A bolsa brasileira retomou o fôlego e encerrou a semana com três dias consecutivos de fechamento em máxima histórica, atingindo o patamar de 197 mil pontos pela primeira vez na sexta-feira (10).
No ano, o índice acumula 16 fechamentos em recorde – alimentando as expectativas do Ibovespa atingir a marca inédita dos 200 mil pontos.
Especialistas ouvidos pelo CNN Money acreditam que o cenário é positivo para o Brasil, que segue bem posicionado no contexto global com valuation atrativo.
De acordo com os analistas, o índice deve testar o patamar wimbólico pontos nas próximas semanas. No entanto, a manutenção do otimismo depende da continuidade de uma resolução para os conflitos no Oriente Médio.
As altas recentes foram impulsionadas pelo alívio global com o acordo de cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, que também deu novo oxigênio para ativos em geral na última semana.
Apesar de ter terminado março no negativo em meio a incertezas globais, o principal índice da bolsa driblou a guerra no Oriente Médio e teve o melhor desempenho do primeiro trimestre de 2026 entre os principais mercados globais.
Para Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, o principal motor do Ibovespa tem sido o fluxo estrangeiro.
Para ela, o Brasil virou destino do capital externo por uma combinação de fatores: valuations atrativos em relação a outros emergentes, ciclo de queda de juros começando e, mais recentemente, alta exposição ao petróleo.
A bolsa paulista tem apresentado uma certa resiliência desde o começo da guerra, no final de fevereiro. Apesar do desempenho negativo do Ibovespa em março, a bolsa ainda registrou entrada líquida de capital externo, que persiste em abril, com saldo positivo de R$ 1,6 bilhão até o dia 6 de abril.
Apesar da alta recente, que fez o índice voltar para patamares mais próximos de médias históricas, de acordo com os especialistas, o mercado brasileiro segue atrativo.
“Seguimos vendo o Ibovespa em níveis interessantes quando olhamos para métricas de valuation, como o preço sobre lucro, especialmente na comparação com outras bolsas globais”, analisa Sene.
O especialista de mercado da Queiroz Investimentos, César Queiroz, aponta que a bolsa ainda está barata e atrativa para o investidor estrangeiro.
“O Brasil oferece hoje uma combinação de preços ainda descontados com juros elevados, o que torna o mercado extremamente interessante para o capital internacional, que busca retorno em mercados emergentes”, disse.
Queiroz afirma que a perspectiva para as próximas semanas é bastante positiva, se o cenário geopolítico permanecer favorável. Para ele, o fluxo internacional deve continuar favorecendo mercados emergentes, como o Brasil.
“Nesse contexto, o dólar tende a seguir em queda, podendo chegar na faixa de R$ 4,90 a R$ 4,93, enquanto a bolsa ganha força para testar esse novo patamar histórico.”
Sene diz que, tecnicamente, o índice tem potencial para seguir na trajetória ascendente. No entanto, a continuidade desse movimento otimista está relacionada e dependente da continuidade de um cessar-fogo na guerra do Oriente Médio e, principalmente, a acomodação nos preços do petróleo.
“Os 200 mil estão no mapa técnico, mas o caminho exige que o petróleo não derrube definitivamente o ciclo de queda de juros.”
A analista também ressalta que a alta na commodity no último mês reascendeu as preocupações com inflação e a possibilidade de juros elevados por mais tempo, o que é prejudicial para ativos de risco.
“Seguimos com uma visão construtiva, porém cautelosa para a bolsa brasileira. Não recomendamos mudanças drásticas de carteira, mas vemos a correção recente como potencial janela de entrada”, avalia.
Setores mais beneficiados
O setor de “Óleo, Gás e Petroquímicos” foi o grande destaque no último mês, beneficiados sobretudo pela disparada no preço do petróleo no exterior. Empresas petrolíferas, como Petrobras e Prio, tiveram alta superior a 20% em março.
“Setores ligados a commodities e empresas de alta qualidade são os favoritos neste ambiente, enquanto setores domésticos cíclicos, como construção civil e educação, sofreram bastante com a abertura da curva de juros”, mostra Sene.
Queiroz aposta que o setor financeiro também se destacará nessa dinâmica, já que, segundo o especialista, os grandes bancos brasileiros costumam capturar fluxo de capital.
Já Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, espera uma mudança de característica no fluxo de capital para ações com baixa representatividade no Ibovespa, ou, até mesmo, que não estão no índice.
“São empresas que se encontram baratas, talvez dentro do setor de varejo possa ter nomes interessantes porque com o impulso fiscal desse ano, seja pela isenção do imposto de renda, seja pela proposta que o governo quer lançar agora de renegociação de dívidas, pode acabar ajudando o consumo”, explica.
O que pode frear a bolsa?
Nem tudo são flores. Os especialistas avaliam que a alta do Ibovespa pode ser interrompida tanto pelo cenário doméstico quanto externo.
No Brasil, o fator “eleições” pode trazer volatilidade para a bolsa brasileira daqui em diante, atuando como mais um ponto de atenção para os próximos meses.
“O principal risco doméstico está ligado às eleições de 2026. Dependendo do rumo das pesquisas eleitorais, especialmente se houver sinalização de continuidade do atual governo, pode gerar instabilidade e cautela por parte dos investidores”, destaca Queiroz.
No exterior, o principal ponto de atenção é o cenário geopolítico. A retomada do conflito no Oriente Médio e os desdobramento sobre o fechamento do Estreito de Ormuz podem impactar negativamente os mercados e interromper a trajetória de alta da bolsa.
“Uma resolução rápida seria positiva para o mercado global, uma guerra prolongada mantém a pressão inflacionária e a aversão ao risco”, ressalta Sene.

