A Norte Energia, concessionária do Ministério das Minas e Energia, que opera a hidrelétrica de Belo Monte, reagiu ao último artigo que escrevi sobre o tema com uma nota, na qual se defendia das criticas que lhe fiz sobre sua ação na bacia do rio Xingu, no Pará, onde a usina se localiza.
Nessa primeira nota, a Norte Energia fornecia algumas informações e se recusou a tratar de questões centrais sobre o uso da hidrelétrica, a quinta maior do mundo. Por isso, mantive as críticas e fiz novas perguntas. Outra vez, a empresa não tratou desses problemas.
A seguir, reproduzo a segunda nota oficial da Norte Energia e, em seguida, mostro as razões para que ela não trate dos assuntos.
A SEGUNDA NOTA DA EMPRESA
A Norte Energia iniciou no último domingo, dia 16, a redução da vazão destinada ao reservatório intermediário da Usina Hidrelétrica Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, como medida preventiva diante dos possíveis efeitos do fenômeno El Niño na região Norte. A vazão está sendo reduzida gradualmente de 300 m³/s para 100 m³/s. Essa medida não altera o volume de água destinado à Volta Grande do Xingu.
A operação excepcional está contemplada na Agenda Estratégica Eletroenergética 2026, aprovada pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) e atende a ofício do Ministério das Minas e Energia à Norte Energia.
A medida permanecerá em vigor até 30 de novembro e tem autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
A operação excepcional visa proporcionar maior previsibilidade e confiabilidade ao ONS no planejamento e na operação do Sistema Interligado Nacional, melhores condições de navegabilidade no reservatório principal da usina, contribuindo para o deslocamento de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de contribuir para o funcionamento do Sistema de Transposição de Peixes de Belo Monte, utilizado anualmente por espécies migratórias durante o período reprodutivo, favorecendo a piracema.
Durante todo o período da operação excepcional a Norte Energia realizará o monitoramento da qualidade da água, das condições dos igarapés, da navegação e da movimentação dos peixes, mantendo os órgãos reguladores informados sobre os resultados.
Belo Monte é a maior usina hidrelétrica 100% brasileira e a quinta maior do mundo. Desde que entrou em operação, em maio de 2016 até o primeiro semestre deste ano, a usina gerou 264.934.035 MWh, energia suficiente para atender toda a demanda do país por cinco meses sem precisar recorrer a outras fontes. A hidrelétrica é responsável em média pelo atedimento de 5% da demanda do país e atua como bateria natural do sistema, ajudando na reserva nacional e em momentos de alta demanda de energia.
Altamira/PA, 18 de agosto de 2026
Resposta do jornalista Lúcio Flávio Pinto
Seria tão mais simples – e honesto – que a Norte Energia se limitasse a responder, com exação e respeito, às perguntas que lhe formulei, com a melhor das intenções. Assim, além dessas perguntas, aduzo outras, cuja menção a empresa omitiu ou escondeu. Ao contrário do meu juízo anterior, ela não procura esclarecer os fatos e ajudar a opinião pública a chegar à verdade.
Sem fazer história, a Norte Energia não registrou um episódio de anos atrás, quando a Eletronorte, a estatal capitão-do-mato, teve que admitir, aqui em Belém, que, sim, a gigante iria dormir por pelo menos três ou quatro meses nos braços de Mofeu (ou seria o tal do Odisseu cênico), ou ficaria abaixo da sua capacidade final em um semestre. Por falta de água.
A concessionária do Ministério das Minas e Energia (e da ANA, do ONS, do escambal tecnoburpcrático) instalou 18 turbinas Francis (enormes e de grande potência), e mais seis do tipo bulbo (de 38 MW a unidade). Cada uma das grandes máquinas, instaladas na casa de força principal, 90 quilômetros a jusante dessa represa) cada uma delas pode gerar 611 MW. Para isso, porém, teria que dispor de 775 metros cúbicos de água por segundo para atingir o máximo de potência (que a Norte jura que daria para atender todo o consumo do Brasil nos 10 anos de funcionamento da hidrelétrica).
Ora, como a companhia está reduzindo de 300 para 100 m3 a vazão, todas as turbinas de Belo Monte, obra de 43 bilhões de reais (iniciada com R$ 19 bilhões), estão sem funcionar. Continuarão inertes por mais três meses. O que significa também que a hidrelétrica está fria como um cadáver de índio, posseiro, ambientalista ou jornalista. Para gerar os mais de 11 mil MW, que lhe dão o título de quinta maior hidrelétrica do mundo, era preciso que a Norte Energia mantivesse o fluxo de 775 m3 por minuto por máquina, ou 13.950 m3 por segundo pelo conjunto das 18 turbinas.
A Norte Energia jura que, montada na sua Agenda Estratégica e Eletroenergética, que está em vigor há 10 anos (depois de 10 anos de construção) com melhores condições de navegabilidade no reservatório principal da usina (mas não informa quantos metros cúbicos de água ele acumula), contribuindo para o deslocamento de comunidades indígenas e ribeirinhas (sem especificar que contribuição dará, com cronograma já atrasado), além de contribuir para o funcionamento do Sistema de Transposição de Peixes de Belo Monte, utilizado anualmente por espécies migratórias durante o período reprodutivo, favorecendo a piracema (Qual é a expectativa da queda na produção?).
Ah, sim: o que essa portentosa companhia prevê que poderá contribuir para diminuir a violência de El Niño se reduzir a vazão a um terço da seca que a caracteriza atualmente?
Talvez mude o nome do fenômeno da natureza para El Niñão.
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