A guerra no Oriente Médio impactou as exportações brasileiras para os países árabes do Golfo, segundo dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB). Para o Brasil, os países representam mercados importantes para produtos do agronegócio e minerais.
Segundo dados da Inteligência de Mercado da CCAB, as vendas para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã, que formam o bloco econômico Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), caíram 31,47% em março na comparação anual, para US$ 537,11 milhões.
Apesar do recuo mensal, o desempenho no trimestre ainda é positivo. De janeiro a março, as exportações para o CCG cresceram 8,14% e totalizaram US$ 2,41 bilhões. Considerando os 22 países árabes, incluindo países do Levante e das nações africanas, a alta foi de 3,90%, para US$ 5,13 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
Segundo a entidade, o fechamento do Estreito de Ormuz, que restringiu o acesso a portos estratégicos do Golfo, interrompeu uma trajetória de alta nas vendas brasileiras. O impacto ainda não compromete o resultado agregado, mas pode se intensificar ao longo do ano, caso o conflito se intensifique.
Mohamad Orra Mourad, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), destacou o trabalho de orientação em meio aos impactos do conflito geopolítico. “Emitimos boletins diários sobre os países árabes atingidos e trabalhamos com o direcionamento acerca do comércio internacional. O alimento vai chegar com custo elevado devido ao risco por conta do conflito, mas precisamos assegurar, principalmente, a segurança alimentar das regiões”, disse à CNN Brasil.
“As vendas para o CCG, que concentra os maiores mercados árabes e responde por 47% das exportações para a região, vinham em alta em janeiro e fevereiro na comparação com 2025, segundo melhor ano da série histórica”, afirma o secretário-geral.
Para Mourad o recuo de março decorre do conflito e não afeta o acumulado, mas ainda é preciso observar impactos em decorrência da continuidade do conflito e interrupção do Estreito de Ormuz.
Embarques do Agronegócio
O agronegócio responde por cerca de 75% das vendas à região. As exportações do setor ao CCG caíram 25,38% em março, mas acumulam alta de 6,8% no trimestre, para US$ 1,44 bilhão. Principal item da pauta agropecuária, o frango recuou 13,80% no mês, para US$ 185,50 milhões, mas só 2,32% no acumulado, para US$ 619,12 milhões.
O açúcar, segundo principal produto, recuou 43,37% em março, para US$ 54,07 milhões, mas avançou 26,41% no ano, para US$ 363,11 milhões. A carne bovina destoou, com alta de 23,87% no mês mais intenso do conflito, para US$ 47,75 milhões, além de avanço de 65,29% no trimestre, para US$ 194,56 milhões.
O milho foi o item mais prejudicado pelo o conflito e deixou de ser embarcado ao bloco em março, com queda de 99,96%, para US$ 0,03 milhão. Embora o recuo no acumulado ainda seja limitado a 5,8%, para US$ 61,22 milhões. Por outro lado, o café registrou alta de 34,24% no mês de março, para US$ 9,97 milhões, e de 64,3% no trimestre, para US$ 49,58 milhões.
O recuo nas importações brasileiras de fertilizantes provenientes do CCG é um destaque sobre o comércio entre as regiões. No primeiro trimestre, as compras caíram 51,35%. A região responde por cerca de 10% do fertilizante adquirido pelo agronegócio brasileiro no exterior.
“Esse é um ponto que preocupa tanto o nosso agro quanto os países árabes, que dependem da capacidade do Brasil de vender a eles alimentos excedentes”, pontua Mourad. “É preciso buscar formas de minimizar esses impactos”, concluiu.
No ano passado, o Brasil exportou US$ 21,3 bilhões em produtos para os árabes, principalmente açúcar, carnes, milho e minério de ferro, segundo dados da plataforma ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Mercado Halal
O mercado de alimentos Halal, produtos que seguem as normas da lei islâmica conhecidas como Islam, é um importante setor abastecido pelo agronegócio brasileiro. O termo “halal” significa “permitido”, e abrange não apenas o tipo de alimento, mas também todo o processo de produção, incluindo abate, armazenamento e transporte de alimentos.
Nesse mercado, por exemplo, carnes devem ser provenientes de animais abatidos de acordo com rituais específicos, e ingredientes proibidos (como álcool ou derivados de porco) não podem estar presentes.
Com grande parcela da comunidade muçulmana presente no golfo, a segurança alimentar da comunidade árabe passa a ser uma preocupação com a interrupção do Estreito de Ormuz.
Ali El-Zoghbi, vice-presidente da FAMBRAS Halal, certificadora halal no Brasil, afirma que a prioridade é garantir alguma forma de conclusão das exportações em meio ao conflito. “Os produtos brasileiros estão sendo sobretaxados por causa do ritmo da guerra, mas a segurança alimentar é importante durante esse momento. Uma necessidade vital é que nossos produtos cheguem lá. Essa é uma discussão diplomática, única forma de minimizar os efeitos dessa guerra”, disse à CNN Brasil.
Segundo um estudo do IMARC Group, o mercado global de alimentos halal é avaliado em US$ 2,9 bilhões. A estimativa é que este mercado alcance US$ 6,3 bilhões até 2034, apresentando uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 8,56% entre 2026 e 2034.
A região Ásia-Pacífico domina o mercado, com uma participação superior a 48,5% em 2025. A localização, por sua vez, concentra mais de 60% da comunidade muçulmana. Ainda segundo o IMARC, o crescimento do mercado é impulsionado pela crescente conscientização da população, pelo rápido multiculturalismo e pela globalização.
O Relatório do Mercado de Alimentos Halal indica que a população muçulmana global já ultrapassa 1,9 bilhão de pessoas, o que sustenta a demanda estrutural por alimentos certificados. Além disso, há expansão do consumo fora do público religioso, motivada por percepções de qualidade, segurança alimentar e rastreabilidade.
Uma das preocupações do setor é ceriticação e produtos, resultado da rastreabilidade exogda pelo consumidor muçulmano. Empresas já atuam para a digitalização dos processos industriais, o que confere informações e transparência sobre produtos exportados.
O recente acordo de cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã ainda não estabelece certezas sobre a reabertura do estreito e efetiva passagem de embarcações pela rota marítima. Navios da Marinha dos EUA começaram a remover minas do estreito, enquanto o vice-presidente JD Vance se reuniu com autoridades iranianas no último sábado para conversas sobre a resolução do conflito.

