O setor elétrico vive um paradoxo que já não pode mais ser tratado como transitório. De um lado, o país acelera sua modernização e transição energética com uma expansão robusta das renováveis e abertura total de mercado. Por outro, os sinais operacionais e econômicos indicam que essa expansão passou a gerar tensões estruturais que tendem a se aprofundar no curto prazo, se não for dada a devida atenção para essa complexidade setorial. E o ponto de partida para entender o cenário futuro não está apenas no que cresceu, mas no descompasso entre ampliação e capacidade de adaptação do sistema.
A expansão recente, puxada sobretudo pela geração solar e micro e minigeração distribuída, aumentou a sobreoferta em determinados horários e elevou a complexidade da operação. A chamada “curva do pato” deixou de ser um conceito técnico restrito e passou a representar um desafio cotidiano. Trata-se de um gráfico que representa o efeito da energia solar no sistema elétrico: durante o dia, a alta geração reduz a demanda por outras fontes, criando um “vale”; no fim da tarde, com a queda do sol e o aumento do consumo, a demanda sobe rapidamente, formando uma “rampa” acentuada. Isso torna a operação mais desafiadora e trazendo o risco de cortes de energia renovável e a necessidade de flexibilidade.
Esse desequilíbrio se manifesta de forma mais visível no avanço do curtailment, que deve permanecer como um dos temas centrais ao longo de 2026. No ano passado, os cortes de geração atingiram níveis elevados. A média anual foi de 24,3% para solar e 18,7% para eólica, segundo levantamento da Thymos Energia. Nos próximos meses, a tendência é de continuidade, possivelmente em patamares ainda mais altos, impulsionados pela expansão da geração distribuída e pelas limitações de escoamento e operação do sistema. O que antes era um ruído pontual torna-se um fator estrutural de risco, com impacto direto sobre a atratividade de projetos e a previsibilidade de receitas.
Ao mesmo tempo, o ambiente de preços no mercado de curto prazo aponta para um novo regime. A expectativa de Preço da Liquidação das Diferenças (PLD) mais elevado e volátil, já sinalizada nos primeiros meses deste ano reforça a percepção de que o setor entra em uma fase de maior exposição a risco.
Esse movimento não decorre apenas da hidrologia, embora os reservatórios durante o período seco adicionem pressão. Esse contexto é resultado de uma combinação mais ampla: variabilidade renovável, mudanças regulatórias, maior sensibilidade à demanda e um sistema que ainda busca mecanismos eficientes de equilíbrio.
Essa nova dinâmica de preços tem implicações profundas. O risco de crédito tende a crescer, contratos de médio prazo ficam mais difíceis de estruturar e a gestão de portfólio ganha centralidade. O setor elétrico brasileiro, historicamente ancorado em relativa previsibilidade, passa a conviver com uma lógica mais próxima de mercados maduros, em que volatilidade e sofisticação caminham juntas.
No campo tarifário, a trajetória não é mais confortável. A projeção de elevação de encargos, especialmente da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), deve manter pressão sobre o custo final da energia. Mesmo com alívios pontuais em outros componentes, a tendência é de reajustes médios de 7,64%, refletindo custos diretos e escolhas de políticas públicas e subsídios acumulados ao longo dos anos. O saldo é um ambiente em que a modicidade tarifária se torna mais difícil de sustentar.
Paralelamente, a expansão do mercado livre elétrica segue como uma das forças mais transformadoras do setor. O avanço contínuo desse ambiente, aliado à preparação para a abertura da baixa tensão, sinaliza uma mudança estrutural na relação entre consumidores e energia. A lógica de escolha, gestão ativa e busca por eficiência deve substituir gradualmente o modelo tradicional e criar oportunidades, o que exigem também maior maturidade dos agentes.
Esse movimento ocorre em meio a uma agenda regulatória intensa. A consolidação das mudanças recentes, incluindo novas regras para autoprodução, armazenamento e descontos tarifários, indica que 2026 será um ano de ajustes finos — e de disputas relevantes sobre a direção do setor. Temas como curtailment, parâmetros de formação de preço e inserção de tecnologias como baterias passam a definir o equilíbrio econômico do sistema, para além das discussões técnicas.
A realização do segundo Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) em março representou um avanço importante na busca por maior complexidade e resiliência do sistema elétrico no país. Ao viabilizar a contratação de 19,5 GW de potência e combinar soluções estruturais com mecanismos de resposta mais rápida, o certame cumpriu uma etapa importante em direção a um sistema mais robusto e flexível diante da crescente participação de fontes não despacháveis Mais do que ampliar a capacidade instalada, o leilão sinaliza uma evolução na forma de planejar a segurança energética, incorporando diversidade tecnológica e maior sofisticação na gestão da confiabilidade.
Agora, é necessário seguir com mais intensidade. O futuro do setor elétrico brasileiro não será apenas de crescimento ou ajuste cíclico. Precisamos de maturidade. Um momento em que o segmento terá de lidar simultaneamente com excesso e escassez, inovação e incerteza, eficiência e custo. A forma como essas tensões serão administradas definirá não apenas o desempenho de 2026, mas a qualidade do próximo ciclo de expansão energética no Brasil.
André Millions é diretor da Thymos Capital
Fillipe Soares é diretor de Consultoria da Thymos Energia
