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Por que os desmatadores investem em destruir a floresta amazônica  – 3: métodos do estudo

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Por que os desmatadores investem em destruir a floresta amazônica  – 3: métodos do estudo

Por Pedro Gandolfo Soares, Philip Martin Fearnside e Gerd Sparovek


O estudo foi conduzido no novo epicentro do desmatamento na Amazônia brasileira: o município de Apuí, localizado na porção sul do estado do Amazonas (Figuras 2 e 3). Apuí está entre os cinco municípios com maiores taxas de desmatamento no período de 2018 a 2023 e foi o município com mais desmatamento da Amazônia brasileira em 2022 (Figura 4).

Figura 2. Localização dos municípios de Apuí e Novo Aripuanã e o desmatamento total na Amazônia brasileira [1, 2].
Figura 3. Localizações do Projeto de Assentamento Rio Juma (PARJ), municípios de Apuí e Novo Aripuanã e BR 230 [1, 2].
Figura 4. Taxas de desmatamento registradas nos cinco municípios mais desmatados da Amazônia brasileira, de 2018 a 2024 [2].

Considerando as circunstâncias locais e o contexto de Apui, incluindo logística, infraestrutura e acesso a essa região fronteiriça de desmatamento, este estudo foi estruturado como um estudo de caso (em vez de um modelo de amostragem baseado em estatística) e focado na compreensão do processo decisório de um conjunto diversificado de atores em Apui sobre investir ou não no desmatamento. Este estudo traz uma avaliação única e atualizada do contexto atual do desmatamento em um ponto crítico de desmatamento na Amazônia brasileira, fornecendo uma abordagem inédita para explicar os efeitos das políticas e das flutuações de preços sobre o desmatamento a partir da perspectiva dos próprios agentes desmatadores.

A estratificação e distribuição das entrevistas entre diferentes grupos de proprietários de terras seguiram um modelo de conveniência (“bola de neve”), no qual os entrevistados eram residentes atores locais com posses fundiárias, assim sendo as principais partes interessadas que poderiam contribuir para a compreensão do processo de ocupação e expansão da fronteira pecuária na região. Esse método foi escolhido pelos autores para permitir a inclusão de uma amostra maior de entrevistados, proporcionando maior flexibilidade e abrangência territorial, visto que uma lista pré-selecionada dessas pessoas comprometeria a capacidade do estudo de alcançar o mesmo tamanho de amostra e abrangência.

A seleção dos entrevistados buscou capturar a diversidade dos proprietários de terras locais, incluindo os colonizadores originais (que chegaram com a criação do Projeto de Assentamento Rio Juma na década de 1980) e os pequenos, médios e grandes proprietários de terras em Apuí. A estratificação da amostra de entrevistados baseou-se em um mapeamento prévio desenvolvido pelos autores, que cruzou o banco de dados oficial do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) com o autodeclarado Cadastro Ambiental Rural, conhecido como o “CAR”.

Figura 5. Estratificação das posses fundiárias em Apuí e no Projeto de Assentamento Rio Juma (PARJ) ([1, 3], adaptado pelos autores).

Como resultado do exercício de mapeamento, os seguintes grupos foram definidos para determinar a amostragem deste estudo de caso:

Grupo 1: Colonos (pequenos produtores rurais agricultores) – Pessoas com um lote rural de até 100 ha que esteja delimitado na base de dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e registrado no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (SICAR).

Grupo 2: Atores semi-pequenos– Pessoas com dois ou mais lotes adjacentes registrados no SICAR, com uma área total máxima de quatro módulos fiscais (área total ≤ 400 ha).

Grupo 3: Atores médios e grandes – Pessoas com posses fundiárias com uma área total superior a quatro módulos fiscais (ou seja, área total > 400 ha) e/ou com um Cadastro Ambiental Rural (CAR) claramente desconectado do banco de dados INCRA.

No total, foram aplicados 46 questionários a pessoas com posses fundiárias em Apuí, em janeiro de 2021: 13 colonos, 19 atores semi-pequenos com posses fundiárias e 14 atores médios e grandes. Três entrevistas foram realizadas com instituições financeiras e quatro com órgãos ambientais estaduais e locais.

Figura 6. Mapa final com a distribuição dos lotes rurais entrevistados e avaliados neste estudo [1, 3].

Todas as entrevistas seguiram a mesma estrutura, aplicando-se a cada entrevistado um questionário específico, desenvolvido e testado pelos autores. Os questionários visavam compreender as trajetórias de ocupação do território, o perfil das pessoas com posses fundiárias (origem, data de chegada, empregos anteriores e ocupação), os custos associados à aquisição de terras, ao desmatamento e, por fim, à consolidação da pecuária como principal atividade econômica do ator. Os dados coletados também permitiram estimar a rentabilidade geral da especulação imobiliária e da pecuária na região.

Os 46 questionários e respostas específicas foram organizados em um banco de dados para consolidar os dados individuais nos três grupos principais (Material Suplementar, Tabela S4). Os dados financeiros históricos fornecidos pelos atores, em reais, foram convertidos para dólares americanos (US$) utilizando a taxa de câmbio fornecida pelo Banco Central do Brasil em 15 de junho do ano declarado. Os valores em US$ foram então ajustados para janeiro de 2021 aplicando-se o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) dos EUA. Os proprietários de terras que obtiveram a terra gratuitamente (12 casos, ou 22%) não foram considerados na análise financeira. Os dados consolidados e os resultados são apresentados a seguir. [4]


Notas

[1] IBGE (Instituto Brasilero de Geografia e Estatística), (2023). Malha Municipal.

[2] INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), (2026). PRODES — Coordenação Geral de Observação da Terra. h

[3] INCRA (Instituto Nacional de Colonicação e Reforma Agrária), (2020). Acervo Fundiário.

[4] Esta série é uma tradução de: Soares, P.G., Fearnside, P.M. & Sparovek, G. 2026. Deforestation in the Brazilian Amazon: why do local stakeholders on the frontier invest in clearing rainforest? Regional Environmental Change  26, art. 67. h


Sobre os autores

Pedro Gandolfo Soares possui bacharelado em Gestão Ambiental pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) e mestrado em Ecologia Aplicada pelo Centro de Energia Nuclear em Agricultura (CENA)/ESALQ, Universidade de São Paulo, Piracicaba-SP. Ele trabalha com mudanças climáticas e REDD+, tendo trabalhado no Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e em Manaus, e em diversos projetos de conservação na Amazônia.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.

Gerd Sparovek possui graduação em Agronomia e mestrado dourado em Agronomia (Solos e Nutrição de Plantas) pela Universidade de São Paulo (USP). Ele é professor e pesquisador aposentado do Departamento de Ciência do Solo, Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’, USP, Piracicaba-SP e, desde 2022, atua como Professor Sênior junto ao Instituto de Estudos Avançados da USP, com estudos voltados ao suporte à decisão de governança pública, agricultura familiar, agricultura de baixo carbono, reforma agrária, mercado institucional de alimentos, crédito fundiário, assistência técnica e extensão rural, expansão de fronteira agrícola irrigada, intensificação agrícola, e o código florestal.

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