Por Beatriz Figueiredo Cabral, Aurora Miho Yanai, Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça, Maria Isabel Sobral Escada, Cláudia Maria de Almeida e Philip Martin Fearnside
O presente estudo foi realizado no município de Lábrea, localizado na mesorregião sul do estado do Amazonas, próximo às divisas com os estados de Rondônia e Acre (Figura 1). Os principais rios do município são o Ituxi e o Purus, sendo o rio Purus utilizado como via de acesso à sede do município (cidade de Lábrea; população urbana em 2021 = 24.223) [1, 2]. Além do rio, também é possível acessar a cidade de Lábrea pela rodovia BR-230 (Transamazônica), e a porção sul do município pode ser acessada por estradas secundárias (conhecidas como “ramais”) que se ramificam da rodovia BR-364 (Porto Velho-Rio Branco); essas estradas secundárias, construídas ilegalmente por grileiros, têm desempenhado um papel importante no processo de ocupação dessa área [1, 3].

A área de estudo abrange 83.900 km² (uma área maior que a Áustria ou o estado brasileiro da Paraíba). A área de estudo inclui uma zona de amortecimento de 10 km ao redor do município de Lábrea. Essa zona de amortecimento foi delimitada para evitar possíveis perdas de informação sobre os padrões de desmatamento causados pela proximidade do município. Cerca de 80% da área de estudo está em áreas protegidas, divididas em 17 terras indígenas e quatro unidades de conservação. A cobertura vegetal em Lábrea é predominantemente composta por floresta ombrófila densa de terras baixas [4]. Os solos são classificados como Latossolos, Argissolos, Plintossolos e, em áreas próximas aos rios, Gleissolos [5]. O relevo é formado por depressões e planícies, com altitudes que variam de 41 m a 403 m acima do nível médio do mar. O clima é caracterizado como tropical de monções (Tipo Am- i no sistema de classificação de Köppen), com curtos períodos secos e um longo período com alta precipitação (2.400 a 2.800 mm/ano [6].
Mapeamento do desmatamento e definição da tipologia de ocupação
Os dados cumulativos de desmatamento para 2008, 2013, 2017 e 2021 foram obtidos dos mapas vetoriais do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES) [7]. A seleção desses anos específicos teve como objetivo analisar os distintos padrões de ocupação durante períodos com dinâmicas de ocupação variáveis. O PRODES, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), estima as taxas anuais de desmatamento por corte raso com base na interpretação visual de imagens de satélite e fornece dados espaciais abrangentes por meio da plataforma digital TerraBrasilis [7, 8]. Amplamente reconhecido por sua precisão, o PRODES apresenta um nível de acurácia de 93,5%, consolidando sua reputação como um sistema confiável de monitoramento do desmatamento [9].
A análise dos padrões e trajetórias de desmatamento utilizando dados do PRODES demonstra ser inestimável para indicar e caracterizar diversos processos de mudança na cobertura florestal associados a agentes e tipos de ocupação, permitindo uma compreensão abrangente dos processos de desmatamento e ocupação envolvidos. Essa abordagem envolve a criação de uma tipologia que estabelece e descreve a conexão entre os padrões espaciais de desmatamento na área analisada e sua semântica. Informações auxiliares, como dados do censo agroindustrial e informações de campo, são utilizadas nesse processo. Por meio da análise espacial exploratória do arranjo e da forma dos polígonos e padrões de desmatamento descritos na literatura, uma tipologia de ocupação foi definida para a região de Lábrea com base em Azeredo et al. [10], Gavlak et al. [11], Saito et al. [12] e Yanai et al. [13]. A identificação e a definição desses padrões também foram embasadas por uma expedição realizada na área de estudo em outubro de 2021, que revelou diferentes dinâmicas de ocupação.
Após a definição da tipologia dos padrões de ocupação, os polígonos de desmatamento foram analisados no contexto de células individuais. Esse processo envolveu a análise das métricas da paisagem dos polígonos dentro de tamanhos de célula predeterminados. Estudos anteriores sugerem que a escolha do tamanho da célula da grade deve considerar as dimensões dos fragmentos de desmatamento e sua distribuição espacial para evitar perda de informação ou distorção dos padrões [11, 14-17]. Após testes preliminares e uma análise empírica da disposição dos padrões de desmatamento em diferentes tamanhos de célula, constatou-se que 10 × 10 km era o tamanho de célula mais adequado para identificar e descrever os padrões propostos na Tabela 1. As células onde não foram observadas manchas de desmatamento foram classificadas como “floresta”. [18]

[1] Tavares, L.; Cordeiro, L. 2017. Perfil Socioeconômico e Ambiental do Sul do Estado do Amazonas: Subsídios para Análise da Paisagem. WWF–Brasil, Brasília, DF. 56 p.
[2] IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 2021. Malha Municipal.
[3] Franco, M.H.M. 2011. Novas configurações territoriais no Purus indígena e extrativista. In: G.M. dos Santos (ed.) Álbum Purus. EDUA, Manaus, AM, vol. 1, p. 153-166.
[4] RADAMBRASIL. 1978. Folha no. SB 20 Purus: geologia, pedologia, vegetação, e uso potencial da terra. Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), Rio de Janeiro, RJ. 566 p.
[5] IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 2020. Solos.
[6] Alvares, C.A.; Stape, J.L.; Sentelhas, P.C.; Gonçalves, J.L.M.; Sparovek, G. 2013. Köppen’s climate classification map for Brazil. Meteorologische Zeitschrift, 22(6), 711-728.
[7] INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). 2021. Desmatamento – Amazônia Legal. INPE, Coordenação Geral de Observação da Terra. Programa de Monitoramento da Amazônia e Demais Biomas.
[8] Assis, L.F.F.G. Ferreira, K.R.; Vinhas, L.; Maurano, L.; Almeida, C.; Carvalho, A.; Rodrigues, J.; Maciel, A.; Camargo, C. 2019. TerraBrasilis: A spatial data analytics infrastructure for large-scale thematic mapping. ISPRS International Journal of Geo-Information, 8, art. 513.
[9] Maurano, L.E.P.; Escada, M.I.S.; Renno, C.D. 2019. Padrões espaciais de desmatamento e a estimativa da exatidão dos mapas do PRODES para Amazônia Legal Brasileira. Ciência Florestal [Santa Maria], 29(4), 1763-1775.
[10] Azeredo, M.; Monteiro, A.M.V.; Escada, M.I.S.; Ferreira, K.R.; Vinhas, L.; Pinheiro, T.F. 2016. Mineração de trajetórias de
[11] Gavlak, A.A. 2011. Padrões de Mudança de Cobertura da Terra e Dinâmica Populacional no Distrito Florestal Sustentável da BR-163: População, Espaço e Ambiente. Dissertação de mestrado em sensoriamento remoto. INPE, São José dos Campos, SP.
[12] Saito, E.A.; Fonseca, L.M.G.; Escada, M.I.S.; Körting, T.S. 2011. Análise de padrões de desmatamento e trajetória de padrões de ocupação humana na Amazônia usando técnicas de mineração de dados. In: Anais XV Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto – SBSR, Curitiba, PR, Brasil, 30 de abril a 05 de maio de 2011. INPE, São José dos Campos, SP. p. 2833-2840.
[13] Yanai, A.M.; Graça, P.M.L.A.; Escada, M.I.S.; Ziccardi, L.G.; Fearnside, P.M. 2020. Deforestation dynamics in Brazil’s Amazonian settlements: Effects on land-tenure concentration. Journal of Environmental Management, 268, art. 110555.
[14] Saito, E.A. 2010. Caracterização de Trajetórias de Padrões de Ocupação Humana na Amazônia Legal por Meio de Mineração de Dados.. Dissertação de mestrado em sensoriamento remoto. INPE, São José dos Campos, SP. 158 p.
[15] Saito, E.A.; Fonseca, L.M.G.; Escada, M.I.S.; Körting, T.S. 2012. Efeitos da mudança de escala em padrões de desmatamento na Amazônia. Revista Brasileira de Cartografia, 63(3), 401–414.
[16] Pinheiro, T.F.; Escada, M.I.S.; Valeriano, D.M.; Hostert, P.; Gollnow, F.; Müller, H. 2016. Forest degradation associated with logging frontier expansion in the Amazon: The BR-163 region in southwestern Pará, Brazil. Earth Interactions, 20, art. 17.
[17] Assis, T.O.; Escada, M.I.S.; Amaral, S. 2021. Effects of deforestation over the Cerrado landscape: A study in the Bahia frontier. Land, 10(4), art. 352.
[18] Esta série traduz o trabalho Cabral, B.F., A.M. Yanai, P.M.L.A. Graça, M.I.S. Escada, C.M. de Almeida & P.M. Fearnside. 2024. Amazon deforestation: A dangerous future indicated by patterns and trajectories in a hotspot of forest destruction in Brazil. Journal of Environmental Management 354:art. 120354.
Sobre os autores
Beatriz Figueiredo Cabral possui graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras e mestrado em Ciências de Florestas Tropicais (CFT) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Atualmente é doutoranda em CFT no INPA, onde desenvolva uma tese sobre “Projeções para a Expansão da Fronteira Amazônica: Simulação do Desmatamento e da Degradação Florestal sob Futuros Cenários Climáticos”. Ela tem experiência em análise e manipulação de dados de sensoriamento remoto, sistemas de informação geográfica, programação nas linguagens R e Python e simulação do desmatamento no software Dinamica-EGO para análises espaço-temporais na Amazônia.
Aurora Miho Yanai é engenheira florestal pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e tem mestrado e doutorado pelo Inpa em ciências de florestas tropicais. Atualmente é pesquisadora no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde ela continua suas pesquisas iniciadas como pós-doutoranda no mesmo instituto trabalhando com modelagem de desmatamento na região Trans-Purus. Ela tem experiência na análise e modelagem de desmatamento no sul do Amazonas.
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça é doutor pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele tem mestrado em ciências florestais pela Universidade de São Paulo, (USP-Esalq) e graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ele é pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), atuando junto ao laboratório de agroecossistemas. Ele tem publicado artigos sobre mapeamento de exploração madeireira utilizando técnicas de sensoriamento remoto, modelagem espacial do uso da terra, impacto do desmatamento, e eficiência de queima de biomassa florestal, entre outros.
Maria Isabel Sobral Escada possui doutorado e mestrado em sensoriamento remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e graduação em ecologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Ela é pesquisadora na Divisão de Observação da Terra e Geoinformática da Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), São José dos Campos, São Paulo. Ela atua nos seguintes temas: monitoramento de floresta por satélite, análise da paisagem e de padrões e processos mudança de uso da terra com técnicas de processamento de imagens, mineração de dados e análise espacial, técnicas aplicadas a estudos sobre degradação florestal, desmatamento, regeneração, atividades econômicas associadas ao uso e cobertura da terra e saúde.
Cláudia Maria de Almeida possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – USP, Mestrado em Infrastructure Planning pelo Centre for Infrastructure Planning, Universität Stuttgart, Alemanha, e Doutorado em Sensoriamento Remoto pela University College London, Inglaterra / Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Tem experiência na área de Sensoriamento Remoto aplicado ao Planejamento Urbano e Regional, com ênfase em Técnicas de Previsão e Avaliação Urbana e Regional, atuando principalmente nos seguintes temas: Modelagem Dinâmica Espacial, Modelos de Autômatos Celulares, Sensoriamento Remoto de Alta Resolução Espacial, Análise de Imagens Baseada em Objeto e Geoinformação.
Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.
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