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“Golpe do amor” cresce com IA e causa bilhões em prejuízo no mundo; entenda

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)
“Golpe do amor” cresce com IA e causa bilhões em prejuízo no mundo; entenda

Os chamados “golpes do amor”, fraudes que se aproveitam de relações afetivas construídas no ambiente digital, ganharam força com o avanço das tecnologias, especialmente da inteligência artificial. É o que aponta o relatório da Febraban Tech, publicado em março de 2026, que analisa fraudes bancárias.

De acordo com os dados, as fraudes digitais geraram prejuízos de cerca de US$ 442 bilhões para a economia global em 2025, com circulação ilícita de recursos pelo sistema financeiro. Ao todo, foram registradas 170 milhões de ocorrências criminais e 9 bilhões de consultas feitas por agências policiais à base da Interpol.

No Brasil, apenas em 2024, as perdas com fraudes chegaram a R$ 10,1 bilhões. O levantamento também indica que 4 em cada 10 brasileiros já foram vítimas de algum tipo de golpe.

No recorte específico dos golpes românticos, especialistas ouvidos pela CNN Brasil explicam que criminosos exploram o vínculo emocional para obter vantagens financeiras das vítimas. A atuação vem sendo potencializada pelo uso de redes sociais e aplicativos de relacionamento.

Para Cassiano Cavalcanti, especialista da BioCatch, empresa de detecção de fraudes digitais, esses crimes têm se tornado mais frequentes e sofisticados. Segundo ele, organizações criminosas passaram a utilizar tecnologia de forma estratégica, tanto para aplicar golpes quanto para escapar de mecanismos de detecção.

Antes, um golpista precisava de tempo e habilidade para enganar cada vítima. Hoje, com ferramentas de inteligência artificial, ele consegue criar mensagens personalizadas, manter conversas longas e coerentes, imitar vozes reais e até gerar rostos falsos. Isso significa que golpes de romance, falso investimento ou suporte técnico fraudulento estão ficando cada vez mais difíceis de identificar.

Cassiano Cavalcanti, especialista da BioCatch

Um dos casos mais recentes que elucida esse problema refere-se ao influenciador digital Luís Felipe de Oliveira, conhecido como Felipe Heystee, que teve a prisão preventiva decretada após ser acusado de aplicar o golpe ao se passar por uma mulher e obter mais de R$ 200 mil de uma vítima.

“O que torna isso tão devastador é que não parece um golpe”: relato real de uma vítima

A CNN Brasil entrevistou, com exclusividade, a norueguesa Cecilie Fjellhøy, uma das vítimas de Simon Leviev, que teve sua história retratada no documentário “O Golpista do Tinder”, exibido em 2022 pela Netflix. Hoje, ela investiga golpes do amor e ajuda vítimas a retomar o controle.

Segundo Cecilie, o processo de manipulação é gradual e difícil de identificar. Ela se envolveu com o golpista, que mantinha relacionamentos simultâneos com outras vítimas, e aos poucos se viu em um ciclo de extorsão financeira.

“O que torna isso tão devastador é que não parece um golpe. Parece alguém em quem você confia — e, muitas vezes, alguém que você ama”, relatou.

Leia também: Vítimas de golpista do Tinder arrecadam mais de R$ 1 milhão em campanha | CNN Brasil

De acordo com a norueguesa, os criminosos utilizam estratégias como o “love bombing”, ou seja, excesso de demonstrações de afeto, para criar conexão emocional e ganhar confiança das vítimas.

O que mais me choca é a escala, a sofisticação e o tempo que esses golpistas investem. Alguns casos duram meses ou até anos. Isso não é algo aleatório — é crime organizado, industrializado. Também chama atenção o quão complexos esses golpes são. Não envolvem apenas romance — podem incluir fraude de investimento, golpes com criptomoedas e até extorsão no mesmo caso.

Legislação e desafios das instituições no combate aos golpes

Apesar de popularmente conhecido como “golpe do amor” ou “estelionato emocional”, esse tipo de crime não possui tipificação específica na legislação brasileira. Segundo a advogada criminal Clara Duarte, trata-se de uma construção narrativa.

Ainda assim, os casos podem ser enquadrados como estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal. A legislação prevê agravantes quando o crime é cometido por meios digitais, com penas que podem chegar a 4 a 8 anos de prisão.

Devido a reprovabilidade do crime ser maior e a dificuldade em se comprovar o crime ou recuperar o bem jurídico lesado (no caso o dinheiro da vítima), é uma opção do legislador. A legislação atual pode até possuir um texto que contemple a maioria das ações criminosas, mas não é suficiente para acompanhar a evolução dos golpes digitais, devido a dificuldade em identificar os autores do crime e rastrear o dinheiro.

Clara Duarte, advogada criminalista que atuava em crimes contra mulheres

O especialista Cassiano Cavalcanti explica também que os bancos enfrentam dificuldades para identificar esse tipo de fraude, já que, em muitos casos, a própria vítima realiza a transferência. Para ele, as instituições precisam passar por atualizações para enfrentarem o problema, especificando três frentes principais: inteligência comportamental do cliente, análise financeira e integração de inteligência entre bancos.

“A mudança de paradigma começa aqui: não basta verificar se a transação foi autorizada. É preciso entender se o comportamento de quem está autorizando faz sentido. Não é uma corrida perdida. O que precisa mudar é a lógica de defesa. Precisamos [sistemas bancários] sair dos métodos tradicionais de defesa. O jogo mudou. Mas, com as ferramentas certas e com a inteligência comportamental no centro dessa estratégia, ele ainda pode ser virado”, conclui.

*Sob supervisão de Felipe Andrade

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