A Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN) estima que prejuízo causado por nematoides ultrapasse os R$ 35 bilhões por ano só no Brasil. Os nematoides são seres microscópicos que vivem no solo e parasitam as plantas, sugam os nutrientes a partir das raízes impactando a produtividade. Só nas lavouras brasileiras de soja as perdas ultrapassariam os R$ 16 bilhões por ano, segundo a SBN.
Mas nem todos os “pequenos seres” são maléficos e muitos deveriam ser preservados. Estima-se que metade dos nematoides presentes no planeta são benéficos e “o produtor está voltando a se preocupar com a saúde do solo”, diz o agrônomo Thomas Scott, que se dedica a estudar a ação deles nas lavouras.
Há 30 anos, quando Scott se formou em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Lavras, falar em biota do solo era assunto de nicho. Agora, a busca por práticas mais equilibradas tem mudado essa visão. “Os nematicidas do passado eram grupos químicos muito agressivos e eliminavam tudo que existia no solo, para o bem e para o mal. Nematoides prejudiciais, benéficos, fungos, bactérias… não existia distinção no trato da lavoura. Talvez não tivéssemos o conhecimento que temos hoje sobre os nematoides de vida livre, que sempre existiram na agricultura e que são extremamente benéficos na saúde do solo”.
Os nematoides de vida livre se alimentam de bactérias, algas, fungos, organismos mortos e tecidos vivos. Eles liberam nutrientes para uso das plantas, melhoram a estrutura do solo e a capacidade de retenção de água.
Thomas, que lidera o segmento de inseticidas e nematicidas da Corteva Agriscience no Brasil e no Paraguai, acompanha uma transformação. Uma mudança que está redesenhando a importância do solo na agricultura e que vai além do trato, “a maioria dos produtores ainda não diferencia as duas categorias de nematoides, maléficos e benéficos. Acabam usando produtos que eliminam todos os microrganismos inclusive os que deveriam ser preservados”.
Estratégias para o campo
O nematoide é um problema que existe no mundo todo, mas os tipos mudam conforme o clima, bioma e tipo de solo. E essa especificidade importa na hora de criar estratégias de manejo. Um produto desenvolvido para o condições do clima temperado pode não responder da mesma forma no solo do Cerrado, por exemplo. Por isso que o Brasil não é apenas um mercado para a Corteva e sim um laboratório.
Scott diz que “o Brasil é fundamental dentro do modelo de desenvolvimento e pesquisa para agricultura tropical. Por isso todos os produtos desenvolvidos no mundo passam antes pela estação experimental em Mogi Mirim, no interior de SP”.
Uma tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos chega agora ao Brasil. Produtos que auxiliam os agricultores no manejo de nematoides fitoparasitas que, ao mesmo tempo, preserva os nematoides de vida livre e os microrganismos benéficos, como bactérias e fungos que contribuem para a saúde do solo.
A nova molécula é comercializada sob três marcas e a indicação de cada uma muda com a cultura a ser aplicada. “É um retorno consciente a práticas que foram abandonadas ao longo do tempo. A agricultura se volta para um manejo do passado que, antes do trato químico e industrial, se preocupa com a saúde do solo. E isso significa ter um pacote tecnológico diferenciado para cada caso”.
Antes de aplicar é preciso enxergar
Um passo importante, mas que muitos agricultores ainda pulam, é fazer o levantamento nematológico do terreno antes de qualquer aplicação e a partir dele decidir o manejo. Esse levantamento da área ajuda a entender quais os tipos de nematoides estão presentes ali, e em qual quantidade, e isso vale também para avaliar os microrganismos.
Para Scott a mudança é estrutural: “resolver um problema” e destruir a biota do solo não faz mais sentido. A ideia é criar algo parecido com os probióticos para o solo, criar estímulos ativos aos nematoides benéficos e não apenas controlar os prejudiciais”.

