As relações entre Brasil e Estados Unidos têm importância estratégica histórica para os dois lados. Em particular, agora que o governo de Donald Trump declarou que a América Latina é uma zona preferencial para a atuação do seu interesse nacional.
Isso envolve o processo de reindustrialização dos Estados Unidos. Nesse sentido, atrair investimentos industriais para todo o hemisfério é uma garantia de suprimento de países próximos e amigos.
Envolve também um corte à expansão chinesa nesta região, área de influência americana. E passa ainda pelo crime organizado transnacional, que foi declarado uma ameaça de segurança nacional americana.
Nesses três assuntos, o Brasil é central, pelo seu tamanho, sua população, capacidade produtiva e financeira. Mas, principalmente, pela parceria que acumulou com a China.
O Brasil é um dos poucos países que tem superavit comercial com os chineses, que fornece produtos de primeira necessidade, como, soja, petróleo, minérios e carnes. Além de receber, também, investimento industrial, comercial e contar com uma relação cada vez mais forte na área da defesa.
No setor militar, a participação dos Estados Unidos tem decaído ao longo do tempo – e o interesse pela compra de equipamentos de Pequim, crescido.
Diante desse cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transforma de alguma maneira a relação de interesses permanentes entre brasileiros e americanos em um tipo de duelo retórico.
Em visita recente à Europa, não faltaram oportunidades para Lula atacar Trump e os Estados Unidos.
Parece que o presidente brasileiro quer provocar alguma reação do americano. Na última vez em que Trump reagiu a provocações de Lula, o resultado foi positivo para o Planalto, com uma melhora da sua performance junto à população e do seu potencial eleitoral.
Mas a relação entre os países é permanente e vai continuar.
No momento, o aspecto mais importante no vínculo entre os países é o comércio, as tarifas. Hoje, o Brasil tem metade dos seus produtos isentos de taxas de importação para entrar no mercado americano. Uma outra parte, cerca de 12%, com um imposto de 10%, além de tarifas ligadas à segurança nacional e específicas para aço e alumínio.
Se o Brasil não provocar muito os Estados Unidos, pode até ser que na revisão tarifária que acontecerá a partir de julho, os brasileiros não recebam uma imposição suficiente para atrapalhar o comércio.
Mas se o Planalto continuar a provocar a atenção dos Estados Unidos, talvez receba de volta tarifas que inviabilizem o comércio. Isso não será bom. Não será bom para os produtores, não será bom para a população brasileira e não será bom, particularmente para o presidente Lula.
Com isso, é preciso ter muita atenção nesse momento, evitar provocações, lidar com o tema do ponto de vista técnico, mas principalmente do ponto de vista político estratégico.
O que está em jogo é hegemonia global, é dominância regional e é nesse sentido que uma pauta permanente da sociedade brasileira tem que ser pleiteada junto às autoridades americanas.
A relação é estratégica e é de longo prazo. Não importa o governo de plantão. Brasil e Estados Unidos mantém interesses, investimentos, comércio e tecnologia lado a lado.
E, agora, claramente dividem uma região geográfica de interesse compartilhado.
* Alberto Pfeifer é coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de geopolítica do Insper Agro Global. Foi diretor de projetos especiais e diretor de assuntos internacionais estratégicos da Presidência da República. Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW.

