Aviso: o texto abaixo trata de abuso sexual infantil e contém descrições factuais sobre esse tipo de conteúdo circulando em anúncios pagos. Não há reprodução de imagens ou trechos explícitos.
A Meta exibiu e lucrou com dezenas de anúncios pagos contendo material de abuso sexual infantil gerado por inteligência artificial em suas plataformas. A informação é da revista Wired, que teve acesso aos dados com pesquisadores do Tech Transparency Project (TTP).
Os anúncios circularam pelo Facebook, Instagram, Messenger e Threads entre novembro de 2025 e agosto de 2026, segundo a apuração. Parte deles seguia ativa até poucos dias antes da publicação da reportagem nesta quarta-feira (5).
Pesquisadores identificaram mais de 50 anúncios
O TTP encontrou mais de 50 anúncios em imagem e vídeo com conteúdo abusivo na biblioteca de anúncios da própria Meta, ferramenta de transparência que cataloga peças publicitárias veiculadas nas plataformas da empresa.
Alguns deles direcionavam usuários para aplicativos de "nudificação", que geram imagens de nudez a partir de fotos reais.
Katie Paul, diretora do TTP, afirmou à Wired que as peças não faziam qualquer esforço para disfarçar o conteúdo que promoviam. Segundo ela, os anúncios foram revisados e aprovados pela própria Meta antes de irem ao ar, o que os diferencia de publicações feitas por terceiros na rede.
A empresa reportou alcance limitado para a maioria dos anúncios, mas ao menos um deles atingiu 2.563 contas na Europa, em países como França, Alemanha, Irlanda, Itália, Holanda, Espanha, Suécia e Reino Unido. O público-alvo incluía usuários nos Estados Unidos, no Reino Unido e em mais de uma dezena de países europeus, e algumas peças eram direcionadas apenas a homens.
Segundo a Wired, diversos anúncios foram publicados após o primeiro contato da revista com a Meta para pedir posicionamento sobre o caso. Isso indica que parte do conteúdo escapou até das ferramentas de detecção mais recentes da empresa.
:quality(85)/21e633e3-6f66-498d-9a14-942758db0676.png)
Segundo episódio do tipo em poucas semanas
O caso repete um padrão identificado em julho pela BBC, que revelou anúncios no Instagram promovendo a venda de material de abuso sexual infantil na Índia.
Naquela apuração, os anúncios usavam termos como "rape video" (vídeo de estupro, em inglês) e redirecionavam usuários para canais no Telegram, onde o conteúdo era vendido por cerca de 99 rúpias, o equivalente a menos de R$ 6.
A repetição do problema levanta dúvidas sobre a eficácia dos sistemas de moderação da Meta. Paul relatou à Wired ter encontrado, entre os anúncios mais recentes, peças idênticas a outras já removidas anteriormente pela própria empresa por violarem as políticas contra exploração infantil.
Parte dos anúncios analisados pelo TTP estava vinculada a contas com poucos ou nenhum seguidor, e os anunciantes identificados tinham ligação com empresas chinesas.
Um dos casos remetia ao aplicativo MaskAI, retirado da App Store pela Apple depois que a Wired procurou a empresa.
Publicidade responde por quase toda a receita da Meta
A publicidade é a principal fonte de receita da Meta. Segundo dados citados pela BBC, quase 98% dos US$ 200 bilhões faturados pela empresa no ano fiscal encerrado em 2025 vieram de anúncios.
Em nota à Wired, a Meta classificou a exploração sexual como "horrível" e afirmou trabalhar de forma agressiva para mantê-la fora de suas plataformas. A empresa disse que a maioria dos anúncios teve alcance mínimo e que vários já haviam sido desativados antes do contato da revista.
A companhia também afirmou que parte do material antecede uma nova tecnologia de IA lançada recentemente para detectar e bloquear anúncios irregulares no momento do envio.
Segundo a Meta, mais de 36 milhões de conteúdos de exploração infantil foram removidos das plataformas no último ano, além de ações judiciais contra desenvolvedores de aplicativos de nudificação.
A empresa costuma repassar material considerado abusivo ao National Center for Missing and Exploited Children (NCMEC), órgão responsável por centralizar denúncias globais de exploração sexual infantil online.
{{WHATSAPP_CHANNEL}}

