O comprometimento da renda e o atraso para quitar dívidas estão em patamares recordes no Brasil. Em entrevista ao CNN Money, Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, afirmou que as políticas de crédito do governo têm estimulado a inadimplência no país.
Segundo Mendes, as medidas de renegociação de dívidas lançadas pelo governo têm “potência apenas eleitoral”. O pesquisador destacou quatro principais problemas nessas políticas: o custo fiscal, o impacto negativo no crescimento econômico de médio e longo prazo, a ineficácia comprovada por experiências anteriores e o pressão sobre a política monetária.
“O governo, ao mesmo tempo em que diz que quer negociar a dívida das famílias, está o tempo todo estimulando as famílias a se endividarem”, criticou o especialista. Ele citou como exemplos o crédito barato para pessoas do cadastro único, para microempresas e para microempreendedores individuais.
Ciclo vicioso de endividamento
O pesquisador apontou que o Brasil está em um ciclo vicioso baseado em três pontos: desequilíbrio fiscal crônico com muitas despesas obrigatórias, baixa produtividade e má alocação de recursos em políticas sociais. Mendes destacou que o país gasta mais de R$ 400 bilhões em políticas sociais que poderiam ter um potencial muito maior de reduzir a pobreza se fossem melhor desenhadas.
Entre os exemplos de políticas que precisam ser redesenhadas, ele citou o Bolsa Família, que estabeleceu um valor mínimo por família e estimulou divisões artificiais para aumentar o recebimento de benefícios. “Isso é um desvirtuamento do programa, teve uma explosão das famílias unipessoais no Bolsa Família”, explicou.
Para romper esse ciclo, Mendes defendeu um conjunto de reformas que incluem ajuste fiscal, medidas para aumento de produtividade e redesenho dos programas sociais. “Você não consegue dar um choque de produtividade de uma hora para outra, mas tem uma série de medidas, como abertura da economia e mudanças no mercado de crédito”, afirmou.
Papel do governo na questão do endividamento
Questionado sobre o papel do governo na questão do endividamento das famílias, Mendes foi enfático ao dizer que a renegociação direta de dívidas pelo governo não deveria ser objeto de política pública. “Isso gera um aprendizado negativo. A pessoa que negociou sua dívida no Desenrola fala: eu me livrei de uma dívida, então estou tranquilo, vou me endividar de novo, porque quando a coisa apertar o governo vai entrar de novo, subsidiando”, alertou.
Na visão do pesquisador, o governo deveria focar na educação financeira, na regulação de empréstimos abusivos e no trabalho conjunto com os bancos para esclarecer a população. “O mercado já funciona para negociar a dívida. O governo tem que entrar onde ele faz a diferença, onde ele faz a regulação correta e estabelece regras de transparência”, concluído.

