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Mapa do Instagram chega ao Brasil com promessa de conexão e risco de exposição

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Mapa do Instagram chega ao Brasil com promessa de conexão e risco de exposição

Nesta quarta-feira (10), o Instagram começou a liberar no Brasil um dos recursos mais delicados já adicionados à rede social: o Mapa do Instagram. Anunciada originalmente pela Meta em agosto de 2025, a ferramenta permite compartilhar a última localização ativa do usuário com amigos escolhidos, além de mostrar publicações, stories, reels e notas associados a locais no mapa.

Oficialmente, a ideia é simples: ajudar amigos a se encontrarem, descobrir lugares interessantes e dar ao Instagram uma camada mais “social” e contextual. Mas a verdade é que localização não deve ser "moeda de troca" para curtidas, comentários ou reposts. Localização é dado sensível do dia a dia, capaz de identificar ou tornar identificável uma pessoa.

E isso é extremamente grave, sobretudo por estarmos falando de uma plataforma que tem alcance publicitário estimado em 147 milhões de conta, segundo levantamento do DataReportal de 2025. Ou seja: não se trata apenas de um recurso "curioso", mas uma questão de privacidade e segurança.

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Como funciona o Mapa do Instagram

O Mapa do Instagram não é, pelo menos no desenho oficial da Meta, um rastreador ligado automaticamente para todo mundo. Já na apresentação da funcionalidade a empresa afirma que o compartilhamento de localização vem desativado por padrão e só funciona se o usuário optar por ativá-lo. Também é possível escolher quem poderá ver a localização: amigos (aqueles seguidores que você também segue de volta), Amigos Próximos, pessoas selecionadas ou ninguém.

Instagram apresenta o Mapa e já reforça que o usuário não está compartilhando sua localização (Imagem: Jones Oliveira/Canaltech)

Outro ponto importante: a localização não é transmitida continuamente como um GPS de corrida. Segundo a Meta, ela é atualizada sempre que você abre o Instagram ou retorna ao app se ele estava rodando em segundo plano. Em outras palavras, isso significa que o app pode mostrar onde você esteve pela última vez que usou a rede social — e isso já é informação demais em muitos contextos.

O recurso também separa duas coisas que podem confundir muita gente. Uma é o compartilhamento da sua localização com pessoas escolhidas. Outra é a exibição de conteúdos com localização marcada no mapa. A Meta diz que posts, reels e stories com local marcado podem aparecer no Mapa por 24 horas para pessoas que seguem o perfil, e notas com localização também podem aparecer para seguidores mútuos pelo mesmo período.

A empresa ainda afirma que pais e responsáveis com supervisão ativada em contas adolescentes são avisados quando o jovem começa a compartilhar a localização, podendo decidir se o adolescente terá acesso a esse tipo de compartilhamento e ver com quem ele está dividindo a informação.

Riscos do Mapa do Instagram

O risco do Mapa não está apenas em alguém descobrir o endereço da sua casa. Isso é grave, claro, mas o buraco é mais embaixo.

Localização revela rotina. Mostra qual academia você frequenta, onde é a sua faculdade, onde você trabalha, qual bar frequenta, onde é a casa dos seus amigos, a escola dos filhos, quais são seus trajetos recorrentes e horários prováveis. Quando esses pontos são cruzados, eles formam uma espécie de mapa comportamental da vida real — e esse tipo de dado não deveria ser tratado como mais uma mecânica de engajamento.

A autoridade australiana de segurança online, eSafety Commissioner, resume bem o problema: saber quando você está compartilhando localização e quem pode vê-la é essencial para proteger privacidade e segurança. O órgão alerta que informações de localização podem ser usadas para perseguir, assediar ou coagir uma pessoa, especialmente em cenários de controle coercitivo e violência doméstica.

Cyberstalking é tipificado como crime no Brasil desde 2021; recurso do Instagram pode incentivar prática (Imagem: Divulgação/Kaspersky)

Não é exagero. O próprio Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, em material sobre violência cibernética contra mulheres, classifica o cyberstalking como perseguição e assédio constante pela internet. O documento cita como exemplos o monitoramento da vítima, a instalação de spyware para rastrear sua localização e o uso de softwares espiões para acompanhar suas atividades.

No Brasil, stalking é crime desde 2021. A Lei nº 14.132 incluiu no Código Penal o crime de perseguição, definido como perseguir alguém recorrentemente e por qualquer meio, ameaçando a integridade física ou psicológica, restringindo a locomoção ou invadindo a liberdade e a privacidade da vítima. A pena vai de seis meses a dois anos de reclusão e multa, com aumento quando é cometido contra criança, adolescente, idoso ou mulher por razões da condição de sexo feminino.

Polêmica começou antes de chegar ao Brasil

O Mapa do Instagram já nasceu sob desconfiança. Depois do lançamento inicial em agosto de 2025, usuários relataram que a localização teria aparecido sem que entendessem claramente que estavam compartilhando o dado, enquanto a Meta reforçou que a função era opcional e desligada por padrão. O chefe do Instagram, Adam Mosseri, chegou a dizer que a empresa estava checando as reclamações e que o desenho do recurso exigia confirmação dupla para ativar o compartilhamento.

A reação não ficou restrita aos usuários. Poucos dias após o Mapa ser lançado nos EUA, procuradores-gerais de 37 estados do país enviaram uma carta ao Instagram demonstrando preocupação com o recurso. O documento afirma que a exibição de localizações precisas no mapa levanta riscos relevantes de segurança pública e privacidade, especialmente para crianças e sobreviventes de violência doméstica. A coalizão pediu que menores não pudessem ativar o compartilhamento, que adultos recebessem alertas claros sobre os riscos e que fosse fácil desligar a função a qualquer momento.

E aqui fica evidente como mesmo quando um recurso é opcional, ele pode ser perigoso se a pessoa não entende exatamente o que está ativando, por quanto tempo, para quem e em quais situações. Em tecnologia, consentimento escondido em tela de configuração não é sinônimo de escolha consciente.

Instagram atiça curiosidade do usuário para ativar a nova funcionalidade com o pretexto de "conexão" com amigos e seguidores (Imagem: Jones Oliveira/Canaltech)

“Mas só meus amigos podem ver”

Esse é o argumento mais comum, e também o mais frágil.

Em rede social, “amigo” nem sempre é amigo. Pode ser colega de trabalho, conhecido distante, ex-contato, paquera antiga, parente sem noção ou gente que você nem lembra mais quem é. O Instagram permite limitar o compartilhamento, mas a responsabilidade de montar e manter essa lista fica nas costas do usuário.

E convenhamos: pouca gente revisa lista de seguidores com o mesmo cuidado com que revisa extrato bancário. O problema é que, com localização, o preço de uma decisão ruim ou configuração malfeita pode ser muito maior do que ver um story por engano.

Por isso, a discussão não é se o Mapa do Instagram é útil. Ele pode ser. Encontrar amigos em festival, descobrir lugares movimentados ou acompanhar criadores em eventos são usos legítimos. A discussão é se uma plataforma do tamanho do Instagram deveria transformar localização em mais um recurso social sem deixar os riscos absolutamente óbvios, em linguagem simples, antes de qualquer ativação.

Como desativar o Mapa do Instagram

Para desativar o Mapa do Instagram no app para Android e iOS, siga este caminho:

  1. Abra o Instagram e vá em "Configurações e atividade";
  2. Acesse "Story, live e localização", dentro da seção "Quem pode ver seu conteúdo";
  3. Toque em "Compartilhamento de localização";
  4. Em "Quem pode ver sua localização", selecione "Ninguém".
Desativar o Mapa do Instagram é relativamente fácil, mas exige atenção (Imagem: Jones Oliveira/Canaltech)

Também vale fazer uma segunda checagem fora do Instagram, direto no sistema do celular.

  • No iPhone, vá em Ajustes > Privacidade e Segurança > Serviços de Localização > Instagram e escolha se o app pode acessar sua localização
  • No Android, pressione o ícone do Instagram, toque em Informações do app > Permissões > Localização e ajuste o acesso

A própria central de ajuda do Instagram orienta que o gerenciamento de localização também passa pelas configurações do dispositivo.

No fim das contas, a recomendação é simples: antes de testar por curiosidade, confira suas configurações. E, na dúvida, deixe em "Ninguém". Em rede social, exposição já é moeda de troca para engajamento. A sua localização não precisa entrar nessa conta.

Não gostou nada do que o Instagram fez? Este guia ensina como excluir sua conta da rede social.

Leia a matéria no Canaltech.

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