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A Batalha do Rio Negro

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A Batalha do Rio Negro

Os ribeirinhos da comunidade Santo Antônio, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro, no Amazonas, travam uma luta de 11 anos contra a missão evangélica norte-americana Global Thinkers Now, ou GTN Brasil, que invadiu a Unidade de Conservação, prometendo realizar ações de educação e saúde, que não foram concretizadas. O casal de missionários Beatriz e Robert Ritzenthaler construiu uma residência luxuosa que contrasta com as casas de madeira dos  moradores. Eles aguardam a retirada definitiva do casal da reserva para viverem em paz na floresta.

Por Soraia Joffely e Juliana Pesqueira (fotos)

Novo Airão (AM) – O Rio Negro não tem pressa. Suas águas escuras conduzem a lancha em que a equipe da Amazônia Real embarcou, em Novo Airão. Navegamos por cerca de 40 minutos enquanto a floresta parecia engolir qualquer sinal de cidade. É desse percurso que surge Santo Antônio, comunidade ribeirinha localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, a cerca de 100 quilômetros, em linha reta, de Manaus. Vista da embarcação, ela aparece discreta entre o verde intenso da mata, acessada por uma rampa de madeira que leva ao alto da margem, onde vivem 11 famílias. A RDS Rio Negro é uma unidade de conservação estadual que abrange também a capital do Amazonas, Manaus, e os municípios de Iranduba e Manacapuru.

À primeira vista, Santo Antônio parece guardar o tempo em outro ritmo. Na comunidade, não há muros separando casas, nem cercas delimitando caminhos. As trilhas atravessam quintais, conectam vizinhos e contam uma história construída muito antes da chegada da eletricidade e do sinal de internet. Mas por trás da paisagem que encanta turistas do mundo inteiro existe uma comunidade marcada por um conflito judicial que já atravessa mais de uma década. 

A batalha na justiça envolve, de um lado, os moradores locais, e do outro o casal Robert e Beatriz Augusta Ritzenthaler. Beatriz é brasileira e Robert estadunidense. Eles são responsáveis pela Global Thinkers Now – GTN Brasil, uma organização missionária ligada à Igreja Adventista de Michigan, nos Estados Unidos.  

Desde 2015, a GTN Brasil ocupa uma área onde foram erguidas estruturas que incluem uma propriedade de aproximadamente 360 metros quadrados do casal Beatriz e Robert e uma residência de alvenaria com cerca de 490 metros quadrados. O conjunto conta ainda com um píer de madeira voltado para um igarapé, além de rampa de acesso, poço artesiano e caixa d’água. A arquitetura luxuosa contrasta com o modelo tradicional das casas de madeira  dos ribeirinhos. 

O casal chegou na comunidade para evangelizar e inicialmente teve apoio dos moradores, também adventistas, que acreditaram estar trabalhando por melhorias na igreja e na obra missionária. Com o tempo, promessas não cumpridas por parte do casal, ações suspeitas que incluíram uso de imagem dos locais sem autorização e restrição de locomoção na própria comunidade determinada pelo casal, os conflitos se intensificaram e o caso virou um processo na Justiça do Amazonas.

No dia 6 de agosto, o Ministério Público do Amazonas denunciou o casal Ritzenthaler e o ex-presidente da APCSA Edilson Martins Pinheiro por crime ambiental de uma área de mais de 4 mil metros quadrados de floresta na comunidade Santo Antônio. Conforme reportagem publicada pela TV Amazonas, a denúncia ocorreu depois que os três acusados recusaram um acordo proposto pelo promotor de justiça João Guimarães Netto, responsável pela investigação. 

No caso do casal Ritzenthaler, a proposta previa a destinação dos dois imóveis construídos na área à comunidade. Para Edilson, que nega a acusação, o acordo estabelecia o pagamento de uma cesta básica no valor de um salário mínimo a uma entidade ou a prestação de serviços comunitários por 16 meses. O casal não atendeu à reportagem para falar sobre a denúncia do MP.

O lugar que a gente cresceu

Em abril deste ano, a Vara Única da Comarca de Novo Airão, concedeu uma decisão liminar determinando que a ONG missionária e os Ritzenthaler não realizem novas intervenções na área ocupada e deixem de impedir o acesso dos moradores a espaços de uso comunitário. A medida foi concedida no âmbito de uma Ação Civil Pública (ACP), que também pede a responsabilização dos envolvidos por danos ambientais e a reversão das construções erguidas no local.

Meses antes da liminar, a reportagem da Amazônia Real entrevistou o procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), Geraldo Uchôa. Na época, a PGE aguardava o resultado do andamento da ACP, ajuizada em 2025 pelo Estado do Amazonas e pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), com o objetivo de retirar da RDS Rio Negro ocupações consideradas incompatíveis com a finalidade da unidade de conservação.

A ACP também pede que o casal deixe a comunidade, mas ainda não há uma decisão da justiça sobre este aspecto. No entanto, a presença dos Ritzenthaler, com promessas de melhorias para a comunidade que não foram cumpridas, provocou diversos impactos que interferem até hoje no cotidiano das famílias ribeirinhas.

“Assim… no lugar que tu nasceu, sabe? E passar por isso, entende? Mas a gente espera superar isso. E vamos alcançar a paz. Muitas famílias saíram daqui por causa disso”, refletiu Marineuza Miranda, uma das personagens mais importantes dessa história, em entrevista à Amazônia Real.

“A Comunidade Santo Antônio, ela é pra nós aqui, é tudo. Foi o lugar que a gente cresceu, se criou aqui, dentro de uma harmonia, principalmente familiar, porque a Comunidade Santo Antônio é composta, na sua maioria, por famílias. Então, a gente era unido. Não tinha brigas na época, não tinha justiça, não tinha… O que acontecia aqui, a gente resolvia entre a gente, por ser só família. Então, quando eu falo de perder a identidade, foi quando começaram esses conflitos. Aí a gente já não sabe mais quem era quem”, completou.

Os moradores também descobriram que um site da ONG promovia uma campanha internacional de arrecadação de dinheiro usando fotografias das pessoas da comunidade. Se algum dinheiro foi arrecadado, os moradores contam que não sabem onde foi aplicado, já que as melhorias prometidas, como escola e posto de saúde, nunca chegaram. 

É preciso recuar no tempo para entender como a missão chegou à comunidade e como tantas esperanças se frustraram com o passar dos anos. 

Marineuza Miranda, nascida e criada na comunidade, conhece bem essa história desde o começo. Ela e o marido, Edilson, que na época era presidente da Associação de Produtores Agrícolas da Comunidade Santo Antônio, receberam o casal de missionários por indicação de um pastor evangélico. A missão prometia assistência médica e odontológica periódica, um posto de saúde, escola com cursos profissionalizantes, ações sociais permanentes e apoio ao desenvolvimento da comunidade. As famílias viram nas promessas a possibilidade de superar carências históricas de infraestrutura e assistência.

Durante dois anos e meio, Marineuza e o marido receberam um salário de 1.500 reais e engajaram-se no trabalho junto aos missionários. Na visão de Marineuza, colaborar com a missão significava contribuir para uma causa maior. 

“A gente trabalhava por amor à missão porque nós, evangélicos, cremos que Jesus vai voltar e que o amor, o evangelho, tem que ser pregado a todos, não importa a raça ou cor. Então, a gente trabalhava nisso. Focado nisso. O trabalho que a gente fez foi abençoado pelo Espírito Santo e a gente conseguiu porque a maioria dos comunitários é de evangélicos”, explicou.

Em Santo Antônio, onde a maioria dos moradores compartilhava a mesma crença religiosa, a igreja funcionava como um elo entre famílias que dividiam a mesma fé e cotidiano como ribeirinhos às margens do rio Negro.

Quando o conflito se instalou, porém, as rachaduras ultrapassaram as relações entre moradores e missionários. A decepção já havia se espalhado pela comunidade. “As pessoas têm mania de te ver como um exemplo. E a gente não é um exemplo. Nós somos um exemplo de Deus. Nós somos seres humanos. O sujeito falha a qualquer momento.” E a líder ainda revelou: “Isso afetou também a igreja evangélica, porque quando eles chegaram aqui na comunidade, eles se identificaram como da igreja evangélica.”

O resultado também apareceu nos bancos vazios da igreja. As famílias que durante anos participaram dos cultos deixaram de frequentar as celebrações. Algumas se afastaram silenciosamente, outras abandonaram completamente a vida religiosa que fazia parte da rotina da comunidade. Segundo Marineuza, apenas duas ou três famílias participam das atividades da igreja hoje em dia.

Marineuza e Edilson não apenas abriram as portas da comunidade. Eles vestiram a camisa do projeto. A relação de confiança cresceu a ponto de Marineuza e Edilson aceitarem morar na casa construída pela missão, auxiliando na manutenção do espaço e na organização das ações enquanto os missionários ainda viviam entre o Brasil e os Estados Unidos. Edilson também assumiu uma função: tornou-se tesoureiro da organização Global Thinkers Now Brasil responsável pelas atividades desenvolvidas na comunidade. 

Logo que os missionários chegaram, algumas promessas pareciam caminhar. Médicos, dentistas e outros profissionais de saúde realizaram atendimentos em Santo Antônio e nas comunidades vizinhas nos três primeiros anos. “No primeiro ano realmente veio equipe de médico, dentista, pediatra. Mas era só uma vez no ano. Três anos consecutivos passou a acontecer isso”, lembra Marineuza. A grande expectativa da comunidade, no entanto, era com a nova escola.

Sem escola, sem saúde

Escola na comunidade Santo Antônio, na RDS do Rio Negro (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).

No centro do povoado, está uma escola multisseriada que atende crianças de Santo Antônio, Tiririca e Marajá até o 9º ano do ensino fundamental. Todas as manhãs, uma lancha escolar cruza o rio Negro para reunir os alunos das comunidades vizinhas. As crianças dividem a mesma sala de aula, aprendem juntas e crescem compartilhando o território que seus pais e avós ajudaram a construir.

Para muitos jovens, entretanto, o fim do ensino fundamental representa uma difícil escolha: deixar a comunidade para continuar estudando ou interromper a formação escolar. Foi essa realidade que levou os moradores a receber o casal Ritzenthaler com otimismo e a ceder um terreno para a construção da residência para os missionários. 

“O projeto era bom. A gente falou pra comunidade, a comunidade aceitou em assembleia e liberou um espaço de terra para a Beatriz  construir a casa. Existia toda uma papelada. A gente reunia a comunidade, passava o projeto e a comunidade dava o ok”, contou Marineuza à reportagem. A casa serviria como uma base para que os missionários pudessem se instalar e viabilizar os projetos. 

A casa foi construída num padrão muito acima das moradias locais, contando, inclusive, com o trabalho de voluntários da comunidade. Eles dedicavam dias inteiros à pintura, ampliação e limpeza da estrutura. Enquanto isso, as demandas dos moradores foram sendo adiadas. Nada de escola nem posto de saúde. Marineuza conta que, durante muito tempo, ela e o marido tentaram explicar aos moradores que os benefícios chegariam. Mas, segundo Marineuza, a expectativa começou a ruir quando os moradores foram informados de que a escola deixaria de ser prioridade.

“Era algo que até então ia ser bem legal pra comunidade, então a gente aceitou. Aí foi quando o casal falou que eles não iam mais construir a escola”, revela.

A ruptura, de fato, aconteceu quando Edilson passou a questionar a movimentação financeira da organização missionária. Como tesoureiro, ele percebeu que recursos foram destinados para construção, manutenção e conforto da residência particular do casal de missionários. Compras e pagamentos que, na avaliação dele, não tinham relação com os objetivos sociais apresentados anos antes, segundo contou Marineuza à reportagem.

Foi também nesse período que moradores descobriram nas redes sociais dos missionários uma campanha de arrecadação de recursos nos Estados Unidos. A campanha usava fotografias de pessoas da comunidade para solicitar doações internacionais. Segundo Marineuza, os comunitários jamais foram informados de que suas fotografias serviriam para captação de dinheiro no exterior e, tampouco, viram os valores arrecadados se converterem nas melhorias prometidas.

“Aí, foi quando os parentes ficaram todos revoltados e começaram a pesquisar a vida do casal.  Vimos que ela usava o nome da comunidade, pedindo benefícios, inclusive foto da minha família como missionária. Minha família, eu, meu filho, minha filha e meu esposo, rodando nos Estados Unidos”, contou Marineuza. Ela e Edilson deixaram a residência da missão. Os problemas estavam só no começo e o conflito se acentuaria ainda mais.

Proibido transitar no seu território

RDS do Rio Negro (AM): Na comunidade Santo Antônio (Novo Airão), 11 famílias ribeirinhas vivem um impasse territorial desde 2016 devido à permanência de um casal de missionários não ribeirinhos na área, presença que hoje divide opiniões e gera conflitos no território (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).

A presença do casal provocou a restrição de acesso dos moradores a áreas de uso coletivo da comunidade. Um exemplo foi a construção de uma ponte de madeira rústica para conectar uma estrutura que serviria de apoio à comunidade, chamada “Casa Silva”, à residência de alto padrão do casal. 

A passarela atravessa uma área estratégica da comunidade, próxima a um dos principais pontos de embarque e desembarque usados pelos moradores. Famílias tiveram que alterar trajetos usados há décadas para acessar suas casas, passando a percorrer caminhos mais longos para evitar conflitos com o casal. 

Segundo Mariete Miranda, atual presidente da Associação de Produtores Agrícolas da Comunidade Santo Antônio (APCSA), o casal passou a impedir que moradores utilizassem os caminhos abertos entre as casas. 

“Aqui na nossa comunidade, a gente tem acesso pra todo o canto. Tem casa aqui, tu quer ir pra ali, a gente já atalha caminho aqui, vai pra ali ou vai pra casa dela, tudo é através de caminho, né? Aí ela [Beatriz Ritzenthaler] já começou a cortar porque ela não queria que ninguém passasse na área da casa dela”, relatou. 

A construção da ponte ampliou as tensões. Em reunião comunitária, moradores questionaram a obra por entenderem que ela alterava a circulação em uma área coletiva. Ainda assim, conforme Mariete, a estrutura foi concluída sem consenso da comunidade. “Ela fez a escada dela, fez a passarela. Ignorou todo mundo”, afirmou.

Os relatos reunidos pela associação comunitária apontam que as restrições extrapolaram a área da residência. Moradores afirmam que crianças foram desencorajadas a utilizar o campo de futebol do povoado em algumas ocasiões e que atividades cotidianas passaram a ser alvo de questionamentos. Um dos episódios envolve um comunitário repreendido após retirar um pé de pimenta em uma área de uso compartilhado pelos moradores. Segundo moradores que testemunharam o episódio, Beatriz teria afirmado que ele estava retirando itens de seu “quintal”, embora os moradores consideram o espaço parte do território coletivo.

“Isso tirou totalmente a nossa liberdade. Hoje a gente fica pensando no que ela está fazendo porque ela tem dinheiro, tem advogado. Não existe mais aquela paz que a gente tinha antes”, resumiu Mariete. 

Uma sensação de vigilância também passou a fazer parte da rotina dos moradores. Os relatos de Mariete e Marineuza trazem episódios de instalação de câmeras em diferentes pontos da propriedade e o monitoramento constante das áreas próximas. Em eventos e encontros realizados pelos missionários, seguranças particulares e pessoas de fora da comunidade costumam se encarregar de controlar a circulação de visitantes e comunitários.

Em documento encaminhado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA), a Associação de Produtores Agrícolas da Comunidade Santo Antônio afirma que os espaços ocupados pelos imóveis da Global Thinkers Now Brasil passaram a funcionar de forma isolada do restante da comunidade e que moradores teriam sido impedidos de transitar livremente. O documento também sustenta que a área entre a “Casa Silva” e a residência do casal passou a restringir o acesso de comunitários a um dos principais  caminhos para o rio.

Do outro lado, o silêncio. “Não tivemos resposta”, diz a moradora Marineuza Pontes. Segundo ela, a única notícia que chegou aos moradores foi a de que a ocupante da área teria um prazo para deixar a comunidade.

Em março de 2024, a Global Thinkers Now Brasil ajuizou uma ação contra a APCSA para impedir que a entidade tentasse revogar a autorização de funcionamento da organização na “Casa Silva”, também sede da GTN Brasil. Na ação, a GTN Brasil sustentou que exerce a posse do imóvel desde 2015, que a construção foi realizada com recursos próprios provenientes de doações e que desenvolve atividades sociais sem fins lucrativos na comunidade. Em decisão liminar de março de 2024 a Justiça da Vara Única da Comarca de Novo Airão determinou que a APCSA se abstivesse de qualquer intervenção que pudesse ameaçar a posse da ONG sobre o imóvel, fixando multa diária de R$ 200,00 em caso de descumprimento.

A comunidade decidiu reagir

Comunitária Marineuza Miranda (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).

Marineuza avalia que o processo marcou um novo capítulo da disputa e a dimensão do conflito mudou. “Eu falei [para Beatriz]: ‘Você fez totalmente errado. Em vez de puxar o comunitário para o seu lado, você processa uma comunidade’. Até então o problema era particular, era nosso. Era meu e dela. A gente discutiu lá, ‘então, vai para lá que eu vou para cá’. Mas, a partir do momento que ela processou a comunidade, aí a gente praticamente sai e o Estado toma conta, porque é uma comunidade. Está sobre uma área protegida. Então é obrigação do Estado proteger a comunidade.”

Foi nesse contexto que a Defensoria Pública do Amazonas passou a acompanhar o caso. Em 2024, uma equipe formada por defensoras públicas visitou Santo Antônio para ouvir os moradores e coletar informações sobre as denúncias apresentadas pela comunidade. Entre os relatos, estavam a construção de imóveis de alto padrão dentro da RDS do Rio Negro, a utilização de áreas coletivas para fins particulares, restrições à circulação de moradores e o uso indevido de imagens dos comunitários em campanhas de arrecadação.

A defensora pública Daniele Fernandes, coordenadora do Núcleo Especializado de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, afirmou que a atuação da instituição buscava verificar possíveis violações de direitos coletivos da comunidade.

“Quanto aos direitos da comunidade ribeirinha Santo Antônio, identificamos indícios de violações tanto no momento da chegada da organização missionária quanto durante sua permanência no território. Essas violações abrangem o direito ao território e o direito à consulta prévia, livre e informada, ambos fundamentais para comunidades tradicionais”, disse.

Daniele explicou que a equipe ouviu moradores sobre as promessas de construção de espaços educacionais e sociais para uso da comunidade que nunca foram entregues. “Embora a organização alegue ter se estabelecido no território com o consentimento da comunidade, os relatos coletados indicam vícios no processo de obtenção deste consentimento”, observou Daniele. O acompanhamento da Defensoria acabou servindo como porta de entrada para uma atuação mais ampla do Estado no caso.

Em nota enviada à reportagem, a Defensoria informou que atuou inicialmente de forma extrajudicial, acionando órgãos estaduais competentes e cobrando providências sobre as denúncias apresentadas pelos moradores. Foi a partir dessa articulação que a Procuradoria Geral do Estado passou a atuar diretamente na situação no caso e, em conjunto com o Ipaam, ajuizou ação civil pública para responsabilizar a GTN Brasil e seus representantes pelos danos ambientais e pelas irregularidades apontadas na comunidade Santo Antônio.

O tempo da Justiça

Construção da ponte para ligar à casa dos missionários na comunidade de Santo Antônio na RDS do rio Negro (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).

Sob a chuva fina do inverno amazônico, a equipe da Amazônia Real foi até a residência onde vivem o casal de missionários Beatriz Augusta e Robert Ritzenthaler. A casa fica nos fundos do terreno, separada do restante da comunidade Santo Antônio por uma cerca de madeira e ligada à chamada “Casa Silva” pela passarela construída sobre o barranco que dá acesso ao rio Negro. Fomos recebidos na varanda da residência pelo casal. A primeira pergunta veio antes mesmo das apresentações.

– “Quem são vocês?”

A reportagem se identificou e explicou que produzia uma reportagem sobre o conflito envolvendo a comunidade. Beatriz e Robert aceitaram conversar, mas não permitiram nenhum tipo de gravação. Durante pouco mais de uma hora, o casal apresentou sua versão dos fatos. 

Antes mesmo de responder às perguntas da reportagem, Beatriz insistiu que a equipe visitasse outra comunidade e conversasse com pessoas indicadas por ela. Ao longo da conversa, repetiu diversas vezes que os moradores ouvidos pertenciam à mesma família e tinham “a mesma agenda”, além de afirmar que preferia que qualquer manifestação oficial fosse feita por seus advogados. 

Questionada sobre as promessas relatadas pelos comunitários, entre elas a construção de uma escola e de um posto de saúde, Beatriz negou que esses compromissos tenham sido assumidos pela organização. Segundo ela, o trabalho desenvolvido pela GTN sempre esteve voltado à educação musical e ao ensino de inglês para crianças das comunidades da região.

“Como que nós prometeríamos fazer uma escola? Eu sou professora de música. Eu não tenho diploma de pedagogia. […] Nós nunca fazemos promessas. Nunca vou prometer para você uma coisa porque eu não posso cumprir”, explicou. 

A missionária afirmou ainda que ela e o marido deixaram os Estados Unidos para desenvolver atividades educacionais na região e que a proposta sempre foi atuar “naquilo que a gente puder”.

“Quando a gente chegou aqui, primeiramente a gente falou: nós estamos aqui para trabalhar junto com as comunidades, poder ajudar naquilo que a gente puder”, revelou. 

Durante a conversa, a reportagem também questionou o casal sobre fotografias de moradores de Santo Antônio utilizadas em páginas ligadas à Global Thinkers Now e sobre a arrecadação de recursos no exterior. Beatriz respondeu apenas que as informações consultadas diziam respeito à GTN dos Estados Unidos e não à organização brasileira.

“Vocês estão olhando para o GTN USA. Isso é separado do GTN Brasil. O GTN Brasil é totalmente diferente.” 

Ela não respondeu, porém, aos questionamentos sobre a utilização das imagens dos moradores, a autorização para esse uso, os recursos arrecadados em nome da comunidade nem sobre as promessas de construção da escola e do posto de saúde mencionadas pelos ribeirinhos.

A reportagem procurou a Igreja Adventista de Michigan, nos Estados Unidos, em 4 de agosto, para esclarecer a relação da instituição com a Global Thinkers Now Brasil e questionar as acusações apresentadas pelos moradores da comunidade Santo Antônio. Até o momento a igreja não respondeu o pedido de explicação.

Vitória na Justiça

Comunidade Santo Antônio, na RDS do Rio Negro (Novo Airão-AM), (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).

Poucos dias depois da nossa ida a Santo Antônio, a comunidade finalmente obteve uma vitória na justiça mencionada no começo da reportagem. Em 24 de abril de 2026, a justiça decidiu que há indícios suficientes para determinar, em caráter de urgência, que Beatriz Augusta Ritzenthaler, Robert Ritzenthaler e a ONG Global Thinkers Now Brasil deixem de realizar novas construções ou intervenções na área ocupada. 

Em entrevista à Amazônia Real, o procurador-chefe da Procuradoria Especializada em Meio Ambiente da PGE, José Gebran, afirmou que a liminar representou um marco na condução do caso. Além da proibição de novas construções, o juiz determinou que o casal e a ong respeitem integralmente o embargo ambiental já existente e se abstenham de impedir ou restringir o acesso da comunidade às áreas comuns da RDS do Rio Negro, sob pena de multa diária de 5 mil reais, limitada a 150 mil reais.

Segundo Gebran, a liminar representa apenas uma das etapas da ação civil pública. O Estado pede à Justiça a retirada definitiva do casal da unidade de conservação, a reversão das edificações erguidas e a condenação dos réus ao pagamento de 5 milhões de rais por danos morais coletivos e ambientais. De acordo com o procurador, eventual indenização não seria destinada individualmente aos moradores, mas a um fundo voltado à reparação dos danos causados à comunidade e ao meio ambiente.

Apesar do avanço representado pela decisão liminar, ela não significa a retirada imediata do casal da comunidade. A medida tem caráter provisório e busca impedir novas intervenções na área enquanto o processo segue seu curso na Justiça. Segundo a Procuradoria-Geral do Estado, a desocupação definitiva da área depende da conclusão da ação civil pública, etapa em que ainda precisam ser assegurados o contraditório e a ampla defesa aos réus.

“Como a situação já avançou, não é uma invasão nova. O Estado precisa observar e garantir o direito de defesa por meio de um processo judicial para obter esse direito de retirar a instituição [do casal de missionários] e o perdimento da edificação em prol do Estado”, explicou o procurador José Gebran.

Posteriormente à entrevista com o casal e à decisão judicial, a Amazônia Real procurou a defesa do casal Ritzenthaler para que apresentasse formalmente a versão da defesa sobre as acusações feitas pelos moradores e pelos órgãos públicos. Até o fechamento desta reportagem, não houve manifestação. O espaço permanece aberto para eventual manifestação.

Impacto na saúde dos ribeirinhos

Comunitária Marineuza Miranda (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).

A disputa judicial com a missão atingiu diretamente Marineuza e Edilson. Na mesma ação de 2024 da GTN Brasil contra a APCSA já mencionada, a ong atribui a Edilson a responsabilidade por problemas na gestão financeira durante o período em que foi tesoureiro. O processo deixou marcas profundas na família. “Essa questão de processo… a gente nunca sofreu isso aqui. Então são gastos, são desgastes, são noites sem dormir”, Marineuza contou à reportagem.

Ela afirma que o peso da disputa afetou sua saúde emocional. Ao mesmo tempo em que enfrenta a cobrança de parte dos moradores por ter participado da chegada dos missionários, também convive com o sentimento de responsabilidade por um conflito que, segundo ela, jamais imaginou provocar.

“É um sentimento de impotência. Muitos dizem que a comunidade está vivendo hoje o que nós causamos. E, se eu for realmente analisar, nós causamos. Porque nós conhecemos eles primeiro. Mas a decisão não foi nossa sozinha. Foi em assembleia. A gente era uma diretoria, a gente aceitou. Eles [a assembleia] também poderiam ter brecado aqui”, desabafa.

A culpa também se tornou um peso difícil de carregar. Enquanto fala sobre o conflito, Marineuza interrompe a entrevista, se emociona e chora. Sem conseguir conter as lágrimas, ela resume o sentimento que a acompanha: “Então, assim, de uma forma ou de outra, eu me sinto culpada, entende?”

Fundada oficialmente em 1988, Santo Antônio é o menor entre as 19 comunidades da região. Quase todos os dias, visitantes desembarcam na comunidade para conhecer uma Amazônia vivida por quem nasceu nela. O roteiro passa pela casa de farinha, pelas trilhas cercadas de espécies medicinais, pela Casa da Descoberta, espaço de compartilhamento de saberes tradicionais, e pela loja de artesanato. Mais do que observar paisagens, os turistas acompanham o modo de vida dos moradores, um cotidiano em que a farinha ainda é feita coletivamente, o peixe chega fresco do rio e é servido à mesa no restaurante da comunidade e o tempo parece obedecer ao movimento das águas. 

Marineuza acredita que o fim da disputa passa pela saída definitiva do casal e torce para que a quietude volte à comunidade de vida simples e modesta. “Para mim, eles saindo, dá uma sensação de alívio. A gente espera superar isso. Muitas famílias saíram daqui por causa disso. Acho que se eles saíssem, volta a reinar a paz.”

  • RDS do Rio Negro (AM) Comunidade Santo Antônio (Novo Airão) (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).
  • Vista de comunidades ribeirinhas durante o percurso pelo rio em direção à comunidade de Santo Antônio (AM) (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).
  • RDS do Rio Negro (AM) Comunidade Santo Antônio (Novo Airão) (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).
  • RDS do Rio Negro (AM) Comunidade Santo Antônio (Novo Airão) (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).
  • RDS do Rio Negro (AM) Comunidade Santo Antônio (Novo Airão) (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).
  • RDS do Rio Negro (AM) Comunidade Santo Antônio (Novo Airão) (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).
  • RDS do Rio Negro (AM) Comunidade Santo Antônio (Novo Airão) (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).
  • RDS do Rio Negro (AM) Comunidade Santo Antônio (Novo Airão) (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2026).
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