IAs recompensarem maior abertura e interação mais eficiente. A rápida inovação é onde a Apple começou, e talvez seja para onde a empresa precise retornar.”
OpenClaw contrasta com o controle de segurança da Apple
Começando por Steve Jobs, que revitalizou a Apple em um cenário de crise no final dos anos 1990, e depois por Cook, que transformou o negócio de serviços da Apple em uma potência, a empresa provou que a integração estreita leva a clientes de longo prazo e lucros duradouros.
Atualmente, o maior desafio da Ternus será integrar a IA ao ecossistema impenetrável da Apple, em um momento no qual predomina abordagem mais aberta no mundo todo.
Um exemplo disso é o OpenClaw, um software capaz de controlar um exército de “agentes” de IA que podem executar tarefas complexas, tradicionalmente realizadas por humanos. OpenClaw se popularizou amplamente na China, com usuários que vão desde crianças a idosos.
Mas o OpenClaw também ilustra os riscos da abertura. O software permanece em estado bruto, apresenta vulnerabilidades de segurança severas, como a exposição de informações financeiras privadas em rede aberta. As tensões que o software expõe são exatamente aquelas que a Apple há muito tempo procura evitar.
John Ternus deixou claro em entrevistas à imprensa que a Apple estava interessada em lançar produtos, e não tecnologias brutas como o OpenClaw. A declaração gera entusiasmo, mas não serão itens essenciais do dia a dia, como o iPhone.
No entanto, a empresa demonstrou certa disposição em usar tecnologia de IA desenvolvida por concorrentes quando necessário. Em janeiro, fechou um acordo com o Google para usar seus modelos de IA Gemini, em um esforço para aprimorar sua assistente virtual, a Siri.
Hubbard, da Universidade de Notre Dame, afirmou que a Apple também poderia seguir o exemplo da Nvidia. No mês passado, a Nvidia anunciou que adaptaria o software de código aberto OpenClaw para um produto chamado NemoClaw, que terá salvaguardas e limitações com a finalidade de operar em um ambiente empresarial.
Gene Munster, analista e investidor de longa data da Apple na Deepwater Asset Management, disse que o foco de Ternus na qualidade poderia ajudá-lo a mudar a narrativa sobre a Apple, de forma semelhante a como Cook — com o crescimento massivo do setor de serviços — mostrou que o sucesso financeiro da Apple ia além do iPhone.
“Manter-se fiel à cultura da Apple deve permitir que a empresa invista em IA de forma mais agressiva, sem comprometer a qualidade”, escreveu Munster.
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