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Software livre, hardware aberto: a rota de soberania que começa no chip

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

No primeiro texto desta série, eu disse que a camada mais profunda e mais concentrada da soberania digital é o silício, o chip. É a peça que faz tudo funcionar e, ao mesmo tempo, a que o Brasil menos controla. Este artigo é sobre essa camada: sobre a guerra global que se trava nela e sobre um caminho de saída que nasce de uma ideia antiga da computação, a de abrir o que é fechado.

Um chip não é uma coisa, é uma pilha

Para entender a disputa, é preciso ver que um processador não é um objeto único, e sim uma pilha de camadas, cada uma um ponto de estrangulamento possível. No topo está a arquitetura, o conjunto de instruções que define a "língua" que o chip fala (as três grandes são a x86, da Intel e da AMD, a ARM, licenciada pela britânica ARM, e a RISC-V, que já veremos). Abaixo dela vêm as ferramentas de projeto, softwares de desenho de circuitos dominados por um punhado de empresas americanas. Depois a fabricação, concentrada em pouquíssimas fundições, sobretudo em Taiwan. Mais fundo, a litografia, a máquina que "imprime" o circuito no silício: as de ultravioleta extremo, necessárias para os chips mais avançados, são feitas por uma única empresa no mundo, a holandesa ASML. E na base, os materiais, como as terras raras, cujo processamento a China quase monopoliza.

A lição é simples e um tanto assustadora: quem controla qualquer uma dessas camadas pode travar a cadeia inteira. Não é preciso fazer todos os chips. Basta ser dono de um gargalo.

A guerra é uma disputa por gargalos

É exatamente assim que a guerra dos chips funciona. Os Estados Unidos não fabricam a maior parte dos semicondutores, mas controlam gargalos estratégicos: as ferramentas de projeto, parte da propriedade intelectual e, via aliados, a litografia. Usam isso como uma válvula.

Em 2026, o governo americano passou a liberar caso a caso a exportação de chips de IA como o H200 e a exigir licenças anuais de fábricas estrangeiras que operam na China, transformando cada renovação numa carta na manga. Do outro lado, a China responde a partir do gargalo que domina: impôs controles de exportação sobre terras raras e minerais críticos, essenciais para fabricar qualquer eletrônico, e despeja dezenas de bilhões em fundos para criar alternativas domésticas. Mesmo sem as máquinas de ponta, sua principal fundição já produz chips de classe 7 nanômetros contornando a litografia mais avançada, a um custo maior. O resultado é o mundo se partindo em dois blocos tecnológicos.

Nada disso é sobre torcida. É sobre entender que a computação que você usa depende de uma corda esticada entre pouquíssimas mãos.

De Linux ao silício: a ideia de abrir o hardware

E aqui entra a parte que mais me interessa, porque liga o hardware a uma tradição que moldou a computação: o software livre. Esse movimento provou algo poderoso. Quando o código é aberto, nenhuma empresa e nenhum país pode revogar o seu direito de usá-lo. Foi assim que o Linux quebrou o monopólio dos sistemas operacionais proprietários e virou a base invisível de quase toda a internet.

Essa mesma lógica está subindo para o silício, por meio da RISC-V, uma arquitetura de instruções aberta e livre de royalties, nascida numa universidade e hoje reconhecida como o terceiro pilar da computação, ao lado da x86 e da ARM. A diferença é estratégica. Com a x86 ou a ARM, você depende de um dono que pode ser pressionado ou pode cortar a sua licença. Com uma arquitetura aberta, não existe licença para cortar. Não é coincidência que a China tenha adotado a RISC-V como aposta nacional justamente para driblar os controles de exportação, nem que a Europa a use para construir processadores próprios. Não se embarga um padrão que é de todo mundo.

Vale separar o que isso resolve do que não resolve, para não cair no deslumbre. Hardware aberto derruba o gargalo do projeto, que é a camada intensiva em conhecimento. Não derruba, sozinho, o gargalo da fabricação: um chip RISC-V ainda precisa ser produzido em algum lugar, muitas vezes nas mesmas fundições concentradas. Mas mover a disputa do capital para o conhecimento muda o jogo para quem tem cérebro e não tem dezenas de bilhões.

Onde o Brasil entra

É aqui que o país tem uma chance real, ainda que estreita. O Brasil importa cerca de US$ 5 bilhões em semicondutores por ano e não fabrica chips avançados, atuando em etapas específicas da cadeia, sobretudo no projeto. Mas o pé que temos é justamente na parte aberta e de conhecimento. O Brasil se tornou membro premium da RISC-V International em 2024, e já há resultados concretos: o Projeto Macau, da UFSM com o MCTI, desenvolveu um microcontrolador nacional em arquitetura RISC-V, e começam a surgir startups de projeto de chips, como a Tuna e a Pitanga. A CEITEC, empresa pública que desenhou o primeiro chip inteiramente brasileiro, entrou em processo de liquidação em 2021 e vem sendo retomada, e leis recentes de incentivo tentam sustentar o setor.

O ponto realista é este: o Brasil dificilmente vencerá uma corrida por fábricas de ponta, que custam dezenas de bilhões e dependem de uma máquina de litografia que não está à venda para qualquer um. Mas projeto de chip e hardware aberto são jogos de conhecimento, em que a barreira de entrada é gente qualificada e continuidade, não apenas dinheiro. É um terreno onde um país com boas universidades pode, de fato, jogar. E é um terreno epistêmico antes de ser industrial: tem a ver com formar quem entende a máquina por dentro, e não só quem a consome pronta.

O verdadeiro inimigo

Se há um risco a nomear, não é técnico, é de constância. O maior inimigo do semicondutor brasileiro é a descontinuidade: a própria quase-morte da CEITEC mostra como uma década de acúmulo pode ser jogada fora numa canetada, e como entraves burocráticos, a exemplo da dificuldade de importar insumos de pesquisa, sufocam laboratórios no interior do país. Soberania de hardware não se constrói em um mandato. Constrói-se em gerações.

No fim, é a mesma régua dos textos anteriores, agora no nível do transistor: infraestrutura é poder, e todo poder tem um endereço. A diferença é que, no hardware, existe uma rota que não depende de comprar o gargalo dos outros, e sim de abrir o próprio caminho, no duplo sentido da palavra abrir. O software livre ensinou que a independência começa quando o código deixa de ter dono. O hardware aberto propõe o mesmo para o silício. Para o Brasil, essa talvez seja a forma mais barata, e mais duradoura, de não depender apenas da boa vontade de quem hoje segura a corda.

Confira o primeiro artigo da colunista Nina da Hora sobre como se constrói soberania digital, as camadas invisíveis que controlam sua vida online.

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