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Fumaça das queimadas deixa ar péssimo em Manaus

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Fumaça das queimadas deixa ar péssimo em Manaus

Manaus (AM) – Ainda era madrugada desta quinta-feira (17), quando a população de Manaus sentiu um forte cheiro de queimada no ar decorrente da fumaça dos incêndios florestais no Amazonas. A nuvem espessa e tóxica de poluentes, como o gás carbônico, encobriu ruas, casas e edifícios da cidade. O índice da qualidade do ar marcou 129,5 µg/m³, classificado como péssimo e perigoso à saúde humana, conforme dados do aplicativo Selva (Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

“Estou dentro do quarto, com tudo trancado, e estou sentindo a fumaça. Um cheiro muito forte na casa toda, senti assim que acordei às 7h30 da manhã”, disse Haydê Machado, moradora do bairro Compensa ouvida pela reportagem. Ela relatou que sente enjoo e dor de cabeça por conta da fumaça.

Além da crise na qualidade do ar, Manaus enfrenta falta de água potável em oito bairros, causada pelo rompimento de uma adutora no bairro Compensa na  quarta-feira (16).  (Leia mais no final do texto)

Saúde em risco

Fumaça das queimadas no bairro da Compensa, em Manaus (Foto cedida por Vitor Maia)

A Organização Mundial de Saúde estabelece que a concentração anual média de material particulado não deva ultrapassar o limite de 5 µg/m³ (microgramas por metro cúbico) para minimizar riscos à saúde. A média de 24 horas para este poluente é de 15 µg/m³.  

Com a qualidade do ar péssima, a saúde humana é comprometida com doenças cardiovasculares, cerebrovasculares (AVC) e respiratórios, diz a OMS. 

Segundo o IBGE, Manaus tem 2.327.101 habitantes. O bairro da Compensa, na zona oeste da capital, concentra 73.111 moradores. Lá, desde a madrugada era possível sentir o cheiro de fumaça das queimadas. A concentração de material particulado chegou a 129,5 µg/m³. 

O índice baixo da qualidade do ar em Manaus já é maior do que o registrado em 2024, quando o Amazonas enfrentou também o aumento das queimadas na região e a maior seca extrema em 100 anos. Em 27 de setembro do ano passado, a  qualidade do ar na cidade  marcou 159 µg/m³, de acordo com o Selva.

O Selva vem registrando baixos índices na qualidade do ar este ano em Manaus desde o dia 8 de setembro. Ao mesmo tempo, a população está enfrentando altas temperaturas, que ultrapassam os 37°C, já pelos efeitos da crise climática, que ameaça o mundo.

O aumento das queimadas no Amazonas este ano ocorre em um cenário de agravamento dos extremos climáticos na Amazônia, principalmente em meio ao avanço do “Super El Niño” no mundo. 

De acordo com o terceiro Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno atinja intensidade muito forte entre setembro e novembro. Para o período, são previstas temperaturas elevadas e condições mais secas em partes da região Norte.

Na primeira semana de setembro, o INPE divulgou que o Amazonas liderava o ranking de focos de queimadas entre os estados brasileiros com 1.224 registros. O estado aparece à frente do Pará, que contabilizou 1.053 focos no mesmo período. 

No bairro Parque 10, zona centro-sul, a situação foi a mesma: o índice da qualidade do ar marcou 125,6 µg/m³, segundo a plataforma Selva. Morador do bairro, o produtor cultural Ravi Veiga contou que a fumaça foi percebida logo nas primeiras horas do dia. “Muita fumaça. Já amanheci 5 horas da manhã com a fumaça rondando por aqui. Estou usando máscara ”, afirmou à Amazônia Real.

Ele disse que os episódios têm sido recorrentes e que a população naturalizou a fumaça, fazendo parte da rotina de quem vive na região. “Eu volto para casa de madrugada, tipo meia-noite, 1 hora da manhã, 2 horas, e já tenho percebido a fumaça aqui no Parque 10. Todo santo dia pela manhã, eu acordo já com a fumaça invadindo toda a área aqui”, relatou.

Fumaça e sem água potável

Imagem da vista do Edificio Cidade de Manaus, no bairro centro (Foto cedida por Carlos Barbosa)

A combinação de fumaça e calor foi agravada pela falta de água, devido ao rompimento de uma adutora na rua Guanapuris, na Compensa, quanto 200 bairros na cidade ficaram sem água, na quarta-feira (16). Segundo a empresa Águas de Manaus. o conserto da adutora foi concluído na manhã de hoje, mas a normalização do sistema pode levar até 48 horas. 

Para Ravi Veiga, o período de calor intenso e fumaça tem sido especialmente difícil. “Viver no calor e fumaça ao mesmo tempo é horrível. Porque o calor que antes, pelo menos aqui, era mais úmido, agora se tornou um calor seco. E ainda mais com essa fumaça fica mais seco. Então tem sido horrível. Dores de cabeça, cansaço, narinas secas. E sem água para poder se hidratar”, disse o produtor cultural.

A interrupção no abastecimento de água ocorre um mês depois de Manaus enfrentar outro período de falta de água em diferentes pontos da cidade, também relacionado a manutenções emergenciais. 

Diante do cenário de preocupação crescente com a segurança hídrica em Manaus, o estudo inédito “O desafio da segurança hídrica na região de Manaus e políticas de sustentabilidade”, produzido pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, apontou que Manaus pode enfrentar risco crítico de escassez de água até 2040. 

Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, explicou que entre os motivos estão o aumento da temperatura do planeta e os eventos climáticos extremos na região Norte, como secas e ondas de calor, além do aumento de consumo projetado para o consumo humano e principalmente para o setor industrial.

“Tem uma perspectiva de, por um lado, redução do volume médio dos rios em determinada época do ano, e por outro lado uma expectativa de crescimento do consumo de água de até 7% até o ano de 2040. Então, o estudo demonstra esse desequilíbrio entre o aumento da demanda e a redução da disponibilidade de água em determinadas épocas do ano”, disse em entrevista à Amazônia Real.

Apesar de estar localizada na região da maior bacia hidrográfica do mundo, a pesquisadora destaca que Manaus depende fortemente de águas subterrâneas. O estudo estima a existência de mais de 27 mil poços em operação na cidade, dos quais apenas cerca de 5 mil estão regularizados e registrados pelos órgãos de controle.

Para ampliar a segurança hídrica e garantir água na quantidade e qualidade necessária, o estudo aponta caminhos como a regularização dos poços, o uso de água de reuso e a redução das perdas no sistema de abastecimento.

“É necessário pensar em ferramentas como água de reuso para que haja outras fontes de abastecimento de água. É necessário também reduzir perdas de água para garantir que menos água seja captada nos rios. Precisa de um pensamento sistêmico e integrado entre os diferentes setores da economia, seja consumo humano, seja produção de alimentos, seja o uso industrial, para uso consciente e para que a quantidade de água disponível possibilite o crescimento da região conforme previsto”, observou Pretto.

A reportagem da agência continua acompanhando a crise na qualidade do ar em Manaus e pode atualizar esta reportagem a qualquer momento.

Fumaça encobre novamente Manaus na manhã de quinta-feira (17/9) (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

Esta reportagem foi produzida com a doação dos leitores na campanha da Amazônia Real para custear matérias sobre o clima, política, ameaças aos defensores e violações de direitos humanos. É isso que o jornalismo independente e investigativo pode fazer. Faça a sua contribuição pelo PIX: doe@amazoniareal.com.br



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