A relação entre Estados Unidos e China durante o conflito no Oriente Médio tem sido marcada por um excesso de pragmatismo, especialmente do lado chinês. A analista de Internacional Fernanda Magnotta afirmou, durante o CNN 360º desta quarta-feira (15), que apesar das tensões geopolíticas existentes, a situação não escalou para um confronto direto entre as potências.
“Os chineses têm sido considerados grandes vencedores dessa disputa entre os Estados Unidos e o Irã, apesar do dano econômico colateral que eles eventualmente possam sofrer”, afirma Magnotta. Ela destaca que o Irã é um dos principais fornecedores de insumos energéticos para a China, enquanto do ponto de vista iraniano, a China representa seu cliente mais importante.
A especialista menciona que muitos analistas cogitaram que uma das motivações de Trump para o conflito seria criar gargalos para os chineses, tentando desabastecer o país asiático. Ela destaca, porém, um ponto que não estava na conta dos norte-americanos:
“Os chineses tinham se preparado para não ser tão dependentes assim do petróleo que vem dos mercados internacionais”, explica Magnotta. Segundo ela, a China construiu estoques estratégicos justamente para diminuir sua dependência externa.
Do ponto de vista geopolítico, a China tem se beneficiado da situação de várias maneiras. “Aos chineses interessa a superexposição do presidente Trump e os efeitos políticos domésticos que isso gera”, analisa Magnotta.
Além disso, o país asiático tem aproveitado o desgaste no sistema de alianças dos Estados Unidos, especialmente na OTAN, que ficou vulnerabilizada desde a crise na Ucrânia e chegou a um momento crítico quando Trump cogitou abandonar a aliança.
A especialista ressalta que, embora os líderes tentem transparecer normalidade nas relações, existe um dilema geopolítico real que se estende para além do Irã. “Aguardem as cenas dos próximos capítulos, porque Cuba vem aí, vai ser um outro lugar onde esse tipo de relação vai se testar, como já foi o caso também na Venezuela”, alerta.
A contenção chinesa, segundo Magnotta, segue a lógica de “deixar os americanos se enforcarem por conta própria, enquanto eles organizam a casa para sofrer menos com o colateral econômico”.
“Do lado americano, os Estados Unidos eventualmente colocam carga quando precisam polarizar a China como grande adversário internacional, mas quando veêm que isso vai escalonar para a esfera real, para o mundo prático, eles recuam porque sabem que não dá para lutar todas as guerras ao mesmo tempo”, observa a analista.
Tanto China quanto Estados Unidos têm trabalhado para reduzir suas vulnerabilidades energéticas. Magnotta explica que os EUA desenvolveram sua autonomia através da exploração do xisto e, mais recentemente, com o petróleo venezuelano, diminuindo significativamente a dependência do Oriente Médio que existia nas décadas passadas.
“Quem está achando que os Estados Unidos estão por aí atacando países porque simplesmente precisam dos insumos, está desatualizado. Não é o caso”, afirma a especialista, destacando que os americanos hoje têm outras formas de obter os recursos energéticos necessários.
Apesar dos esforços de ambos os países para garantir autonomia energética, Magnotta lembra que o petróleo continua sendo uma commodity cujo preço é determinado pela oferta e demanda internacional. “Ainda que eles tenham fontes alternativas de provisão, se acontece um choque absolutamente significativo, que seja sistêmico, de qualquer tipo, inclusive com o fechamento de estreitos como o de Hormuz, por exemplo, ninguém passa ileso”, conclui.

