O fim de 2004 marcou a queda do império absoluto do Game Boy e deu início a uma das disputas mais acirradas da tecnologia: o duelo entre o conceito de duas telas da Nintendo com o DS (NDS) e o poder de fogo da Sony com o PlayStation Portable (PSP).
Mesmo dentro de uma competição de mercado, ambos apresentavam ideias distintas e que se completavam. Claro, isso foi uma das principais causas de dúvida de jovens e crianças nos anos 2000. Afinal de contas, qual deles comprar e com que aparelho se divertiriam mais até o fim da década?
O duelo entre o PSP e o Nintendo DS foi histórico e cada um se adaptou da forma como pôde à indústria. Você sabe como foi esta intensa disputa por público e a principal vantagem estratégica de cada um? Hoje o Canaltech relembra para você.
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O surgimento do PSP
A Sony sempre teve uma disputa acirrada com a Nintendo no setor, principalmente entre os anos 1990 e 2000. Após ser traída, ela buscou uma presença reforçada para fazer frente ao “império N” com seus consoles PlayStation.
Se o PS1 e o PS2 se tornaram bem-sucedidos e até bateram de frente com o Nintendo 64 e o GameCube, ainda havia uma área que a companhia não tinha explorado por completo: os portáteis. E com um mercado mais acirrado, com a presença da SEGA e da Microsoft, eles teriam de expandir para lá.
Nos consoles, o PS2 reinou soberano, mas estava entre Dreamcast, GC e o primeiro Xbox. Eles não poderiam contar com a liderança absoluta apenas com os consoles domésticos. E a partir deste ponto nasceu a ideia do PSP – uma versão portátil de suas tecnologias.
A ideia do PlayStation Portable era de entregar exatamente o que os consumidores esperavam dele: gráficos de ponta, jogos first-party e conceitos inéditos que são voltados ao público que desejava um videogame de bolso. Era uma revolução, não apenas para os fãs, mas em seus próprios negócios.
Além dos games presentes nele, existia compatibilidade com o próprio PS2 e o PlayStation 3, assim como a possibilidade de conectá-lo aos PCs. Lembra dos famosos MP4? Se migrasse músicas e vídeos para o hardware, além de poder jogar seus principais títulos, era possível replicar as funções do dispositivo mais desejado daquela época.
Ou seja, você teria em mãos o que era necessário para jogar complementos canônicos de God of War, Final Fantasy VII, Metal Gear Solid e Kingdom Hearts ao mesmo tempo que usa suas utilidades multimídia e multiconectividade. Antes mesmo dos celulares com recursos similares se popularizarem.
Através do seu processador MIPS R4000, o PSP conseguia reproduzir gráficos tão realistas quanto suas contrapartes domésticas. Sua placa Wi-Fi conseguia fazer com que os usuários tivessem o multiplayer online sem fio — antes mesmo da chegada do PS3.
Outras grandes vantagens eram a possibilidade de acessar a PlayStation Store para comprar jogos digitais, o que não era visto em qualquer outro portátil disponível no mercado. Isso sem falar em questões como o estilo, já que ele era vendido em diversas cores para se adequar melhor à preferência dos usuários.
Tudo isso, em conjunto, se tornou uma proposta irresistível da Sony para o mercado de portáteis. A Nintendo podia ter a dominância, que foi construída por mais de uma década, mas o que o PSP trouxe foi o suficiente para fazer frente à proposta da concorrência e marcar toda uma geração.
O caminhão chamado Nintendo DS
O PlayStation Portable podia ser um carro veloz e cheio de recursos, com grande finesse, mas o NDS era um verdadeiro caminhão que passaria por cima de qualquer coisa que estivesse na sua frente. Lançado também no fim de 2004, o videogame de duas telas da Big N fez um barulho absurdo.
Já começava pela troca da nomenclatura que a japonesa utilizou. Foi abandonado o selo Game Boy e adotado o DS — que significa “Dual Screen” (duas telas, em tradução livre). A presença de uma delas touchscreen apelou para a curiosidade do público, que queria saber como era controlar personagens com suas próprias mãos.
Pense que isso ocorreu antes dos smartphones e celulares modernos, o que representava uma verdadeira revolução dentro dos games. Você poderia acessar o menu, ver mapas, usar comandos e fazer várias outras coisas enquanto o display superior mostrava a ação principal.
Isso, por si só, era muito poderoso. No entanto, soma-se o potencial da tecnologia a jogos como Super Mario Bros., The Legend of Zelda, Pokémon, The World Ends With You, GTA e outras franquias e o resultado não era nada menos do que o sucesso absoluto.
Mesmo sem poder gráfico ou apelo multimídia como o PSP, não demorou para a Nintendo se consolidar com o seu DS. Sua retrocompatibilidade com o Game Boy garantiu os fãs antigos. A curiosidade chamou novos. E a aclamação veio: ele hoje faz parte do “top 3” dos consoles mais vendidos de toda a indústria.
Assim como seu rival, ele era vendido em diversas cores diferentes — assim como possuía um vasto suporte de acessórios, que iam desde stylus diferenciadas, headsets e outros que preenchiam as prateleiras das lojas. Raramente eram vistos dois NDS iguais nas mãos dos fãs e a personalização era apenas “mais um” dos principais fatores deste console.
Se por um lado tivemos o PSP e finalmente a possibilidade de ter um PlayStation de bolso, do outro era visto o Nintendo DS como um “teste público” de como seria ter um iPhone em um breve futuro. E com jogos divertidos, inclusivos e cheios de carisma, diga-se de passagem.
Deste modo, ele se tornou não apenas o carro-chefe entre os portáteis de uma geração, mas o maior deles. Mesmo diferente do rival, ele mostrou como ideias “simples” muitas vezes tinham um apelo maior entre o público. Bastou uma tela a mais e recursos touchscreen que o “jogo virou” por completo.
DS vs PSP: qual era o melhor?
Ainda que um tenha inovado de formas únicas o mercado, não é simples pontuar o Nintendo DS como “melhor” e o PSP como “pior”. Eles tinham ideias diferentes e isso ressoou de forma singular com o consumidor, mas que na verdade eram bem distintas entre si.
Em termos técnicos, um PlayStation Portable era um PS2 de bolso e representou um grande salto de desempenho nesta categoria. Só foram vistos gráficos similares na concorrência com o 3DS, em 2011. Em 7 anos, a forma definitiva de ter os melhores visuais nos portáteis era com o dispositivo da Sony.
A presença do multiplayer online, loja digital, amplo suporte de estúdios e a chegada de grandes franquias enriqueceram ainda mais o cenário para ele. Em termos comparativos, enquanto víamos no DS remakes dos primeiros Final Fantasy, seu rival recebia prequels dinâmicas de FF7 e Kingdom Hearts.
Por outro lado, as duas telas do portátil da Nintendo foram responsáveis por uma maneira única de se jogar. Poderia não rodar seus vídeos, músicas ou até se conectar aos PCs, mas qualquer pessoa que via The Legend of Zelda: The Phantom Hourglass ou Pokémon Diamond & Pearl se sentia na obrigação de “parar” para ver como aquilo tudo funcionava.
Além disso, a maravilha que foi se livrarem por completo do Cabo Game Link — que era obrigatório para trocar monstros de bolso na franquia Pokémon ou jogar experiências multiplayer — trouxe um frescor nunca antes visto a um portátil da Nintendo. Era uma “nova era” que tinha chegado com força total.
Em termos técnicos, PSP levava vantagem nessa geração. Porém, com ideias inovadoras o NDS se tornou um “peso pesado”. E não vamos desmerecê-lo em desempenho, já que rodar duas telas em simultâneo exigia bastante do hardware. Porém, em gráficos, deixava a desejar sim.
Foram duas propostas diferentes, que tinham apelos únicos e um deles levou o “ouro”. No entanto, isso não significa que o outro era ruim. Muito pelo contrário, na verdade. Um PlayStation de bolso foi uma excelente ideia e foi uma perda enorme no mercado ver o seu sucessor — o PS Vita — sucumbir em definitivo a essa iniciativa.
O Nintendo DS possuía mais vendas, mas estava a anos-luz de mostrar nas suas telas a beleza e complexidade de games como Metal Gear Solid, Dissidia e até adaptações de animes famosos. Tanto que a Big N correu atrás disso com o 3DS, que foi lançado com a intenção de mostrar que eles não perderiam novamente neste quesito.
Ideias opostas, mesmo público
A Sony apostou fortemente que o mercado compraria a ideia de um PlayStation “tudo-em-um”: videogame, MP3, MP4 etc. E não foi um conceito ruim, já que qualquer smartphone hoje faz tudo isso e muito mais. Talvez seu erro foi tentar apelar para um mercado que não estava pronto ainda para o seu produto.
Por outro lado, a Nintendo foi para o “tudo ou nada” com uma ideia que poderia ter dado redondamente errada: duas telas. Como vimos no Wii U, se a indústria não abraça isso, todo o hardware cairia no esquecimento. Suas franquias de peso, potencial e apoio das third-parties garantiram um sucesso absoluto, mas representou um risco alto.
No fim das contas, a popularidade pode ter definido um “vencedor”, mas na verdade tivemos dois dispositivos singulares no mercado que infelizmente disputaram o espaço no coração e bolso dos consumidores. Muitos podiam ter apenas 1 deles e escolheram o caminho da Big N.
O próprio sucesso do PS2 pode justificar esse caminho. Após o lançamento do console de mesa, muitos compraram o videogame e seus jogos na época. Na hora de escolher um portátil, não existia esse senso de “ecossistema” e foram até a concorrência para ter “o melhor dos dois mundos”.
Curioso é que, até a chegada do Nintendo Switch, ambos reinavam absolutos no ranking dos consoles mais vendidos: PS2 em 1º lugar e o NDS em 2º. Enquanto isso, o PSP hoje está na 11º colocação — porém, antes, era o 6º mais popular de todos. Ou seja, não foi uma “tragédia total” também.
Mesmo com o mesmo público, quem tinha apenas um ou o outro estava com recursos únicos magníficos na mão (literalmente!) que não eram vistos na concorrência. O mais importante, que é o fator “diversão”, estava presente em ambos e era isso que realmente contava.
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